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2 CONTROLE SOCIAL, DEMOCRACIA DELIBERATIVA E CONSELHOS

2.2 Os conselhos gestores de políticas públicas

2.2.2 Como mapear e discutir o exercício do controle social em conselhos

Os estudos apresentados até este momento tiveram como objetivo a construção de um quadro referencial para o mapeamento e compreensão do exercício do controle social da assistência social nos municípios do Território de Identidade da Bacia do Rio Grande, Bahia. O controle social é um conceito fortemente relacionado às noções de democracia deliberativa e democracia participativa. Para a primeira, o controle estaria, sobretudo, presente na qualidade da informação e na assimetria do seu controle e produção, para a tomada de decisão em espaços apropriados, como seria o caso dos conselhos. Para a democracia participativa, o controle se daria pela independência e circularidade de diferentes atores, também dentro de espaços decisórios apropriados. Com isso, assimetria informacional, pluralidade e circularidade de atores, além de independência dos espaços políticos que devem ser os conselhos gestores municipais, são importantes dimensões para a problematização e compreensão do grau de consolidação e maturidade dos conselhos gestores municipais no que concerne à efetividade do controle social.

Ainda de acordo com tais leituras, o controle social se daria de modo mais complexo e completo nos conselhos gestores se exercido contemporaneamente em suas quatro funções complementares:

a) deliberativa; b) fiscalizadora; c) consultiva; e

d) normativa, com maior ênfase sobre as duas primeiras.

Além destas acrescentem-se as dimensões de gestão, de aprendizagem e de ética, também presentes na literatura, ainda que não suficientemente aprofundadas.

Assim, este trabalho, levando em consideração os conteúdos estudados, bem como as limitações de dados sobre este tema, desenvolveu a sua análise a partir de dois grandes grupos de dimensões e características: o formal e o político.

Do ponto de vista formal, em tese, os conselhos exercem melhor o controle social quando:

a) existem;

b) assumem as quatro funções, com ênfase sobre a deliberativa e a fiscalizadora;

c) possuem um número igual de representantes da sociedade civil e do governo; d) integram sistemas municipais que estão vinculados a fundos de assistência

social;

e) possuem sede própria;

f) reúnem-se com regularidade; g) promovem publicização.

Do ponto de vista do conteúdo, em tese, os conselhos exercem melhor o controle social quando:

a) proporcionam fácil acesso ao público em geral;

b) há rotatividade entre os membros que representam a sociedade civil; c) a deliberação está diretamente associada ao fundo;

d) possuem mecanismos de registro das fiscalizações realizadas;

e) possuem canais de diálogo contínuo com o público (sugestões, informações, denúncias etc.); e

f) participam da revisão anual dos planos municipais de assistência social.

A partir desses aspectos (formal e informal/político) foi possível delimitar algumas dimensões que se apresentam de maneira orgânica e são implicitamente abordadas pela literatura especializada, a saber:

a) participação; b) transparência; c) deliberação; d) natureza;

e) institucionalidade;

f) aprendizagem associada à prática do controle social, especificamente, nos espaços dos conselhos gestores.

O conhecimento da existência ou não dessas dimensões nas práticas conselhistas permite uma aproximação com o nível do controle social exercido em seus mecanismos, em que a experiência que reúne a maioria das dimensões citadas tem maior condição de exercer um controle social próximo àquele contido na literatura, além de indicar quais aspectos devem ser aprimorados.

Entretanto, o resultado produzido com a aplicação de tais dimensões poderá variar conforme os diferenciados contextos, além da possibilidade de incorporação de outras dimensões, como: da responsividade, da publicização, da vocalização, da representatividade, da paridade e outras, conforme a necessidade do estudo.

Acerca do entendimento que norteou análise das dimensões do controle social consideradas neste trabalho, destaca-se:

a) dimensão da participação no controle social:

 se refere à sociabilidade política promovida pela abertura dos espaços democráticos a partir da entrada de diversos atores sociais na esfera pública, para além das representações previstas, imprimindo uma diversidade de posicionamentos ao processo de discussão das questões pertinentes a dada política.

b) dimensão da transparência:

 referente ao nivelamento de conhecimento, por meio da disponibilidade das informações acerca da gestão da política tanto aos representantes como à sociedade (usuários, entidades sociais, pesquisadores e profissionais), pela adequação da linguagem ao público, criação e/ou ampliação dos canais de comunicação, além da oferta de suporte técnico. c) dimensão da deliberação:

 trata da qualidade do processo decisório em si, que deve ocorrer com base na ampla discussão dos temas em votação, considerando a complexidade (interesses políticos envolvidos e a correlação de forças) e autonomia dos espaços democráticos.

d) dimensão da natureza:

 capacidade dos espaços democráticos em assumir as funções prescritas na base legal (deliberativa, consultiva, fiscalizadora e normativa), superando a noção do formalismo e gerando mudanças na accountability

da política na perspectiva do alcance de ações de qualidade e otimização de recursos públicos.

e) dimensão da institucionalidade:

 se refere à adequação dos instrumentos legais das políticas em correspondência com o aparato legal das instâncias nacionais, possibilitando o acompanhamento das transformações sociopolíticas, culturais e econômicas obtidas pelo processo de luta.

f) dimensão da aprendizagem:

 se dá pela apropriação do espaço pelos sujeitos envolvidos e da circularidade do saber, adquirida tanto pela experiência, troca de conhecimentos, acesso a informações como pelo acesso a espaços de formação para a devida instrumentalização, principalmente das representações da sociedade civil, considerando que podem ter pouco ou nenhum domínio da burocracia dos Órgãos públicos.

Cabe ressaltar que, no desenvolvimento das experiências conselhistas, estas dimensões apresentam-se de forma dinâmica, podendo uma estar mais presente que outra, conforme o contexto sócio-político e da cultura política local, fato que pode originar resultados diferenciados.

A partir deste quadro referencial de análise das dimensões do controle social este trabalho buscou mapear, compreender e discutir o estado da arte do controle social nos municípios da Bacia do Rio Grande. Cabe salientar que este se refere à forma, à arquitetura, ao desenho político-institucional; de como este controle se desenvolve nas diferentes realidades dos espaços democráticos de assistência social. Tudo isso com intuito de compreender em que medida, na atuação, atendem- se às questões de formalização, cumprem-se as funções dos conselhos, e se estes são participativos, acessíveis à população e publicizadores. Enfim, como o controle social se efetiva no Território.