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o que a Antropologia procura?

5.4 novos rumos para o funcionalismo

Depois da Segunda Guerra Mundial, surgiram novos desenvolvimentos, ainda dentro do paradigma relativista. Alguns britânicos começaram a considerar a História nos seus trabalhos, inclusive Raymond Firth, que voltou a estudar uma ilha no Pacífico (Tikopea), que tinha sido estudada antes da guerra, para ver quais as mudanças que lá se verificaram. E. E. Evans Pritchard estudou os Sanusi da Líbia, utilizando dados históricos, procedimento também seguido por S. F. Nadel na introdução ao seu estudo sobre o Estado Nupe de Nigéria.

Numa consideração sobre “acidente histórico”, Nadel diz que talvez nenhum evento seja completamente único nem que um acidente não possa ser reduzido a alguma regularidade. Ele quer dizer apenas que se trata de eventos externos que repercutem

na sociedade que ele esteja estudando no momento. Quando uma pessoa quebra uma perna numa estrada escorregadia de gelo, e as circunstâncias são conhecidas, o evento pode ser explicado inteiramente em termos de leis da física ou da fisiologia, mas, se o problema que nos preocupa é a biografia desse indivíduo, esse evento permanece, no entanto, como um acidente.

A natureza histórica é desta espécie: eu posso ligar a difusão de um culto visionário messiânico entre certas tribos com a “decepção e esperança” que animam na ocasião, e posso derivar esse traço psicológico da destruição da segurança econômica e política que os grupos sofreram com a chegada do homem branco; e esse fato, por sua vez, das migrações da Europa, e mais, às condições econômicas e políticas da Europa, etc. Seja como for, estas são, claramente cadeias de causas tais como o historiógrafo pode construir, e cada elo nestas cadeias implica em conhecimento de alguma regularidade válida geralmente [...]. No entanto, essas cadeias causais não têm nenhuma relevância para o problema que nos interessa (o que é o de) entender um estado de coisas que por acaso é a consequência final de uma cadeia de eventos, ou seja, o fato de que essa ou aquela sociedade tem uma estrutura de classes ou um culto visionário, e entender esse fato de tal maneira que o caso particular possa ser expresso em termos de uma lei geral, pois, no primeiro exemplo, os eventos conduzindo à invasão, que por sua vez conduz à estrutura de classes, acontecem fora da sociedade que estamos considerando; criam o estado de coisas que queremos entender, mas não são uma parte dele [...] (NADEL, 1955).

Em termos mais modernos, dir-se-ia que “os fatores causais estão fora do modelo do processo”, não podendo ser aceitos como “causalidade”, no sentido de derivar regularidades ou covariações. Assim, volta-se ao indeterminismo, igual ao dos boasianos. Em nossa opinião, a solução está em reformular o modelo.

A influência do Funcionalismo na Antropologia norte-a- mericana é complicada, para que se possa traçá-la e avaliá-la. Os particularistas boasianos saudaram a ênfase de Malinowski na importância do trabalho de campo com autoconsciência, rigor e crítica refletiva, e, o seu interesse no papel de mito, magia

e religião no total cultural. O Materialismo implícito no seu esquema de “teoria científica da cultura” (Figura 4) passou sem mais atenção pelos norte-americanos, como, aliás, pelo próprio Malinowski. Mas esse não lecionou na América do Norte, o que tornou sua influência difusa e não profunda, ficando apenas a influência variável dos seus livros sobre leitores individuais.

Como consequência da influência de Radcliffe-Brown nos Estados Unidos, uma forma aguada de Funcionalismo foi casada com o particularismo americano. Entre os estudiosos daquele país, podemos citar Ralph Linton (O homem: uma introdução à Antropologia) e Clyde Kluckhohn (Antropologia: um espelho para o homem).

Radclioffe-Brown provocava sentimentos mistos nos norte-americanos. A sua “arrogância”, ao dizer que a sua era a primeira Antropologia “científica”, combinada à sua ostensiva (embora malsucedida) procura por “leis”, irritava profunda- mente os particularistas boasianos. Radcliffe-Brown procurou uma posição acadêmica nos Estados Unidos e o boasiano A. L. Kroeber nem lhe deu atenção na Universidade de Califórnia. Ele conseguiu uma posição na Universidade de Chicago, onde começou a influenciar alguns estudantes e professores inte- ressados em estudos de camponeses (a “Escola de Chicago”) e outros, tais como Robert Redfield.

O trabalho de Radcliffe-Brown chamou a atenção de Ralph Linton, que se interessou pelo conceito de função: um fenômeno do qual o participante numa cultura esteja inconsciente. Ralph Linton fez a distinção muito útil entre função e significado (ver O

homem: uma introdução à Antropologia, 1946). Os membros de uma

sociedade provavelmente nem têm conhecimento da função de qualquer crença, costume, ritual ou instituição, e certamente é improvável que possam identificá-la. Ao contrário, ao serem indagados assim: “por que vocês fazem isso?”, a resposta dada seria uma justificativa socialmente convencionada – o significado. Por exemplo, entre os Kaiapós, os caçadores poupam os animais mais gordos e sadios (“bonitos”), porque acreditam terem espíritos

muito fortes, e, portanto, perigosos (o significado). Não sabem que essa prática tende, a longo prazo, a melhorar a qualidade da caça perto da aldeia, através da sobrevivência seletiva dos animais de melhor qualidade para a reprodução. A justificativa os induz a seguir a prática (com resultado material desejável), mesmo que não saibam realmente o porquê (função; ver ELISABETSKY, 1986). De fato, não importa se o povo conhece o resultado dos seus atos; só importa que façam o que devem para prolongar a vida do sistema (definição de adaptação).

Se se pergunta a um informante: “por que o seu povo faz tal coisa?”, vai receber o significado, não a função, pois essa o povo desconhece e o etnógrafo tem que descobrir. A função e o significado não precisam ter nenhuma relação entre si, pois a eles basta motivar a pessoa a fazer o que se deve para o bem do povo (função).

A influência do Funcionalismo no Brasil, também foi mais através da publicação de textos de origem inglesa de que através de contatos diretos, como tinha sido o caso dos norte-americanos no Brasil – Ralph Linton ou Charles Wagley, por exemplo, ou do francês Claude Lévi-Strauss. No entanto, o impacto, na época, talvez tenha sido maior para a Sociologia do que para a Antropologia brasileira, embora, numa época posterior de introspecção crítica dos brasileiros, tenha havido uma reação maior contra o Funcionalismo (parceiro do colonia- lismo) na Sociologia do que na Antropologia brasileira, onde o Funcionalismo exerceu, afinal, uma menor influência direta.