o que a Antropologia procura?
4.6 estudos de comunidades
Também em meados da primeira metade do século XX, na Universidade de Chicago, surgiu uma abordagem sociológica e antropológica com fortes raízes no estudo da ecologia humana aplicada a problemas urbanos (HAWLEY, 1966). Isso, junto à pre- sença temporária do funcionalista A. R. Radcliffe Brown, deu origem a uma escola mal articulada, basicamente funcionalista, embora, às vezes, como no caso de Robert Redfield, incluísse, ao mesmo tempo, ideias evolucionistas (como as do arqueólogo britânico V. Gordon Childe) e ideias difusionista-particularistas (como as de Edward Sapir e A. L. Kroeber, a idade e área), o que, paulatinamente, conduziu a estudos de comunidades camponesas.
Além de Redfield (Tepoztlán, O mundo primitivo e suas trans-
formações e Folk Culture of Yucatan), antropólogos destacados nessa
linha incluem Oscar Lewis (Tepoztlán revisitada e A Antropologia da
pobreza), Sol Tax (Capitalismo do centavo), Fred Eggan (Organização social dos pueblos ocidentais) e Edward Spicer (Potam e Pascua Village). Isso conduz a uma espécie de Funcionalismo diacrônico,
que reaparecerá como ponto fundamental do Neoevolucionismo. Interessantemente, alguns dos primeiros índios a tra- balhar na Antropologia associam-se a essa escola, sendo um deles o pueblo Ed Dozier, que se doutorou na Universidade de Chicago, e o outro, o maia Alfonso Villa-Rojas (A comunidade
que escolheu o progresso), informante de Redfield, em Iucatã, que 11 Ver APÊNDICE G – Cultura e personalidade e APÊNDICE H
passou a dar continuidade a tais trabalhos em Chan Kom e em outras comunidades iucatecas.
Uma pessoa importante nessa linha que influenciou a Antropologia brasileira foi Charles Wagley (Uma comunidade ama-
zônica, lágrimas de boas-vindas: os índios tapirapé do Brasil central).
Ele pesquisou aqui e treinou brasileiros, tendo feito também tra- balhos em associação com Eduardo Galvão (Tenetehara). De fato, a abordagem de “estudos de comunidades” teve muita impor- tância no Brasil, produzindo vários bons estudos etnográficos. Esse tipo de abordagem conduziu também, sob o patrocínio do Departamento de Estado dos Estados Unidos –
International Cooperation Agency – a trabalhos na linha americana
de Antropologia aplicada, ou seja, em que o antropólogo é chamado às pressas para resolver problemas específicos que já teriam surgido no processo de desenvolvimento ou de trans- ferência de tecnologia, especialmente em países do terceiro mundo. Um antropólogo desta linha conhecido no Brasil é George Foster (Sociedades tradicionais e o impacto da tecnologia), enquanto outro, mais conhecido na América Central, é Richard N. Adams (Introducción a la Antropología Aplicada).
No México, surgiu uma escola de Antropologia aplicada que preconizava projetos integrados de desenvolvimento, cons- tantemente monitorados e assessorados, ou até administrados, por antropólogos. Porém, programas que dependem de governos sofrem alterações com cada mudança de administração, de tal modo que tais planos de projetos de longo alcance, frequen- temente sofreram solução de continuidade. Sem embargo, a experiência mexicana é muito valiosa e, provavelmente, mais relevante para o Brasil de que a experiência norte-americana de procurar resolver problemas específicos na medida em que surgem. Nesse país, onde termos tais como “camponês” e “índio” são sinônimos, um nome destacado entre os antropólogos é o de Aníbal Aguirre-Beltrán. Muitos trabalhos dessa escola foram
publicados pelo Instituto Indigenista Interamericano e na sua revista América indígena.
Enquanto a Arqueologia europeia continuou com uma abordagem essencialmente evolucionista até meados do século XX, a Arqueologia americana acompanhou a Antropologia no Relativismo, assumindo matizes nitidamente difusionistas (procurando documentar migrações, difusão de traços e pontos de origem de culturas e de estilos de artefatos). O outro aspecto da Antropologia Norte-americana, as abordagens mentalistas, não deixa influência na Arqueologia pelos problemas metodo- lógicos envolvidos na paleopsicologia.
O Funcionalismo surgiu no contexto do Relativismo na Europa ocidental, destacadamente na Inglaterra, se bem que muito devendo aos franceses Auguste Comte e Émile Durkheim, espe- cialmente em relação ao conceito de solidariedade social.
1 - Segundo o Funcionalismo, a cultura e as suas institui- ções (seguindo Bronislaw Malinowski, ver Uma teoria científica da
cultura, 1970), ou então a sociedade (seguindo A. R. RADCLIFFE-
BROWN, ver Estrutura e função na sociedade primitiva, 1973), é um sistema adaptativo, adaptando-se às pessoas, às instituições e aos fatos sociais, embora não mencionavam o meio ambiente nesse contexto.
2 - Essa adaptação envolve processos (embora em curto prazo), pois todas as partes da cultura ou da estrutura social estão intimamente inter-relacionadas e interdependentes, de modo que uma modificação numa área (ou instituição) provocará modificações em cadeia nas outras, pois
3 - Cada costume, instituição, prática etc., tem uma função, a qual era vista por Malinowski como um resultado (output) socialmente almejado pelo pessoal de uma instituição, o qual, para tanto, nela se organizava; para Radcliffe-Brown, por sua vez, tal função era vista como a contribuição parcial de uma dada coisa (costume, instituição, prática, ideia, ritual) para a manutenção do sistema (sociedade ou cultura) total do qual faz parte.
Para os hindus, o amor à vaca significa a forma mais alta de respeito ao princípio da vida, mas antropólogos, estudando a função do gado na cultura rural indiana, apontam o fato de que matar a vaca para comê-la em época de muita fome significa nunca mais ter bois para puxar o arado (pois a vaca é a fábrica de bois), e o camponês eventualmente perderia a sua terra para um agiota. O culto à vaca tem, portanto, a função de afastar o perigo da morte da vaca, tão indispensável à sobrevivência do camponês, mesmo que ele pense que poupa esse animal por amor à vida sagrada dela (HARRIS, 1978, p. 17-34).
No Funcionalismo, a ênfase está na manutenção do sis- tema, evitando rupturas e tensões que provocariam problemas. Essa filosofia era excelente para a manutenção de um império colonial (o império britânico), e a contribuição dos antropólogos britânicos era explicar o sistema dos nativos aos administrado- res, aconselhando-os sobre como deveriam agir para manter o
status quo e a tranquilidade dos nativos, ao administrá-los (ver
RADCLIFFE-BROWN e C. D. FORDE, 1974, Prefácio). Até hoje, na África, a palavra “antropólogo” é palavrão.
Os membros de uma sociedade são efêmeros. Nascem, vivem, reproduzem-se e morrem. Para que permaneça a estru- tura social (rede de papéis desempenhados pelos seus membros, cada um inter-relacionado com os outros), os membros são substituídos: esse é um dos motivos pelos quais a sociedade – com a sua estrutura – é permanente, enquanto os indivíduos desapa- recem e são substituídos. Radcliffe-Brown queria uma tipologia de estruturas sociais para ser estudadas comparativamente12.