• Nenhum resultado encontrado

Como as representações são geradas: Objetificação e Ancoragem

2.4 A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

2.4.4 Como as representações são geradas: Objetificação e Ancoragem

É importante relembrar que a principal função das representações sociais, conforme Moscovici (1982), é a familiarização do desconhecido. Esta familiarização ocorre através de dois processos que são centrais na formação das representações sociais: a objetificação e a ancoragem. A objetificação permite controlar o objeto em questão, pois transforma o conteúdo do pensamento em algo quase físico, de modo que o pensamento se torna visível e tangível. Como exemplo pode-se citar a imagem de uma mulher excessivamente magra. Nos dias atuais essa imagem é a própria objetificação da anorexia. É a imagem que se liga ao conceito, a imagem que traduz o objeto.

A ancoragem, por seu turno, transfere o objeto desconhecido para um esquema de referência existente, de modo a ser comparado e interpretado, voltado para as categorias cotidianas, passando a estar ligadas a pontos de referência conhecidos. Quando informações sobre algo que é totalmente desconhecido chegam até as pessoas, elas buscam comparar com informações nas quais tem confiança. Quando se ouviu falar pela primeira vez em aids, nos anos 80, quando a doença começou a ser conhecida e pouca informação científica era divulgada, as pessoas começaram a compará-la com outras doenças das quais tinham um maior conhecimento,

como o câncer, por exemplo, que tinha em comum com a aids o fato de ser considerada como uma sentença de morte, ou ainda com a sífilis, doença também transmitida sexualmente, sobre a qual se tinha mais conhecimento na época. Desse modo ao tentar entender ou explicar a aids, as pessoas o faziam por meio de comparações, buscando entender o que era desconhecido com base em um conhecimento mais sedimentado.

Os processos de objetificação e ancoragem se complementam de modo a permitir que a novidade se apoie sobre o conteúdo já estruturado no pensamento social (Moscovici, 1982). A estrutura da representação também possui duas faces, uma figurativa e uma simbólica, de modo que todo o sentido pressupõe uma figura e toda figura pressupõe um sentido. Essa estruturação permite compreender os objetos formadores da representação, quando um sentido é dado para uma figura, de forma a dar materialidade a um objeto abstrato, ocorre o processo de objetificação; a reprodução de uma figura por um sentido, na qual se contextualiza um objeto, ocorre no processo de ancoragem (Sá, 1996). Jodelet (2001, p. 38), explica o papel da ancoragem na formação da representação social:

A ancoragem intervém ao longo do processo de

formação da representação, assegurando sua

incorporação ao social. Por um lado, a ancoragem enraíza a representação e seu objeto numa rede de significações que permite situá-los em relação aos valores sociais e dar-lhes coerência.

Trata-se da representação de um novo objeto através de sua integração com um sistema de pensamento social pré-existente, ou seja, incorporação de elementos novos a um sistema existente de categorias, de modo a tornar o que é novo familiar, nomeando, classificando (Sá, 1996). A

ancoragem permite apoiar pensamentos novos em pensamentos pré- existentes, de modo a apoiar a novidade em esquemas antigos, ao que já é conhecido. Através dela torna-se possível dar funcionalidade a uma representação, de modo a interpretar e gerir o ambiente (Jodelet, 2001).

Desse modo, ancorar significa rotular e classificar qualquer objeto que não pertença a uma categoria, que não possua nomeação, tudo que seja ameaçador ou estranho. Poder se referir a um objeto, julgá-lo, ou expressar- se sobre ele, tira-lhe o caráter de incomum, torna-lhe parte de um universo tangível e conhecido. A categoria fornece um modelo, um protótipo de todos os elementos que a ela pertencem, e ao enquadrar um objeto em uma categoria ele passa a ser comum e comparável a outros objetos já conhecidos (Moscovici, 1982).

A objetificação é o processo pelo qual um objeto passa a ser imaginado, recriado, ganha forma, deixa de ser um conceito abstrato para tornar-se concreto, é a palavra dotada de concretude, o conceito transformado em ícone, é a reprodução de um conceito através de uma imagem. É a criação imagética de algo que se equivale às palavras, seu equivalente não verbal (Sá, 1996).

Os processos de objetificação e de ancoragem tem um papel fundamental na formação das representações sociais, assim como bem explicado por Moscovici (1982) ao falar da teoria geral. Focando em outro aspecto das representações foi que (Abric, 1994, 1998) fundou uma escola complementar à escola fundada por Moscovici. Trata-se da abordagem estrutural das representações sociais, ou ainda da teoria do núcleo central, como também é conhecida. Assim como o próprio nome da abordagem

adianta, essa escola se preocupa em identificar a estrutura das representações sociais.

2.5 A ABORDAGEM ESTRUTURAL DA TEORIA DAS

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Um grande número de estudos experimentais permitiu demonstrar que o comportamento individual ou grupal não é unicamente determinado pelas características objetivas da situação em que as pessoas se encontram, mas também pela representação que possuem da situação ou de dado objeto (Guimelli, 1993). Nesse sentido a abordagem estrutural das representações sociais permite compreender a estrutura dos elementos e da relação entre representações sociais e práticas sociais.

A teoria das representações sociais pode ser considerada uma grande teoria em relação à qual a teoria do núcleo central constitui uma abordagem complementar que proporciona descrições mais detalhadas da estrutura da representação social de forma compatível com a teoria geral. A teoria do núcleo central proporciona um corpo de proposições que contribui tornando a teoria das representações sociais mais heurística para a prática social e para a pesquisa, ela é “uma das maiores contribuições atuais ao refinamento conceitual, teórico e metodológico do estudo das representações sociais” (Sá, 1996, p. 52). Ela permite que as representações sociais possam ser compreendidas pelo estabelecimento de zonas centrais e de zonas periféricas da representação ( Polli, Kuhnen, Azevedo, Fantin, & Silva, 2009)

Documentos relacionados