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O discurso humorístico: nosso objeto de estudo

CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS

1.3. O discurso humorístico: nosso objeto de estudo

Delimitar o discurso como objeto de estudo foi a primeira grande dificuldade com que nos defrontamos, em virtude da ambiguidade constitutiva da noção de discurso, possivelmente, em decorrência do seu caráter profundamente interdisciplinar. Tal ambiguidade constitutiva gera a complexidade, instabilidade e vagueza da noção de discurso, permitindo, por conseguinte, uma variedade de concepções para o mesmo termo, desde as mais restritivas até as mais abrangentes, desde as mais objetivas até as mais abstratas.

Essa variedade de conceitos é percebida não somente na perspectiva do senso comum (o discurso do presidente; este seu discurso já não me convence; não discuto futebol nem religião, estes são discursos polêmicos); como também, e este sem dúvida é o

problema maior, na perspectiva científica, conforme o termo é entendido sob a influência das diversas correntes das ciências humanas.

A variedade de uso deste termo, de acordo com Maingueneau (2008), justifica-se porque o discurso tanto “pode designar o sistema que permite produzir um conjunto de textos como esse próprio conjunto” (ibidem, p. 137-8). Dito de outro modo, a ambiguidade do termo discurso pode significar tanto um processo discursivo quanto uma sequência verbal. É, pois, “ao mesmo tempo um objeto e um ponto de vista sobre esse objeto” (MAINGUENEAU, 2008, p. 136). O discurso humorístico, por exemplo, tanto designa o conjunto de gêneros produzidos pelo comediante/humorista (charges, tirinhas, cartuns, piadas etc.), como o sistema – a formação discursiva – que permite produzi-los. Talvez esteja aqui, nesta duplicidade constitutiva, a fluidez dos contornos que muitas vezes cercam a Análise do Discurso (FERREIRA, 2000, p. 33).

Retomando Maingueneau (1997, p. 13-4), é possível adiantar que a Análise do Discurso que estamos a praticar, inevitavelmente se apoia “sobre os conceitos e os métodos da linguística”, mas não de maneira exclusiva. Consideramos a piada, nosso objeto empírico, como o espaço onde estão cristalizados conflitos históricos e sociais, possível de verificação no exterior de um interdiscurso. O corpus, portanto, não é simplesmente examinado como uma produção textual, mas é considerado em “sua enunciação como o correlato de uma certa posição sócio-histórica”, que se dá a conhecer, através de seus enunciadores.

Na abordagem do enunciado como discurso, este entendido como objeto teórico resultante de construção científica, entendemos ser preciso relacioná-lo (o enunciado) a um gênero determinado, visto que essa relação é importante para a sua interpretação. Assim, a piada, foi aqui estudada, descrita e analisada não somente como uma estrutura textual, uma sequência coerente de signos verbais, mas, principalmente, como uma atividade enunciativa, isto é, um gênero do discurso. Nesta perspectiva, tivemos que enfrentar a segunda dificuldade, a noção de gênero que, a exemplo da noção de discurso, também não é de fácil apreensão.

De acordo com Maingueneau (1997, p. 38), “a AD não pode deixar de refletir sobre o gênero quando aborda um corpus”. Razão porque, no Capítulo III, observamos duas propostas teóricas da abordagem do gênero: o gênero textual, na perspectiva sociorretórica e o gênero do discurso, na perspectiva sócio-discursiva.

A este propósito, lembramos as reflexões de Maingueneau (2008, p. 143) sobre o interesse específico da Análise do Discurso: “apreender o discurso como entrecruzamento de um texto e de um lugar social”. O que nos permite entender que “o seu objeto não é nem a organização textual nem a situação de comunicação [o contexto], mas aquilo que os une através de um dispositivo de enunciação específico que provém ao mesmo tempo do verbal e do institucional” (ibidem).

Falar em discurso humorístico e discurso sexista, aqueles a que nos propomos a estudar, não é discorrer a partir do mesmo ponto de vista. Na opinião de Maingueneau (2008, p. 17), o discurso humorístico “consiste na interação dos diversos gêneros de discurso”, tais como as charadas, as adivinhas, os trocadilhos, as charges, as frases de caminhão, as piadas etc. Tais gêneros apresentam-se como provocadores do riso.

Já o discurso sexista “consiste na diversidade dos gêneros de discurso produzidos por um posicionamento” discriminatório fundamentado no sexo (panfletos, propagandas, sermões, artigos de opinião, filmes, piadas etc.). Nesta perspectiva, estamos discorrendo sobre a luta ideológica, da “delimitação de um território simbólico contra outros posicionamentos”. Contudo, nada impede que abordemos o discurso sexista na perspectiva do humor, ou que tratemos do discurso humorístico, percebendo-o como um discurso sexista, preconceituoso, discriminatório, fundador e mantenedor de estereótipos. Esta é a proposta que defendemos nesta pesquisa.

Assim, a noção de discurso que buscamos apreender diz respeito ao entrecruzamento do discurso humorístico com o discurso sexista em enunciados produzidos no gênero discursivo piada. Entendemos o discurso sexista como um lugar social, aqui tratado como um posicionamento (formação discursiva), que corresponde à posição ocupada pelo enunciador e aos valores que ele defende. Vale a pena acrescentar que os posicionamentos podem ser dominantes e dominados, na ótica de Maingueneau e com a qual concordamos.

Nesta perspectiva, tomamos como orientação teórica os princípios do campo francês da Análise do Discurso, proposta particularmente por Dominique Maingueneau, com a qual muitas pesquisas, no Brasil, mantém laços teóricos estreitos, a exemplo daquelas realizadas por Sírio Possenti. As teorias propostas por estes dois estudiosos se constituem como instrumento teórico-metodológico de importância fundamental para este trabalho.

Tendo em vista estas considerações introdutórias, apresentamos na sequência uma breve e concisa explanação da organização da Tese, desenvolvida em dois momentos. O primeiro de natureza interdisciplinar, apresenta-se com um perfil mais teórico, privilegiando os aspectos sócio-histórico-discursivos na perspectiva dos estudiosos do gênero (textual e discursivo), dos pesquisadores do gênero social (homem vs. mulher) e dos teóricos do humor.

No segundo momento enfatizamos o aspecto linguístico-discursivo, destacando a

ironia e a ambiguidade como estratégias/mecanismos discursivos. Estes dois fenômenos,

em nosso estudo, indicam a opacidade do discurso, ou seja, “um enunciador produz um enunciado de tal forma a chamar atenção não apenas para o que está dito, mas para a maneira de dizer e para as contradições existentes entre as duas dimensões” (BRAIT, 2008, p. 140).

Para realizar este percurso, buscamos encontrar pontos de convergência nas propostas teóricas consultadas, que nos ajudassem a formar nosso ponto de vista e assim atingir o objetivo a que nos propomos.

No capítulo III, fizemos uma rápida retrospectiva da noção clássica de gênero, seguindo a trilha que tem como ponto de partida a Antiguidade, passando pela Idade Média, pelo Renascimento, Romantismo e a Modernidade até os primórdios do Século XX. Consideramos ser esta uma abordagem necessária para esclarecer que a Teoria do Gênero não teve início com qualquer estudioso contemporâneo, nem mesmo Bakhtin, como equivocadamente às vezes é comentado.

No Capítulo IV, procuramos entender o conceito de gênero social, procurando apreender a distinção de sexo/gênero; mas, principalmente, buscando vislumbrar as questões implícitas neste conceito. Na proposta de Butler, estudamos as questões levantadas a respeito da heterossexualidade compulsória e do falocentrismo, compreendidos pela estudiosa como regimes de poder e discurso. Nas obras de Perrot, seguimos a voz do sujeito mulher que emerge do oceano do silêncio a que foi submetida durante séculos, em busca do seu púlpito de onde procura se fazer ouvir.

No Capítulo V, procuramos fazer uma incursão pelas propostas teóricas de Bergson, Freud, Minois e Saliba a respeito do humor e do riso. Bergson se debruça sobre as questões da comicidade e os seus efeitos. Freud pela lente do humor, nos permite perceber as facetas mais originais e inesperadas da experiência humana. Minois esquematiza a história do riso em três períodos: riso divino, riso diabólico e riso humano.

Tendo como ponto de partida a Antiguidade clássica e como ponto de chegada o Século XXI, o estudioso nos leva a refletir a respeito do riso, o único estratagema oferecido pelos deuses ao homem, para tentar driblar sua única certeza: a morte. Saliba mergulha nas concepções e práticas humorísticas da vida cultural brasileira, no período que ficou conhecido como Belle Époque, num estudo que prioriza o humor na vida nacional dos séculos XIX e XX.

No Capítulo VI, procuramos construir com o apoio de Saliba a história do riso no Brasil a partir do final do Século XIX, início do Século XX. Com Pitman conseguimos desvendar o enigma da loira burra.

No Capítulo VII, nos detemos nos fenômenos discursivos constitutivos do humor: a ambiguidade e a ironia. A ambiguidade é entendida não como um problema a ser solucionado, percebido como equívocos de sentido provenientes de construções consideradas defeituosas. Nesta perspectiva, passamos a defender que todo enunciado está exposto ao equívoco, sendo exatamente este possível equívoco, no discurso humorístico, o gatilho provocador do riso. Quanto à noção de ironia, esta é estudada como uma estratégia significante, no nível do discurso. E uma vez que, o discurso irônico joga essencialmente com a ambigüidade, conforme Brait (2008), tentaremos identificar no discurso humorístico o momento deste entrecruzamento. A categorização dos fatos humorísticos, proposta por Charaudeau (2006), nos ajuda a entender o ato humorístico como um ato de enunciação.

Por fim, tecemos as nossas últimas considerações, conclusivas no presente, mas consideradas como o ponto de partida para as nossas investigações futuras.