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Comentários bíblicos e edições comentadas

Os estudos bíblicos e Vieira

2.3 Comentários bíblicos e edições comentadas

Entrados no século de Vieira, parece ocorrer o momento das grandes sínteses e das edições bíblicas comentadas. A primeira grande síntese a impor-se nos meios católicos é a do jesuíta Cornélio a Lapide, realizada quando já era professor de Sagrada Escritura no Colégio Romano (1616 a 1637, ano da sua morte). Mas, desde que foi editado o texto «ofi- cial» da Vulgata – a sixto-clementina –, começam também a surgir edições bíblicas comentadas, de que se destacarão as realizadas por Jean de la Haye.

2.3.1 Cornélio a Lapide

Cornélio a Lapide153 foi um prolífero comentador das Escrituras, tendo escrito prati- camente sobre todos os livros Bíblicos. (Com duas assinaláveis exceções: não comentou o livro de Job nem os Salmos!) Profundo conhecedor dos Padres da Igreja (particularmente de Jerónimo e Agostinho), ele também refere constantemente os expositores contemporâ- neos (mormente os jesuítas: Salmerón, Maldonado, Toledo e Barradas), uma vez que, na boa tradição jesuítica, privilegia a interpretação literal dos textos bíblicos (uma preocupa- ção que também vemos constantemente afirmada em António Vieira).

Mas uma coisa é certa, como observa certeiramente Jared Wicks, os expositores jesu- ítas das Escrituras são «conservadores»: eles são, antes de mais, teólogos (positivos) que                                                                                                                

152 Basil HALL, «Biblical Scholarship: Editions and Commentaries», in S. L. GREENSLADE (ed.), Op.

cit., pp. 91s.

153 Cornélio a Lapide nasceu em Bocholt (Holanda). Depois de ter estudado humanidades e filosofia

em Maastricht e Colónia, fez os seus estudos teológicos em Lovaina. Em 1592, com 25 anos, entrou na Companhia de Jesus, tendo sido ordenado sacerdote em 1595. Durante vinte anos (1596-1616), foi professor de hebraico e Sagrada Escritura em Lovaina. A seguir, foi chamado a Roma, onde lecionou as mesmas disci- plinas no Colégio Romano, até à sua morte, em 1637. Foi neste último período que editou os seus comentá- rios.

procuram na leitura bíblica os fundamentos da doutrina teológica, moral e espiritual154. O estudo das línguas bíblicas – e do hebraico, particularmente – estaria ao serviço da defesa da Vulgata contra os ataques dos protestantes. Isso, aliás, seria consignado na Ratio studio- rum (1599), editada poucos anos depois da Vulgata sisto-clementina. A exegese bíblica seria, em seguida, acompanhada da leitura dos Padres da Igreja.

São precisamente estes elementos que sobressaem nos comentários de a Lapide: ele sublinha o sentido literal dos textos, aos quais incorpora as afirmações dogmáticas (conci- liares) da Igreja, apoiadas por passagens dos Padres da Igreja155. Mas como excelente he- braísta que era, não se pense que a Lapide via nos textos originais apenas uma ajuda para interpretar a tradução latina da Vulgata; não, para ele, esses textos são a fonte da Revela- ção, através dos quais se pode chegar ao sentido genuíno das Escrituras.

O interesse dos comentários de a Lapide consiste no equilíbrio que demonstra entre a abordagem da Escritura, colocando ênfase na Tradição e nos Padres da Igreja, e, ao mesmo tempo, privilegiando uma investigação mais humanista, focada nos textos originais bíbli- cos, considerados por ele a verdadeira «fonte» da Revelação. Apesar de tudo, o seu sentido histórico-crítico está longe de ser apurado, como sublinha Crehan, dando frequentemente demasiada importância a elementos lendários provenientes de textos apócrifos156.

2.3.2 Edições bíblicas com comentários

Já mencionámos anteriormente o esforço de edição dos textos bíblicos, seja através de novas traduções a partir dos originais, seja a edição crítica da Vulgata (mas também dos textos bíblicos nas línguas originais), ou mesmo a edição de Bíblias poliglotas. O que ain- da não se referiu, e importa fazê-lo agora, é a edição do texto bíblico (mormente o texto latino) acompanhado de comentários157.

                                                                                                               

154 Cf. Jared WICKS, Op. cit., p. 637.

155 Trento recomendava aos expositores católicos não esquecerem os Padres da Igreja (numa crítica

velada ao célebre prefácio de Caetano ao seu comentário aos Salmos). Evidentemente, essas disposições seri- am evidenciadas por um dos Padres conciliares (e segundo superior-geral dos Jesuítas), Diogo Laínez, na sua obra Disputationes Tridentinae (só impressa em 1886)

156 Cf. F. J. CREHAN, Op. cit., p. 216.

157 Seria interessante consultar a obra de Fr. PÉRENNÈS, Dictionnaire de Bibliographie Catholique, 5

vols., Paris, Ed. de Jacques-Paul Migne, 1838 (sobretudo volume 1, onde surgem listadas as diferentes edições bíblicas).

Uma das edições mais frequentes, ao longo do século XV, é a do texto da Vulgata,

acompanhado pela Glosa Ordinária e pela postila de Nicolau de Lira (com as adições de Paulo de Burgos e a réplica de Matthias Döring)158.

Uma outra edição famosa, que causaria muita polémica e grandes inconvenientes ao seu editor, é a chamada «Bíblia de Vatablo», editada por Robert Estienne em 1545. Este famoso editor bíblico decidiu, naquele ano, publicar a Bíblia em latim com duas traduções paralelas (o texto da Vulgata e uma nova tradução, cujo autor ele não nomeava, mas que se sabe ser Leão de Judá, colaborador de Zwinglio) e com amplas anotações de Vatablo – ou melhor, com os apontamentos (scholia) das aulas de Vatablo no Colégio Real de Paris, ce- didos a Estienne pelos seus alunos. Esta edição levantou de imediato preocupações dos professores da Universidade de Paris e fez com que esta edição bíblica constasse de prati- camente todos os Índices de livros proibidos posteriores. Esta Bíblia, porém, teria uma his- tória posterior em Salamanca, onde foi revista por uma equipa de teólogos daquela univer- sidade, pelo que viria a receber o aval da Inquisição espanhola em 1584 para sua posterior publicação159.

Mas, uma vez entrados no século XVII, vemos surgir edições da Bíblia com o texto

oficial da Vulgata e com comentários dos mais importantes expositores do século XVI, num

esforço de divulgação da exegese bíblica verdadeiramente notável. Assinale-se, já em 1624, a publicação de Biblia sacra Vulgatae editionis (em 2 vols.), com as anotações críti- cas de Francisco Lucas de Bruges, e comentários dos jesuítas Juan Mariana, Manuel de Sá e Pierre Lansel, e que foi realizada em Antuérpia, por Balthasar Moreti.

Cerca de vinte anos mais tarde, em 1643, Jean de la Haye publica em Paris a Biblia Magna (5 vols.), com o texto da Vulgata e comentários de Jean de Gagny, Willelm Hessels van Est, Manuel de Sá, Giovanni Stefano Menochio e Jacques Tirin. E o mesmo autor pu- blicaria, alguns anos mais tarde, a Biblia Maxima (1660), em 19 volumes, em que faz pre- ceder os expositores atrás mencionados, pela postila de Nicolau de Lira, além de outros acrescentos de carácter textual.

                                                                                                               

158 A primeira edição do texto da Vulgata com a postila de Nicolau de Lira (que já incluía as adições

de Paulo de Burgos e as réplicas de Matthias Döring, bem como o comentário de Guilherme Brito sobre o Prólogo de Jerónimo) é de 1481, com impressão em Veneza. Catorze anos mais tarde, na mesma cidade, Bernardin Gadolo publicou pela primeira vez o texto da Vulgata com a Glosa ordinária e a postila de Nico- lau de Lira. Cf. Dominique BARTHÉLEMY (ed.), Critique Textuelle de l’Ancien Testament. 2. Isaïe, Jérémie, Lamentations, Friburgo (Suiça)/Göttingen, Éd. Universitaires de Fribourg/Vandenhoeck & Ruprecht, 1986, p. 29.

Em Inglaterra, uma equipa dirigida por John Pearson, edita também uma obra seme- lhante, Critici sacri160 (1660-1700), em 9 volumes, com comentários muito mais variados e «ecuménicos» (com expositores reformados e católicos). Esta obra, aliás, foi pensada co- mo complemento à Bíblia Poliglota de Londres (1654-1657), obra do bispo anglicano Bri- an Walton. E inspira também a obra de Matthew Poole, Synopsis criticorum biblicorum (1669-1682), em 5 volumes, na qual ele resume as opiniões dos maiores comentadores bí- blicos judeus e cristãos medievais e modernos.

Esta divulgação dos grandes comentadores bíblicos dos séculos XVI e XVII, ou mais

antigos, colocando-os por vezes em confronto, anuncia já o aparecimento da exegese histó- rico-crítica, tal como se manifestará no oratoriano Richard Simon161.