Lan house: os desaios da formalização desses centros de inclusão digital
3. Comentários e parecer sobre os projetos apresentados
Como visto acima, as propostas legislativas elencadas até o item “c” compar- tilham alguns pressupostos comuns para proceder à regulação dos estabelecimentos de acesso à Internet e que oferecem jogos eletrônicos. Vários desses pressupostos, entretanto, baseiam-se numa incompreensão do fenômeno das lan houses, en- sejando uma resposta legislativa inadequada ou desproporcional em relação aos problemas que se busca resolver.
Examinando as justiicativas apresentadas pelos autores das propostas anali- sadas, foi possível identiicar os seguintes pressupostos comuns:
a) Lan houses são empreendimentos dedicados exclusiva ou predominantemente à exploração de jogos ou de diversões eletrônicas;
b) Jogos são maléicos para a educação e devem ser proibidos;
c) Jogos violentos estimulam comportamentos agressivos por parte dos jogadores; d) Por oferecer jogos eletrônicos, as lan houses provocam a evasão escolar; e) As Lan Houses são locais utilizados para a prática de “crimes virtuais”. Em al-
guns casos, aponta-se as lan houses como ponto de consumo de drogas. Como se verá em novo parágrafo, esses pressupostos estão equivocados.
3.1 As falácias sobre lan houses
a) Lan houses são empreendimentos dedicados exclusivamente à exploração de jogos ou diversões eletrônicas;
Como já mencionado, os jogos eletrônicos não são a única atividade dos usuários de lan houses. A locação de computadores, com efeito, caracteriza-se por ser uma locação multipropósito¸ ou seja, na qual o usuário decide qual a inalidade do uso da ferramenta locada. Além disso, conforme foi apontado, tanto a pesquisa TIC Lan house, quanto a pesquisa Cultura Data demonstraram diversos usos e razões pelas quais os usuários procuram as lan houses, motivos que vão além de jogar: para se divertir, imprimir trabalhos, socializar, realizar cursos ou em busca de outros serviços oferecidos.78
Dessa forma, entende-se por equivocada a solução legislativa que busca sim- plesmente equiparar as lan houses a casas de jogos e diversões, desprezando seu potencial de inclusão de uma grande camada da população no comércio eletrônico,
78 Pesquisa TIC Lan Houses 2010. Disponível em http://www.cetic.br/tic/lanhouse/2010/index.
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bem como ignorando o importante papel destes estabelecimentos no oferecimento de serviços de comunicação e na disseminação de informação e cultura.
b) Jogos são maléicos para a educação e devem ser proibidos;
Em que pese haver dados claros apontando que as lan houses não são locais de uso exclusivo de jogos eletrônicos, é importante investigar mais a fundo a ar- gumentação de que jogos são maléicos para a educação e devem ser proibidos ou restringidos. Se, por um lado, cada vez mais busca-se explorar o potencial dos jogos como ferramentas educativas, por outro, tem-se que a argumentação em torno dos supostos malefícios dos jogos não se ancora em nenhuma pesquisa cientíica, dado empírico etc. O debate na literatura acadêmica recente aponta que alguns jogos estimulam o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes, enquanto não há qualquer consenso quanto a supostos malefícios.
Entende-se aqui, portanto, que não se pode discriminar a nova mídia (jogos) e, consequentemente, os estabelecimentos que prestam estes serviços sem que antes se faça um debate racional sobre o novo meio. Para tal recomenda-se a leitura do artigo deste livro intitulado “Relexões sobre entretenimento, educação e distinção em contextos de “inclusão digital”, da pesquisadora Carla Barros.
c) Jogos violentos estimulam comportamentos agressivos por parte dos jogadores; Como já mencionado, não há qualquer evidência concreta de que o ato de jogar estimule comportamentos agressivos. Entretanto, assim como qualquer outra mídia, os jogos podem veicular conteúdos violentos e impróprios para menores. Uma forma equilibrada de tratar deste problema, portanto, é evitar o acesso de menores a conteúdos impróprios para sua idade sem suprimir o acesso de adultos aos jogos e sem limitar a liberdade de expressão contida neste novo tipo de mídia. Entende- se aqui, portanto, que os estabelecimentos que fornecem acesso a jogos eletrônicos devem respeitar a classiicação indicativa para jogos do Ministério da Justiça79.
d) Por oferecer jogos eletrônicos, as lan houses provocam a evasão escolar; A visão de que as lan houses estão associadas à evasão escolar é um grande problema existente hoje na regulação do setor. Por conta desse entendimento, há a proliferação de regulamentações determinando uma distância mínima entre estes empreendimentos e estabelecimentos de ensino, diicultando ainda mais a
79 http://por tal.mj.gov.br/classificacao/data/Pages/MJFDA11DA1ITEMI -
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formalização das lan houses e impedindo o oferecimento de acesso à Internet em locais de exclusão digital.
As lan houses, em nosso modo de ver, não induzem à evasão escolar. Do con- trário, representam em muitas regiões justamente um importante local para pesquisas escolares e realização de trabalhos acadêmicos. Além disso, entendemos que iniciativas governamentais poderiam se aproveitar do potencial das lan houses através de par- cerias com estabelecimentos de ensino, fazendo desses estabelecimentos verdadeiros laboratórios de computação. A depender do enfoque, as lan houses podem ter papel crucial na melhoria da qualidade de ensino em locais mal aparelhados pelo Poder Público, capacitando crianças e jovens para o uso das novas tecnologias.
Dessa forma, entende-se que uma política que considere o estabelecimento de distância mínima entre as lan houses e unidades de ensino seria desastrosa por arrastar grande parte destes empreendimentos para a ilegalidade (tornando boa parte deles inviáveis), bem como por diicultar a inclusão digital e impedir/encarecer as possibilidades de cooperação entre Poder Público e iniciativa privada. Entende-se aqui que a proximidade de lan houses com proissionais de instituições de ensino ou dos Pontos de Cultura pode qualiicar o tipo de acesso à rede que é feito nas lan houses, bem como auxiliar as atividades acadêmicas, principalmente no caso de instituições de ensino em que a quantidade e qualidade de equipamentos de informática é precária.
O interesse por parte de donos de lan houses em desenvolver atividades de cunho educativo apareceu claramente na pesquisa TIC Lan house que destacou que ao serem indagados sobre qual tipo de serviço ou conteúdo julgavam ser inte- ressante para seus clientes, 34% citaram atividades educacionais (cursos proissio- nalizantes, de línguas, ou informática). Apesar desse número não representar que tais atividades sejam desenvolvidas pelo gestor da lan, o reconhecimento do valor agregado desse tipo de oferta para seu empreendimento representa um primeiro passo, e uma porta aberta, para iniciativa de parcerias com outras instituições de ensino e cultura.
A mesma pesquisa aponta que há um amplo reconhecimento entre os proprie- tários de lan house a respeito do valor agregado que a oferta de cursos de capacitação proissional e cursos de informática proporciona para seu negócio. Sendo os cursos de capacitação apontados como importantes por 89% dos gestores entrevistados e os cursos de informática destacados por 95%. Serviços de e-government também foram apontados nesse sentido. Ou seja, existe entre os gestores das lan houses uma abertura para modelos de negócio no qual esses empreendimentos podem ser utilizados como centros que podem agregar serviços, cultura e educação.
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e)As lan houses são locais utilizados para a prática de “crimes virtuais”.
A associação de lan houses a crimes cometidos pela Internet é uma questão extremamente delicada, não havendo dados que sustentem esse tipo de airma- ção. Dados da Pesquisa TIC Domicílios 2009 apontam que o maior número de problemas de segurança acontece justamente no domicílio (66%), contra 39%80
de problemas ocorridos fora do domicílio. Além disso, no que diz respeito aos problemas ocorridos fora do domicílio, as lan houses não são o único local a ter problemas. 40% dos problemas ocorrem no trabalho e 18% na casa de outra pessoa. As lans contam com outros 40% de problemas. Ou seja, as lan houses representam menos de 20% do total de problemas de segurança na internet (menos de 40% dos problemas fora do domicílio, que correspondem por sua vez a 39% do total dos problemas de segurança).
Como hipótese, entende-se que isto deve se dar pelo fato de que os prois- sionais desses estabelecimentos têm uma grande preocupação com a segurança de seus equipamentos e clientes, bem como conhecimento técnico para realizar a prevenção contra problemas dessa natureza.
3.2. Considerações e parecer sobre os projetos
Como se demonstrou nesse capítulo, a grande maioria dos projetos apresen- tados sustentam-se em pressupostos equivocados para tratar da regulação das lan houses. Mais do que isso, apesar de numerosas, as propostas legislativas em discussão falham por não reconhecer a realidade de informalidade desses estabelecimentos, decorrente em grande parte da rigidez com que o Poder Público procurou regula- mentá-los nos âmbitos municipal e estadual.
Por tudo isso, entende-se que uma política pública para a categoria deve seguir em sentido oposto, entendendo a lógica desses estabelecimentos, promovendo incentivos à formalização, reduzindo custos, removendo os entraves existentes e evitando a criação de novas restrições.
4. Considerações inais
Entendemos que futuros projetos de lei que regulem esses estabelecimentos devem levar em conta as seguintes diretrizes:
80 Pesquisa TIC Lan Houses 2009. Disponível em http://www.cetic.br/usuarios/tic/2009/index.
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a) Lan houses são empreendimentos com grande representatividade no acesso à internet no Brasil, principalmente entre comunidades de baixa renda; b) Existe uma diversidade de lan houses, cada uma especializada na prestação de
serviços distintos: algumas mais voltadas para serviços gráicos, outras para auxílio em serviços de governo eletrônico, outras para serviços de comunicação, outras para jogos etc. Não se pode, portanto, meramente equiparar lan houses a casas de jogos;
c) Não se pode partir do pressuposto que jogos são maléicos para a educação e devem ser proibidos. Jogos também têm sua função educativa e, como qualquer mídia, podem ser submetidos a classiicação indicativa de modo a atenderem ao público a que se destinam;
d) Lan houses não provocam evasão escolar. Pelo contrário: são locais de sociabi- lidade que podem servir como complemento para as atividades desenvolvidas em sala de aula. As políticas de fomento devem estimular parcerias entre lan houses, instituições de ensino e outros programas de incentivo à cultura, como os Pontos de Cultura, de maneira a qualiicar o acesso à rede;
e) A excessiva burocratização dos procedimentos de formalização levam apenas a mais informalidade.
Com essas diretrizes em mente, podemos começar a delinear um projeto de lei que realmente supere os entraves jurídicos que se tem apresentado para a formalização das lan houses e utilizar melhor seu potencial como centros de inclusão de digital.
Bibliograia
Pesquisa sobre o uso das tecnologias da Informação e Comunicação no Brasil 2010. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil. Disponível em: <http://www.cetic. br/tic/2010/index.htm>.
Pesquisa TIC Lanhouse 2010. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil. Disponível em: <http://www.cetic.br/tic/lanhouse/2010/index.htm>.
LEMOS, Ronaldo; MARTINI, Paula. LAN Houses: A new wave of digital inclusion in Brazil. Publius Project. Disponível em: <http://publius.cc/lan_houses_new_wave_digi- tal_inclusion_brazil/091509>.
GÓES, Paula. Brazil: Socio-digital Inclusion through the Lanhouse Revolution. Global
Voices, setembro de 2009. Disponível em: <http://cdieurope.eu/2009/10/07/socio-digital-
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PROTASIO, Arthur. Games e Liberdade de Expressão. In: Simpósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital, VIII, 2009. PUC Rio, Rio de Janeiro. Anais.
PORTNOW, James. he Power of Tangential Learning. Edge magazine. Disponível em: <http://www.edge-online.com/blogs/the-power-tangential-learning?page=0%2C0>. [Acesso em 10 mar 2010].