• Nenhum resultado encontrado

o que a Antropologia procura?

10.2 como aconteceu?

Primeiro surgiu a Teoria de Informação de Shannon. Isso conduziu a diversas implicações, sendo uma das mais espetacu- lares a “Revolução Biológica”, visto os biólogos estarem tentando

entender o princípio da vida e da sua transmissão. Encontraram a resposta na Teoria da Informação, pois descobriram que a vida e a sua transmissão envolviam o princípio de organização da hiper- complexidade, através do código genético. Ou seja, a “redução” da biologia à química, da química à microfísica etc., e a descoberta de que todos têm algo em comum: a organização da informação.

Enquanto, por um lado, o segundo princípio significa entropia crescente, isso é, tendência para a desordem molecular e para a desorganização, a vida, ao contrário, significava tendência para a organização, para a complexidade crescente, isso é, para a neguentropia. A partir de então, surgiu o problema da ligação e da ruptura entre entropia e neguentropia, que foi esclarecido por Brillouin a partir da noção de informação.

Trata-se do paradoxo da organização viva, cuja ordem informacional que se forma no tempo parece contradizer um princípio de desordem que se difunde no tempo; conforme veremos, esse paradoxo

só pode ser enfrentado a partir de uma concepção que liga estreitamente ordem e desordem, isso é, que faz da vida um sistema de reorganização permanente fundado sobre uma lógica de complexidade (MORIN, 1979, p. 26-27).

Para Von Neumann, mais Informação era já uma exigência para especificar mais complexidade. Partindo da observação axiomática de que os organismos hoje existentes são filoge- neticamente derivados de formas ancestrais muito menos complexos Neumann abre a questão da “lógica do vivo”, cuja “complicação”, cuja potencialidade produtiva não pode ser degenerativa (JORGE apud MORIN, [s.d.]c, p. 80-81).

Destacadamente, na evolução biológica, “era demons- trado que não há matéria viva, mas sim sistemas vivos” (MORIN, 1979, p. 25).

A historicidade nos fenômenos humanos há muito tempo vem sendo não somente comentada, mas apontada para justificar a distinção entre ciências da cultura e ciências da Natureza. E. E. Evans-Pritchard comentou que, felizmente, os cavalos permanecem cavalos e não se transformam em hipopótamos ou outras coisas. Mas é justamente aqui o ponto nevrálgico: os ancestrais dos cavalos não eram cavalos, e os descendentes dos

cavalos podem se transformar em outra coisa (não hipopóta- mos, como diz Evans-Pritchard, mas em alguma coisa nova). Como disse Prigogine: “a existência destes estados que podem transformar-se uns nos outros introduz, por conseguinte, um elemento histórico na descrição” (PRIGOGINE, [s.d.], p. 66).

A propósito da redução, efetivamente o jogo é mais subtil do que parecia. É que todas as conquistas da redução se pagaram com uma complexificação nova. E aí, tomemos um exemplo bastante recente, o da biologia molecular, que, aparentemente, dava a vitória aos reducionistas sobre os vitalistas, uma vez que se demonstrava que não havia matéria viva, mas sistemas vivos. Ora, Popper mostrou-nos que o reducionismo físico-químico teve de pagar o preço da reintrodução de toda a História do cosmos, isso é, quinze milhões de anos de acontecimentos, porque, para se poder reduzir o biológico ao químico, é necessário refazer toda a História da matéria viva, da constituição dos astros, dos átomos e, sobretudo, do átomo de carbono. Assim, essa redução paga-se por uma complexificação via reintrodução da dimensão histórica. Atlan, por sua vez, mostra-nos que reduzir o biológico ao físico-químico obriga alargar e a complexificar o físico-quí- mico. Por mim, o que acrescentei foi que o reducionismo biológico paga-se introduzindo noções de informação, de sistema, de máquina, que não estavam previstas no programa reducionista. A ideia de organização viva, que substitui a de matéria viva, é, de fato, uma noção antirreducionista, uma vez que a inteligibilidade vem, já não dos elementos constitutivos, mas da relação organizacional que constitui um todo (MORIN, [s.d.], p. 105-106).

O segundo grande acontecimento nessa série era a descoberta, pela Ecologia, de que os seres vivos fazem parte de sistemas maiores, de ecossistemas altamente complexos, envolvendo relações recíprocas.

O terceiro da série foi o desenvolvimento da Etologia.

A Etologia [...] começou desenvolvendo-se com sucesso há cerca de quinze anos, mas esse sucesso não deve esconder-nos que foi preciso muito tempo para que a obra de pioneiros solitários, que observavam os comportamentos animais no

seu meio natural e não nas condições simplificadas de labo- ratório, alcançasse um primeiro desenvolvimento. Enquanto a ecologia modifica a ideia de natureza, a etologia modifica a ideia de animal. Até então, o comportamento animal parecia comandado ora por reações automáticas ou reflexos, ora por impulsos automáticos ou “instintos”, ao mesmo tempo cegos e extralúclidos, cuja função era satisfazer as necessidades de proteção, de sobrevivência e de reprodução do organismo. Ora, as primeiras descobertas etológicas indicam-nos que o comportamento animal é, ao mesmo tempo, organizado e organizador. Primeiramente, surgiram as noções de comu- nicação e de território. Os animais comunicam, isso é, expri- mem-se de um modo que é recebido como uma mensagem e interpretam comportamentos específicos como mensagens (MORIN, 1979, p. 31).

Inicialmente individual e separadamente, vários pesqui- sadores de diversas ciências começaram a fazer a digestão dos resultados das novas descobertas na perspectiva da Teoria da Informação, o que surgiu do desenvolvimento da Cibernética, a qual inclui todas as diversas “ciências” que lidam com a com- plexidade auto-organizadora. A partir daí, começaram a se formar redes de pesquisadores em contato uns com os outros, para estudar todas as situações envolvendo processos longe do equilíbrio, tendo como resultado uma abordagem interdis- ciplinar relevante, simultaneamente para todas as ciências e até para a filosofia e a arte.

Que exigências deviam satisfazer a física perante um universo evolutivo? Veremos que, atualmente, se podem enumerar três: a irreversibilidade, o aparecimento da probabilidade e a coerência, constituem as condições de existência das novas estruturas que a física dos processos afastados do equilíbrio encontrou [...] É necessário sublinhar que a irreversibilidade é uma propriedade comum a todo o universo: todos envelhecemos na mesma direção (MORIN, [s.d.], p. 36).

O universo do não equilíbrio é um universo coerente. E isso representa um fato novo, que contradiz tudo quanto se pen- sava ainda há poucos anos (MORIN, 1979, p. 41).

A nossa experiência pessoal pode ser mais ou menos típica nesse sentido. A Nova Arqueologia, inaugurada na Escola de Michigan, desde o início, apresentou um forte viés para uma abordagem sistêmica, por causa das ideias de Leslie White sobre a Energética. Ao absorver essas ideias, começamos a refletir sobre as implicações da entropia em relação à irreversibilidade e, daí chega-se à conclusão de que o “tempo” pode ser um subpro- duto desta (Miller jr., 1990). Depois, descobrimos, em 1995, que Prigogine já tinha chegado à mesma conclusão antes de 1988! Em 1993, elaboramos um Princípio da Coerência como decor- rência da Primeira Lei da Termodinâmica, e agora encontramos a mesma conclusão (em outras palavras) em Prigogine. Em 1978, comentamos (num trabalho publicado internamente pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRN) que o crescimento do mundo vivo, o mundo termodinâmico, ao contrário do que prevê a Segunda Lei, resulta do fato de que os sistemas termodinâmicos se alimentam da entropia. Descobrimos depois que Schrödinger já tinha chegado à mesma conclusão. Em 1990, comentamos que inovações podem se originar de “ruído” na transmissão de informação, descobrindo também, em 1993, que Epstein já comentava o mesmo princípio. Nesse ano, elaboramos um argumento a favor do conceito de que as variações individuais, oriundas da historicidade (experiências diferentes), aplicavam-se tanto a seres humanos, quanto a animais e até plantas, e significavam patrimônio preciosíssimo de toda a biosfera, sendo, portanto, todo indivíduo, planta, animal, preciosos pela sua contribuição única, em potencial, ao acervo de recursos dos seres vivos, o que torna o seu respeito não apenas um preceito moral, mas antes um procedimento prático. Em 1995, encontramos argumentos muito semelhantes em trabalhos de Edgar Morin.

O que queremos mostrar com isso (além do fato de chegar- mos à Cibernética com certo atraso!) é que a lógica da Segunda Cibernética é uma lógica tão coerente que é muito fácil diversas