• Nenhum resultado encontrado

Comentando o campo da coleta dos dados: os sites

marido, esposa e sogra em jerusalem

2.3. Comentando o campo da coleta dos dados: os sites

Um olhar sobre os sites divulgadores do discurso humorista mostra que a maior parte deles se auto-define como o “mais divertido da net”. Outros se autoapresentam por intermédio de slogans, como fez o – Stúdio 4115: “Para curar um amor platônico nada melhor do que uma transa homérica”. Quase todos convocam os internautas para participar da manutenção do site, dando sugestões, tecendo críticas, enviando piadas (principalmente). Tomar conhecimento de quem é responsável pela criação e manutenção dos sites é uma raridade, visto que, em sua grande maioria, não constatamos nenhuma identificação.

Em geral, os sites não se limitam a oferecer apenas humor. Ainda que este seja a proposta principal, porém não é a única. O – Usina das Letras16 –, por exemplo, oferece muitas outras opções além do humor, a exemplo de Artigos, Cordel, Contos, Crônicas, Discursos, Ensaios, Eróticos, Frases, Letras de músicas, Poesias, Roteiros de filmes etc. Vários têm o cuidado de procurar isentar-se de qualquer divulgação que vá de encontro às regras do que se passou a denominar de “politicamente correto”, a exemplo dos seguintes enunciados: “Não há nenhuma intenção em ofender a classes sociais, credos ou qualquer tipo de segmento17” ou “O Portal do Humor18 é um site focado em humor, com conteúdo que muitas vezes pode ofender pessoas e esse não é o nosso objetivo; caso se sinta ofendido com alguma piada, imagem ou quaisquer outros tipos de conteúdo exposto no Portal do Humor, favor nos comunicar via e-mail ou formulário de contato”.

15 http://studio41.com.br/humor/ 16 http://www.usinadeletras.com.br/

17 http://www.1001inutilidades.com.br/piadas.htm 18 http://www.portaldohumor.com.br/

Outros, como o – Piadas19 –, informam explicitamente que as piadas divulgadas “usam termos de baixo calão, impróprias para menores”. Isto não significa dizer que aqueles que não dão esta informação (a grande maioria) não sejam divulgadores de material semelhante. Alguns inclusive são porta de entrada para sites divulgadores de fotos pornográficas e alguns poucos até mesmo oferecem sexo virtual. O http://supernatal.com.sapo.pt/ é um bom exemplo. A sua home page é de uma singeleza ímpar. Sininhos, árvores de Natal e, claro, a figura do bom velhinho, Papai Noel. Clicando sobre qualquer uma dessas imagens, o internauta tem acesso a novo site − http://www.superdivertido.pt/SuperDiv/default.asp − que oferece algumas sugestões do tipo “descubra prazeres alternativos” ou “satisfaça seu fetiche”. Este site também oferece ao internauta a possibilidade de acessar outros sites, a exemplo do http://cams.com/go/p240, que oferece chat (chatters) ao vivo, de graça, e com imagens de 271 (em 2009) “modelos” masculinos (em minoria) e femininos (em maioria). Talvez seja bom esclarecer que também são oferecidos os mais variados gêneros humorísticos, inclusive as piadas, e em grande número.

Há aqueles que informam o número de piadas (incluído nesta terminologia não somente a piada como foi definida neste trabalho, mas vários outros gêneros identificados como piadas, como já comentamos) disponíveis, a exemplo do – Arsenal de Piadas20 – que afirma conter um acervo de 5.000 opções ou do – Piadas On-line21 – que assegura disponibilizar “mais 20.000 piadas, imagens e vídeos engraçadíssimos”. Estas são informações, a princípio, impossíveis de serem comprovadas.

Outros, como – A Bagaceira22 –, provocam o internauta com algumas “brincadeirinhas”, informando, por exemplo, que este não deve clicar sobre determinado ícone; porém, se o internauta não consegue conter-se (como é o previsível, visto ser um site cujo objetivo é o lazer) e der o primeiro clique, o mínimo que ocorrerá é ter que clicar mais noventa e nove vezes para conseguir sair da página (alguns obrigam-no a clicar duzentas vezes, como o @rrob@)23, enquanto surgem na tela do computador a cada clique mensagens zombando daquele que não conteve a sua curiosidade: a “vítima”. Opções como fechar a janela, ou retornar para home page não há, nem mesmo a possibilidade de desligar o computador, a não ser que o faça de forma inadequada. Portanto, a “opção” é 19 http://www.medeiros-ca.com.br/pia/index.php 20 http://www.bwnet.com.br/~luiz/index2.html 21 http://www.piadasonline.com.br/ 22 http://marcaoamigao.vilabol.uol.com.br/ 23http://www.15k.hpg.ig.com.br/indice.html

única: continuar o jogo. Claro que a brincadeira poderá ser ou não divertida, dependendo, naturalmente, do estado de humor do internauta. Aliás, o sucesso de qualquer jogo humorístico depende, primordialmente, dos interlocutores em processo de interação.

Observamos que alguns registram mensagens, digamos que... esdrúxulas, do tipo: “Todas as piadas são de propriedade de seus respectivos autores”, como observamos em – As melhores piadas do Orkut24. Mas, que autores? Nem este site, nem nenhum outro disponibiliza esta informação. O máximo que é divulgado, em algumas pouquíssimas ocasiões, são os nomes (ou pseudônimos) dos internautas que enviaram os textos. Até mesmo porque é do nosso conhecimento que a piada é um gênero que, de modo geral, não disponibiliza esta informação. Poderíamos dizer que a piada é fruto da criação do inconsciente coletivo, assim como os provérbios, por exemplo.

Muitos sites apresentam as piadas distribuídas por categorias. Entretanto, na maioria das vezes, (poderíamos até correr o risco e afirmar “todas as vezes”) percebemos que tais nomeações são dadas de forma aleatória. Se a pesquisa tem por tema o estereótipo da “esposa infiel”, como a nossa, as piadas estão a princípio armazenadas na categoria “cornos”; entretanto, também serão encontradas em outras categorias tais como: “sexo”, “médicos”, “diversas”, “curtas” etc. Isto denota que a coleta dos dados em sites humorísticos exige tempo e paciência. Algumas categorias são mais específicas – “advogados”, “bichas”, “loucos”, “freiras / padres”, “loiras” etc. –, outras, muito vagas, a exemplo de “variadas”, “trabalho”, “outras”, “rapidinhas”, “geral”, “clássicas”, entre outras. De todos os sites que visitamos, apenas um é dedicado a uma só categoria: a “sogra”25. Este estereótipo está entre os mais explorados em todos os demais sites, competindo apenas com os estereótipos da “loira”, da “bicha”, do “caipira”, do “corno”, do “bêbado”, do “gaúcho”, do “médico”, do “político”, do “português”. O fato é que os aspectos explorados são os mais diversos, ainda que alguns sejam mais explorados do que outros.

Em todo processo de construção do corpus observamos que os termos piada e

anedota são usados aleatoriamente. O mesmo ocorrendo na maior parte da literatura, por

nós consultada, que se propõe a estudar o humor, o riso ou a piada/anedota. Acreditamos, ainda que não concordamos, ser bem mais prático que o estudioso explique ao seu leitor que faz uso de um termo por outro sem maior distinção. Mas, verificamos que sequer esta

24 http://www.piadas.hlera.com.br/

explicação é dada. Em nossa opinião, o estudo de gêneros fortalecido no último século a partir, particularmente, dos estudos bakhtinianos, sugere que o pesquisador defina o gênero, que compõe corpus da sua pesquisa.