Marilyn Monroe para Einstein:
-Se nós tivéssemos um filho ele seria perfeito, com a minha beleza e com a sua inteligência! Einstein para Marilyn Monroe:
-O problema seria se nascesse com a minha beleza e a sua inteligência. Ö Exemplo 32: Reprodução.
Einstein62, físico renomado em todos os tempos, desenvolveu a teoria da relatividade, recebendo o troféu de física em 1921, pela correta explicação do efeito fotoelétrico. Marilyn Monroe, “o extraordinário conjunto de curvas e cabelo louro, os olhos semicerrados e as insinuações sexuais sussurradas inocentemente converteram-na na primeira explosiva Estrela do Cinema internacional do mundo” (PITMAN, 2004, p. 196).
Figura 10 – Marilyn Monroe Figura 11 – Albert Einstein
62 A História não costuma lembrar que Einstein, quando criança nunca apresentou nenhum sinal de
genialidade. Estudar as disciplinas da área de humanas sempre foi para ele um suplício. No curso de Matemática e Física não chegou a destacar-se como um excelente aluno. Não vivia debruçado sobre tratados acadêmicos. Depois de formado, ficou durante bom tempo a procura de emprego. “Não apreciava desempenhar o papel de dono da sabedoria”. Era uma figura simples e modesta. Disponível em http://www.brasilescola.com/biografia/albert-einstein.htm
Percebemos mais uma vez as diferenças produzidas por meio de oposições binárias: linda e feio, bela e fera, “burra” e inteligente, mulher e homem. O homem dotado de inteligência ampla e a mulher de inteligência reduzida. Este é o foco da piada, verificado através do discurso sexista. O postulado da superioridade considerada natural de todos os homens sobre todas as mulheres.
Sabemos que a identidade é marcada pela diferença, mas, segundo Woodward (2004), “parece que algumas diferenças [nesta pesquisa diferenças de gêneros] são vistas como mais importantes que outras”. Para esta pesquisadora “a emergência dessas diferentes identidades [homem vs. mulher] é histórica. Ela está localizada em um ponto específico no tempo. Uma das formas pelas quais as identidades estabelecem suas reivindicações é por meio do apelo a antecedentes históricos” (p. 11).
A sociedade “estruturada sob parâmetros masculinos transformou-se em denúncia de como as inteligências femininas esbarram em obstáculos interpostos pelos homens para lhes impedir o justo reconhecimento ou as posições tidas como bem-sucedidas, seja no ambiente acadêmico, seja nos recintos historicamente reservados à consagração do talento” (ROBLES, 2006, p. 390).
A História narrada pelas vozes masculinas prefere omitir que “ao mesmo tempo em que se desenvolve a instrução masculina em vários níveis, a educação da mulher sofre revezes, tanto no campo do preparo profissional, quanto na formação intelectual”, de acordo com Alves & Pitanguy (1985). As pesquisadoras acrescentam que “não se tem registro de mulheres frequentando universidades até meados do Século XIX”. E mais, como havia escolas públicas na Europa para meninos e meninas, “a defasagem entre o número de escolas masculinas e femininas é enorme”. E complementam as estudiosas. “Tal defasagem se dá não somente em termos quantitativos como também no que se refere à qualidade do ensino ministrado. O currículo das meninas enfatizava o aprendizado das prendas domésticas e sua escolarização não as preparava para o ensino superior, que, aliás, sequer lhes era acessível” (p. 28). As meninas devem ser educadas e não instruídas. E se instruídas, apenas o necessário para bem desempenhar os seus papeis de mãe, esposa e dona de casa exemplar.
“O saber é contrário à feminilidade”, afirma Perrot (2007). É por isso, continua a estudiosa, que “Eva cometeu o pecado supremo. Ela, mulher, queria saber; sucumbiu à tentação do diabo e foi punida por isso” (p. 91). E continua a historiadora: “feminilidade e saber se excluem. A leitura abre as portas perigosas do imaginário. Uma mulher culta não é
uma mulher” (p. 93). Escreveu Joseph de Maistre, citado por Perrot. “O grande defeito de uma mulher é o de ser um homem. E querer ser homem é querer ser culto” (p. 93).
Como representação personificada da feminilidade, Marilyn Monroe precisava passar a imagem de pouco inteligente, ou melhor, de “burra”. Consciente de que sua imagem e comportamento foram meticulosamente produzidos pelos homens dirigentes de Hollywood, imagem esta que não só fascinava os homens, como causava inveja às mulheres e era alvo de gracejos e comentários, às vezes divertidos, outras vezes maldosos (Exemplo 32), algumas vezes até perversos, Marilyn Monroe faz um apelo: “Por favor, não faça de mim uma piada. Termine a entrevista falando no que acredito. Não me importo que façam piadas, mas não quero parecer uma. Quero ser uma artista, uma atriz com integridade”63.
Pitman (2004, p. 213) esclarece que “as anedotas de louras estúpidas começaram a brotar dos pubs64 e discotecas na década de 1970 para se juntarem às correntes das irlandesas que circulavam havia anos” (p. 213).
Foi em 1977, que a revista Listener publicou um artigo de Charles Marowitz intitulado “A irresistível loura burra”. Uma descrição perfeita para o estereótipo da loira
burra reproduzida incansavelmente no discurso humorístico. Transcrevemos um trecho a
seguir:
Trata-se de uma criatura que não tem pretensões de ser letrada ou intelectualmente sapiente. Não entra no jogo de palavras sofisticado. Não tem conceitos a debater, nem teorias para defender. Os seus pontos mais salientes são físicos e imbuídos de uma espécie de sexualidade irresistível... ela sobressai nos lugares apropriados. O seu corpo convida abordagens animais. A sua aura sugere que foi constituída anatomicamente para o exercício do prazer. As suas conversas banais, trivialidades e mesmo os disparates são, de certo modo, atributos necessários que na verdade realçam os seus outros atractivos (PITMAN, 2004, p. 213-4).
Assim, para manter a loura estúpida viva, Pitman afirma que, “dezenas de sex
simbols louras continuavam a ser congeminadas pelos poderosos de Hollywood e os novos
magnatas da televisão” (p. 214).
Por outro lado, “a discussão sobre identidades sugere a emergência de novas posições e de novas identidades” (p. 19). Esta afirmação de Woodward nos parece possível de confirmar na identidade de mulher que emerge do ícone Madonna. Uma identidade que,
63 Disponível em http://www.pensador.info/autor/Marilyn_Monroe/3/
64 Pub deriva do nome formal inglês “public house”. É um estabelecimento licenciado para servir bebidas
alcoólicas, originalmente em países e regiões de influência britânica. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Pub
como todas as identidades, é “o resultado de um processo de produção simbólica e discursiva” (SILVA, 2004b, p. 81).
“À semelhança de Marilyn, Madonna foi uma narcisista de cabelo escuro e ambição com traços de exibicionismo”, prossegue Pitman (224). A partir do momento em que “a sua marca de sexualidade rebelde, apoderou-se das imagens de outros símbolos sexuais icônicos, entre os quais Mae West e Marilyn Monroe”, e destes ícones copiou “o piscar de olho sugestivo da primeira, a voluptuosa sexualidade de lábios húmidos da segunda”, tornando-se adorada pelo público, Madonna assumiu definitivamente os cabelos loiros, afirma Pitman (ibidem).
Quando morena, “Madonna fora uma beldade opressiva, mas loura tornara-se numa deusa. O que equivalia a mais vendas, mais estrelato e mais poder”. Durante uma entrevista, Madonna revelou à revista Rolling Stone: “ser loura é indiscutivelmente um estado de espírito diferente. Não posso determinar a causa, mas o artifício de ser loura tem uma incrível espécie de conotação sexual” (p. 225-6).
As imagens de Marilyn Monroe e Madonna (Figuras 12 e 13) podem até ser confundidas, mas a diferença entre as duas talvez, de acordo com Pitman (2004) “represente as mudanças sociais e sexuais que ocorrem desde os anos oitenta [Século XX]. Enquanto Marilyn era uma criação de e para os homens, Madonna sempre considerou as mulheres o sexo dominante” (p. 224). Ainda assim, na nossa opinião, ela não deixa de ser uma construção do imaginário dos homens. Sonhada e cobiçada por eles.
Sexualidade, luxúria, volúpia, ambição, poder, sucesso profissional etc. são marcas desta nova identidade feminina. Madonna “uma personalidade que desafia mais do que rejeita ou se curva perante o olhar masculino, ofereceu a milhões de mulheres a prova de que podem ser fortes e dominar uma situação sem perder a feminidade pessoal” (PITMAN, 2004, p. 224). Ligada a sistemas de representação, “a identidade tem estreitas conexões com relações de poder”, afirma Silva (2004b, p. 97).
Para o interesse desta pesquisa, surge uma questão. Esta identidade emergente, aparentemente não caracterizada pelo aspecto da burrice, já é uma presença no discurso humorístico? Vejamos o Exemplo 33, a seguir:
Ö Exemplo 33 – A loira no Cassino – Acesso em 17.07.2010 Disponível em
http://www.humortadela.com.br/c/pop.php?cnl=piadas&num=4300