Lan house: os desaios da formalização desses centros de inclusão digital
1. Breve panorama dos estudos sobre lan houses no Brasil
1.1 Dados do CETIC.br 63 (TIC Domicílios 2010 e TIC Lan house 2010)
O Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e Comunicação – CETIC.br é o órgão responsável por avaliar a disponibilidade e uso da Internet no Brasil, publicando estudos que visam monitorar e avaliar o impacto sócio-econô- mico das TICs e que servem como referência para a elaboração de políticas públicas que visam enfrentar o desaio de garantir o acesso da população às Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). Esses estudos fazem parte das atribuições do Comitê Gestor da Internet – CGI.br.64
O CETIC.br realiza anualmente a pesquisa denominada “Pesquisa sobre o uso de Tecnologias da Informação e da Comunicação”. Esta pesquisa possui o objetivo de mapear a posse e o uso das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) no país construindo séries históricas de indicadores relevantes para a realização de análises e estudos comparativos, ajudando os gestores públicos a desenhar políti- cas públicas para a sociedade brasileira, e divide-se em diferentes relatórios: TIC domicílios, TIC domicílios e empresas, TIC lan houses, entre outras.
De acordo com o relatório mais recente, TIC domicílios e empresas 2010, no Brasil, 35% dos usuários de Internet apontam os Centros Públicos de Acesso Pago (CPAPs – que incluem lan houses, Internet Cafés e outros estabelecimentos similares) como o local em que se conectam à rede mundial de computadores. Houve uma queda expressiva se considerarmos os dados de 2007, que evidenciaram que as lan houses eram as protagonistas do acesso à rede no país, representando o local de acesso para 49% da população urbana, porcentagem que ultrapassava o acesso domiciliar em 9%. Contudo, ainda que o acesso domiciliar tenha subido para 56% (uma tendência positiva, que representa maior acesso aos bens informá- ticos, provavelmente devido ao aumento do poder de compra da chamada classe C), 35% ainda é um número bastante expressivo, que posiciona as lan houses como segundo principal local de acesso, superando trabalho, escola e os próprios centros de acesso gratuito criados pelo Poder Público. Essa representatividade é
63 O CGI é o órgão criado com o objetivo de coordenar e integrar todas as iniciativas de internet
no país. Mais detalhes no website: HTTP://www.cgi.br
64 Órgão criado pela Portaria Interministerial nº 147, de 31 de maio de 1995, alterada pelo
Decreto Presidencial nº 4829 de 3 de setembro de 2003, para “coordenar e integrar todas as iniciativas de serviços de Internet no país, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a dis- seminação dos resultados ofertados.” Deinição disponível em: http://www.cgi.br/ . Acessado em 22.11.11.
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ainda maior se considerarmos apenas o meio rural, onde os acessos feitos por meio dos CPAPs representa 39%.65
Se tomarmos em conta dados regionais, as lan houses voltam a ser as maiores protagonistas no Norte e no Nordeste, ultrapassando os acessos domiciliares. Na região Norte, 56% dos usuários de Internet acessam a rede através dos CPAPs, e apenas 34% nos respectivos domicílios, já na região Nordeste, enquanto que os acessos via CPAPs chega a 44%, o acesso domiciliar é de 34%66. Nas demais regiões,
esses centros continuam sendo o segundo principal local de acesso.67
O potencial das lan houses como locais de inclusão digital (e social) se destaca ainda mais se cruzarmos esses números com dados relativos ao grau de instrução, renda familiar e classe social do usuário. Nesse caso os CPAPs foram apontados como de grande importância justamente nas camadas mais pobres da população. Representam o principal local de acesso para 67% dos usuários das classes D e E68.
Ressaltando-se que na última edição do relatório, pela primeira vez, para 44% dos usuários de Internet da classe C o domicílio passou a ser o principal local de acesso, ultrapassando pela primeira vez os acessos na lan house, que ainda é o local de acesso para signiicativos 41% dos usuários dessa classe. Se dispensarmos a denominação de classes e tomarmos apenas o salário mínimo, as lan houses são o principal local de acesso para 65% dos usuários com até 1 salário mínimo e para 45% dos usuários que recebem entre 1 e 2 salários mínimos.
Por im, de acordo com esse estudo, o acesso nas lan houses também muda bastante se considerarmos as faixas etárias dos usuários de Internet. Nesse caso, as lan houses foram apontadas também como de grande importância entre os mais jovens, sendo o principal local de acesso nas faixas etárias dos 10 aos 15 (48%) e
65 Dados extraídos da Pesquisa sobre o uso das tecnologias da Informação e Comunicação
no Brasil – TIC domicílios e empresas 2010, pp. 417.418, disponível em http://www.cetic. br/tic/2010/index.htm. Acessado em 22.11.11.
66 Dados extraídos da Pesquisa sobre o uso das tecnologias da Informação e Comunicação
no Brasil – TIC domicílios e empresas 2010, pp. 418.418, disponível em http://www.cetic. br/tic/2010/index.htm Acessado em 22.11.11.
67 Pesquisa sobre o uso das tecnologias da Informação e Comunicação no Brasil – TIC lan
houses 2010, disponível em http://www.cetic.br/tic/lanhouse/2010/index.htm Acessado em 22.11.11.
68 De acordo com o CETIC.br, “o critério utilizado para classiicação leva em consideração a
educação do chefe de família e a posse de utensílios domésticos, relacionando-os a um sistema de pontuação. A soma dos pontos alcançados por domicílio é associada a uma classe socioeco- nômica especíica (A, B, C, D, E)”.
92 Luiz Fernando Marrey Moncau • Joana Varon Ferraz
dos 16 aos 24 (48%) anos69, sendo que nessa última faixa etária o acesso em casa re-
presenta 46%. Entre os mais velhos, predomina o acesso em casa e no trabalho. Os relatórios da pesquisa TIC domicílios apontaram de tal maneira a im- portância das lan houses como espaços de inclusão digital que o CETIC.br sentiu a necessidade de elaborar também um relatório TIC especíico sobre esses estabe- lecimentos: o TIC lan house70, visando trazer indicadores sobre a infra-estrutura
disponível aos usuários, o modelo de negócios desses estabelecimentos, caracterís- ticas do gestor responsável, uso de tecnologias livres e, principalmente, tratar da sustentabilidade desses estabelecimentos, que têm se mostrado tão importantes para o acesso à Internet no país, inclusive de forma mais eiciente do que os esta- belecimentos criados pelo poder público para este im.
Desta forma, a TIC lan house apontou que estes estabelecimentos são de natureza familiar e têm como padrão a informalidade. Averiguou-se também que é grande o número de lan houses que não sobrevive ao primeiro ano “de vida”, localizando parte signiicativa desses estabelecimentos como “iniciativas carentes de auxílio para que sejam viáveis economicamente.” Ainda nesse sentido, apesar da diiculdade de manutenção, a pesquisa aponta que apenas 13% dos estabeleci- mentos pesquisados procuraram alguma instituição para inanciamento, indicador que tem fácil relação com o alto grau de informalidade, que diiculta a obtenção de crédito.
A TIC lan também averiguou os principais motivos para acessar a rede nas lan houses. O principal motivo é a falta de computadores e de conexão de Internet no domicílio. Logo em seguida, apareceram outras razões que vão além do mero acesso às tecnologias: utilização de jogos de computador (66%), diversão (60%), impressão de documentos (60%), socialização (36%), serviços oferecidos (27%), infra-estrutura melhor que a domiciliar (26%), e a realização de cursos (4%).
Ao observar a categoria de serviços oferecidos também é possível ter noção da diversidade de funções que uma lan house pode exercer em determinadas co- munidades. De acordo com a pesquisa, dentre os serviços ofertados as lan houses dispõem de: impressão de documentos (93%); jogos de computador (92%); di-
69 Dados extraídos da Pesquisa sobre o uso das tecnologias da Informação e Comunicação
no Brasil – TIC domicílios e empresas 2010, pp. 418.418, disponível em http://www.cetic. br/tic/2010/index.htm. Acessado em 22.11.11.
70 Pesquisa sobre o uso das tecnologias da Informação e Comunicação no Brasil – TIC lan
houses 2010, disponível em http://www.cetic.br/tic/lanhouse/2010/index.htm. Acessado em 22.11.11.
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gitação ou elaboração de textos (82%); gravação de mídias (CD e DVD) (80%); acesso a mídias externas (CD, DVD, pendrives) (78%); cópia de documentos (71%) e manutenção ou assistência técnica de computadores (52%). Além disso, a pesquisa aponta que 47% dos donos de lan houses declararam auxiliar os usuários em serviços de governo eletrônico.