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2 CONSTRUINDO CORPOS BONITOS E FORTES

5. RITOS FUNERÁRIOS: legitimando mekarõ

5.1 Como morrem os vivos, como vivem os mortos

Desde ontem de manhã, as mulheres começaram a se lamentar de maneira intermitente, tratando a velha como se ela já tivesse expirado. “Você está morta, vovozinha, está morta”, diziam-lhe tristemente, enquanto ela ainda falava e pedia comer. É verdade que morrer é para os Achuar um ato cumulativo e quase voluntário. [...]. Já se está um pouco morto antes de falecer, um doente sendo considerado um defunto em potencial e um defunto, um doente completo (DESCOLA, 2006, p.409).

Assim descreveu Descola acerca da morte como um processo, entre os Achuar. Igualmente, os Canelas consideram como morto o indivíduo ainda doente, tratando a doença, em alguns casos, como o roubo do caxwyn pelos mekarõ, conforme relatou Kapêl-Tic (2007): “esse que morreu primeiro [mekarõ], vem apanhar quando estava vivo. Já tava querendo morrer, perto de morrer, doente, já levou, só fica o corpo. Se os parente quiser eles trazem, retorna e bota no corpo, aí ele pode viver”. Para os Canelas é responsabilidade dos

cay (pajés) resgatar o caxwyn para junto do corpo, antes que o mesmo transforme-se em karõ. Portanto, os Canelas não iniciam seus lamentos antes da certeza de que o caxwyn não voltará mais para o corpo. Segundo Jojô, o choro distancia o caxwyn (espírito), que logo se transforma em karõ e, nesse sentido, o lamento precipitado poderia favorecer o distanciamento do caxwyn.

Sobre a possibilidade de um defunto levantar e falar, Rodrigues observou que, os

toradja do sul também realizam uma série de práticas, num processo ritual onde o defunto é considerado como estando doente:

Segundo o pensamento toradja “é necessário tempo para morrer”, porque a morte

biológica nunca é a morte verdadeira. [...] Por algumas horas pelo menos, por alguns meses, às vezes anos, o defunto é considerado to ma saki, ‘doente’, e é nessa condição que é lavado, vestido, enfeitado, alimentado, exposto... O morto, ou melhor, o ‘doente’, está inerte, porque está privado de sumanga, ‘energia vital’, ou de penaa, ‘sopro vital’. Mas nada impede que retorne e que o doente se levante e fale. Portanto, é necessário tempo para que o princípio vital, que se encontra difundido por todo o corpo, se evada deste (RODRIGUES, 2006, p. 43).

Entre os Canelas, como já havia dito, também se faz necessário tempo para a confirmação de que o caxwyn não retornará mais para o corpo, pois segundo informações de Crocker, quando um Canela morre à noite, não é chorado antes do sol aparecer, pois é possível que o caxwyn retorne. Até então, o defunto é considerdo como doente, portanto nada de pressa nas lamentações. Mas, também pode ser observada a representação inversa entre os Canelas, sendo o doente considerado como defunto, visto que estar doente é ter seu caxwyn (espírito) fora do corpo. A doença consiste nessa separação entre corpo e caxwyn, enquanto a morte consiste na transformação do caxwyn em karõ. Segundo os dados de Panet (2010) “não é o corpo him quem adoece, mas o espírito, o caxwyn (pessoa de dentro)82”. Assim descreveu Pierre Clastres sobre os povos indígenas da América do Sul:

a forma da doença é quase sempre a mesma: ela consiste numa antecipação provisória daquilo que a morte realiza definitiva, a saber: a separação entre corpo e alma. A boa saúde se mantém pela coexistência do corpo e da alma unificados na pessoa, a doença é a perda dessa unidade pela partida da alma. Tratar a doença, restaurar a boa saúde, é reconstituir a unidade corpo-alma da pessoa: como médico, o xamã deve descobrir o lugar onde a alma é retida prisioneira, libertá-la do cativeiro onde a força que dela se apoderou a mantém, reconduzi-la por fim ao corpo do paciente (1982, p. 74).

Na maioria dos casos, a doença entre os Canelas é provocada pelos mekarõ, ou contato com mortos, como no caso de uma ahkraré que, segundo Panet, “havia adoecido porque sentiu a “catinga” de um morto. O mau cheiro sentido pela ahkraré fez sua barriga apodrecer” (2010, p. 99). Os meninos e meninas bem pequenos são vistos como indefesos aos ataques dos mekarõ, visto que ainda estão em processo de fabricação, portanto são percebidos, de acordo com Panet (2010, p. 98), como frágeis e inacabados, e, portanto, o

82 “Quem fica doente é o espírito e não o corpo porque o espírito quando ele desloca da pessoa, o corpo da gente, him,

leite materno, as refeições familiares, bem como o nome e os ritos de iniciação são necessários para a constituição do corpo e da pessoa Canela. Descola (2006, p. 417) também aponta a fragilidade das “crianças” Achuar, pois segundo o autor, as “crianças” tem seu

wakan (princípio vital) incompleto, tornando-as desarmadas diante dos Iwianch.

Muitos povos indígenas apontam o morto como perigoso aos vivos. Especialmente os odores de um cadáver são percebidos como causadores de doença, pois da mesma forma como entre os Canelas o cheiro de um morto se torna arriscado para os vivos, também entre os Krahó, conforme Carneiro da Cunha, ocorrem mortes que seriam causadas pelo cheiro da catinga dos mortos. Para os Krahó, “a doença é geralmente provocada por um contato abusivo com parentes mortos” (1978, p. 12). Do mesmo modo, os Caingangues referem-se ao morto como perigoso à comunidade, devendo ser afugentado, visto que produz a morte e a doença(MELATTI, 2007, p. 179).

Crocker também presenciou a morte de uma mulher entre os Canelas, que imputaram seu falecimento à ação dos mekarõ. As almas dos mortos tinham batido nas costas da mulher enquanto apanhava água, à noite, sozinha no riacho (2009, p.107). A doença, neste caso, pode ter sido causada por um contato mínino com os mekarõ, pois como relatou Tep Hot (2012), “se mekarõ só passar a mão em você, diz que no lugar é dor, uma dor danada”. Mas, mesmo sendo responsáveis por algumas mortes entre os Canelas, são os mekarõ que ajudam um cay (pajé) na cura das doenças e, principalmente, no resgate do mecaxwyn, sendo tal prática considerada extremamente arriscada, visto que os cay são perseguidos pelos mekarõ, que os derrubam, e podem não mais retornar dessa busca:

Quando eu vou atrás, aonde mekarõ tava com ele, aí vai atrás, chega lá. Mas tem parente mekarõ dele, desse que tá doente que vai me ajudar. É ele que toma dos outros [mekarõ] entrega pra mim, aí agarra no braço e corre com ele, mas parente dele mekarõ vem atrás, até perto da casa, depois despacha e pronto. Levanta, dá um pouquinho de água e pronto, acabou tudo. Aí mekarõ não vem mais apanhar ele. Mas é perigoso, porque mekarõ derruba a gente (José Pedro Preto Hyjno, 2011).

Carneiro da Cunha também descreveu a morte entre os Krahó como um processo reversível, até o momento da instalação do karõ na aldeia dos mortos, ocasião em que, segundo a autora, marca um “non-retour”. Mas não é somente a exterioridade do karõ que sanciona a morte, mas a participação destes na vida social da aldeia dos mortos. E, também, entre estes, cabe aos pajés trazerem o karõ de volta à aldeia dos vivos (1978, p. 11). Vale ressaltar que nas descrições de Carneiro da Cunha, o termo karõ seria um correspondente de

alma e espírito, mas como a própria autora sugere, com significado bem mais amplo. No caso Canela, a utilização dos termos karõ e caxwyn, só ficou clara quando Jôjô (2011), narrou:

Hoje, as pessoas faz muita confusão. Quando menino pequeno tá dormindo não pode fazer zuada, porque pode se espantar e caxwyn dele pode não voltar. Mas tem pessoa que faz confusão e chama isso de karõ, mas esse é caxwyn. Quando tá morto que é

mekarõ.

Nimuendajú (1946, p. 133) foi um dos primeiros a observar que “um Canela, quando possível, tenta morrer na sua casa materna”. Obtive essa mesma informação, no ano de 2006, de Jojô: “um pessoa morre na casa de sua mãe, no lugar onde nasceu, onde foi enterrado seu umbigo”. No entanto, em 2011, alguns Canelas informaram que, atualmente, quando um homem é casado, ele tem o corpo exposto na casa de sua esposa. E, logo obtida a certeza da morte, colocam o corpo em cima de esteiras, no meio da casa, e dão início à lavagem e ornamentação do morto, bem como a uma sequência de lamentações as quais envolvem falas que destacam as qualidades do morto e a saudade que dele sentirão.

Sobre as lamentações e o destaque dado às proezas do morto, assim descreveu Métraux:

Entre os tupinambás do Rio de Janeiro: o elogio do morto era feito pelas mulheres, que interrompiam os lamentos com diálogos, cujo teor é dado por Léry: ‘Morreu, berravam algumas, arrastando a voz, quem era tão valente e tantos prisioneiros nos deu a comer! Era, replicavam outras, no mesmo tom, um bom caçador e excelente pescador! Que bravo matador de portugueses e maracajás, exclamavam as restantes! (1979, p. 106).

O choro, extremamente ritualizado entre os Canelas, nesse contexto marca a separação entre vivos e mortos. A participação das mulheres nessas lamentações, que envolve um choro cantado, é significativa, reforçando Rodrigues ao destacar que para cada sociedade os sentimentos são ritualizados e socialmente propostos, e “tristeza, indiferença e alegria não são necessariamente sentimentos reais, experimentados pelos indivíduos, mas, antes, comportamentos convencionais”(2006, p. 41). Portanto, na sociedade Canela espera-se que as mulheres participem dos ritos fúnebres e, especialmente, a amiga formal do morto, sendo esta retribuída pelos parentes do morto por seus cuidados dedicados ao defunto. No entanto, tais lamentações não visam apenas destacar as qualidades do morto, mas é preciso mandá-lo definitivamente para a aldeia dos mortos. Portanto, daí a presença de lamentos obrigatórios, os quais partem de manifestações individuais até transformarem-se em um ‘coro de choros’, “numa algazarra de berros e palavras monótonas, recitadas aos gritos, em compasso ligeiro:

“Quando você estava vivo, eu te queria muito bem. Agora não te quero mais. Não volte mais para cá!” (NIMUENDAJÚ, 1946, p. 133).

Carneiro da Cunha (1978, p. 27) destaca que as ‘lamentações cantadas’ entre os Krahó, referem-se ao afeto que sentiam pelo morto, à saudade que sentirão, mas através delas pedem ao morto que esqueça seus parentes vivos. Panet (2010, p. 138) também se referiu ao choro ritual, extremamente marcante nas aldeias Timbira:

Os Canelas não deixam os mortos partir sem antes terem chorado muito. Estas lamentações podem durar quase um dia inteiro, conforme a importância do

defunto. Durante o ritual funerário, os membros da família do morto lhe falam em

lamentos, lembrando-o que não estão prontos para partir com ele e que é preciso esquecê-los. Estas lamentações são ritmadas e parecem músicas que saem do espírito e atravessam a garganta. “Um dia a gente vai se ver, mas agora não, pois eu

ainda não estou pronto” (palavras de um índio na ocasião do ritual funerário de seu

irmão). (grifos meus)

De acordo com Rodrigues (2006), as origens sobre quando os homens passam a inscrever sua marca sobre o cadáver, parecem perdidas. No entanto, descreve que as sepulturas são as incontestáveis marcas da presença humana em um território, sendo que as sepulturas mais remotas datam do homem de Neanderthal, entre 80.000 e 30.000 anos. E, como afirmou, é a consciência da própria morte, que leva o homem “a produzir uma imensa variedade de representações em torno de sua morte e das dos outros” (2006, p. 19). Tais representações que envolvem práticas funerárias diferenciadas não devem ser tomadas a partir de explicações meramente utilitárias:

Não se poderiam explicar as práticas funerárias, o enterro, por exemplo, por motivos puramente utilitários ou higiênicos (afastar a sociedade de uma virtual fonte de elementos patogênicos), porque se isto fosse verdade, não se entenderia porque certas sociedades enterram seus membros antes mesmo que estes morram, nem poderíamos explicar porque certos povos convivem longamente com o processo de putrefação, como em Zanaga, ainda hoje, onde os grandes dignitários tegé [...] são conservados até seis meses, improvisando-se sob o leito mortuário um canal que recolhe os líquidos cadavéricos e os conduz aos lugares exteriores (RODRIGUES, 2006, p. 20).

A lógica dos enterros Canelas é extremamente simbólica, demarcando lugares diferenciados para cada morto. Nimuendajú (1946, p. 134) afirma que quando os Canelas ainda realizavam o enterro secundário83, o morto era enterrado primeiro atrás da sua casa

83 O enterro secundário, segundo Carneiro da Cunha (1978, p. 36), referindo-se aos Krahó, consistia em

desenterrar o defunto algum tempo depois da primeira inumação, quando os ossos eram limpos e lavados, em seguida pintados de urucu e enterrados novamente. Nimuendajú (1946, p. 135), assim descreveu essa prática entre os Canelas: “Até uns vinte anos atrás (1916) os Canela ainda mantiveram o enterro secundário em casos individuais, ao menos para os Hamrén; para o resto da comunidade não costumavam mais realizar. Geralmente o enterro secundário ocorria três ou cinco anos depois do primeiro [...]. Os ossos eram limpos com uma ferramenta

materna, sendo um Hamrén enterrado na frente da casa materna, na margem interior da rua circular (krĩcape). Ao deixar sua marca sobre o cadáver, um Canela expressa as diferenças de

papéis sociais presentes na sociedade Canela, pois até mesmo o choro ritual tem duração e participação conforme o status do morto. De acordo com Nimuendajú (1946), quando se tratava de um morto proeminente e muitas pessoas compareciam, um parente do morto matava um porco para entreter os presentes. E, parte da comida era colocada em uma cuia para o morto, sendo que uma mulher segurava um pedaço de comida próximo à boca do defunto. Geralmente, o oferecimento de comida ao morto ocorre quando acreditam que o mesmo morreu com fome (Figura 36).

Figura 36 – Homem oferecendo comida para o morto. Foto: Crocker, 1970.

Nimuendajú (1946) descreve que o túmulo tinha o formato redondo e o corpo era colocado numa posição sentada, de frente para o leste. Atualmente, o enterro é realizado em cemitério84 sendo a sepultura retangular, onde o morto é colocado deitado de lado, envolto em esteira ou em caixões. Os adultos são separados dos ahkraré, mas até a época de Nimuendajú, os ahkraré eram os únicos que ainda eram enterrados atrás da casa materna.

A cova é percebida como um jirau, que protege o morto da terra, pois não atiram a terra diretamente no corpo. Em cima da cova colocam os objetos pessoais do morto: roupas,

de talo de bacaba e pintados com urucum. Então eram embrulhados em fios de algodão, especialmente preparados pela mãe do morto (ou uma parenta que a substitui) e amarrados juntos. Finalmente os restos eram colocados dentro de uma bolsa, trançada de embira de buriti e enterrados em um buraco de pouca fundura no cemitério”.

84 “Mais do que o lugar da morte, sujeito a circunstâncias imprevisíveis, o lugar do enterro é carregado de significado” (CARNEIRO DA CUNHA, 1978, p. 35). O cemitério na aldeia em nada se assemelha a estrutura dos nossos cemitérios, sendo difícil até mesmo identificar tal espaço.

remédios, cestos e outros (Figura 37). Entre os Tupinambás, o fosso era aberto por um parente mais próximo, bem como o transporte do morto até o local onde seria sepultado (MÉTRAUX, 1979, p. 107).

Figura 37 – Sepultura Canela. Foto: Crocker, 1960.

Entre os Kaiapó, conforme descrições de Lukesch (1976, p. 205), “a mãe costuma levar nos braços o filho morto, para ser enterrado”, o que difere em muito dos Canelas, onde os parentes mais próximos nem acompanham o corpo até o cemitério. No entanto, os Kaiapó e os Tupinambás assemelham-se aos Canelas nas precauções para que a terra não caia diretamente sobre o defunto.

As esteiras na qual o corpo repousa são dobradas sobre ele e amarradas firmemente nas pontas e no meio. Então o embrulho é pendurado em uma vara na qual dois homens carregam até o cemitério (...). Algumas esteiras a mais são levadas para o ajuste do túmulo. (...). A abertura do túmulo é coberta com pedaços de madeiras postas transversalmente, que são encimadas com esteiras antes de serem cobertas com terras. Com receio de que o calor do sol decomponha o morto, folhas de palmeiras são colocadas neste túmulo; às vezes o túmulo é cercado com velhas toras de corrida pra manter afastados porcos domésticos (NIMUENDAJU, 1946, 134).

O Canela Abilim Tààmi narrou que todo o cuidado tomado durante os preparativos do morto e seu enterro, objetivam alegrar os mekarõ, a fim de que estes não regressem para aborrecer os vivos. Portanto, após o enterro é executada uma série de práticas que visam distanciar o karõ do convívio da aldeia. Assim, logo que o defunto é enterrado, os parentes do morto apagam seus rastros no cemitério, com folhas de arbustos, para os mekarõ não os seguirem. Presenciei, em junho de 2012, a Pinxwyj (amiga formal) de uma menina

morta, que tinha aproximadamente 10 meses de idade, realizando os preparativos para levá-la ao cemitério. A Pinxwyj tomou a menina no colo enrolada com tecidos e apoiada por uma tipoia, seguiu para cemitério, acompanhada de uma garota que carregava o caixão e outra levava duas esteiras e uma sacola com os pertences da ahkraré morta. Assim seguiram até o cemitério, onde não houve nenhum tipo de lamentação. No caminho encontramos o marido da

Pinxwyj com mais dois homens, que carregavam enxada e pá. Quando chegamos ao local do enterro, esses homens já haviam cavado a sepultura. Ali, a amiga formal colocou a menina deitada de lado, dentro do caixão, toda enrolada em tecidos, ficando apenas seu rosto à mostra. Em seguida, o marido da Pinxwyj pulou para dentro da cova e os demais lhe entregaram o caixão, o qual foi colocado no fundo da sepultura. Entregaram pedaços de madeira ao homem, os quais foram sendo colocados no fundo, de um lado ao outro da cova, de modo que o homem não pisava mais no chão da cova, mas nos pedaços de madeira. Imediatamente, uma das meninas entregou ao homem galhos de arbustos, com os quais ia apagando seus próprios rastros deixados no chão do sepulcro. Após essa prática, que objetiva não deixar nenhuma pista para os mekarõ sobre o lugar dos vivos, foi colocada junto ao caixão a sacola contendo os pertences da ahkraré e, por cima da madeira, as duas esteiras, de forma que a terra não caísse diretamente sobre o caixão. Enquanto os homens e a Pinxwyj atiravam terra tapando a cova, as duas meninas se adiantaram arrancando galhos de mato para apagar todos os rastros ali próximos do túmulo, pois segundo o marido da amiga formal “tem que apagar que é pra mekarõ não ver e seguir até a aldeia” (Figura 38).

Figura 38 – Enterro de uma ahkraré. Foto: Josinelma Rolande, 2012.

Além do cuidado para apagar os rastros no cemitério, os parentes mais próximos do morto cortam o cabelo bem no centro da cabeça, para o mekarõ não ir visitá-los. Os

Canelas também não fumam no cemitério, porque as almas gostam de fumo e, logo, virão atrás do fumante. As pessoas que tiveram algum contato com o cadáver devem ser purificadas através de banho de ervas, realizado em frente à casa do morto. Em seguida, varrem a casa e o terreiro.

Entre os Achuar, também é cortada uma mecha de cabelos da nuca dos parentes do morto, com o intuito de afastar o morto dos vivos. As pessoas que participam do enterro, nesse caso os parentes, devem ser purificadas com ervas, que são friccionadas por todo o corpo e logo em seguida mergulham no rio e cada qual lava suas próprias roupas, com o objetivo de se livrar da contaminação do cadáver (DESCOLA, 2006, p. 423 e 424).

Essas práticas de purificação são muito comuns também na sociedade ocidental, pois como havia citado no início desse capítulo, as pessoas da minha cidade (Pinheiro-MA) varrem suas casas logo que o morto é conduzido até o cemitério. Da mesma forma, quando retornam de algum enterro ou mesmo adentram o cemitério para fazer visita a algum defunto, imediatamente tomam banho e lavam suas respectivas roupas.

Entre os maori, a contaminação dos vivos pelo morto implica um período de isolamento, conforme descreveu Rodrigues:

Entre os maori, por exemplo, os que tocaram um morto ou participaram do seu enterro estão altamente poluídos. Qualquer contato com outras pessoas lhes está interditado. Estão proibidos de entrar em casa e de tocar qualquer objeto, sob pena de os tornarem impuros também. Nem mesmo tocam com as próprias mãos os seus alimentos. [...]. Ao fim desse período de isolamento, tudo que lhes serviu durante o perigo é sumariamente destruído e eles são purificados a fim de retornar à vida normal. (2006, p. 62 e 63)

Nessa situação liminar, na qual se encontram as pessoas que tocaram no morto, também entre os Canelas, estão os parentes enlutados, pois de acordo com Turner (2005, p. 139), “o sujeito submetido ao ritual de passagem fica, no decorrer do período liminar, estruturalmente, ou mesmo fisicamente, ‘invisível’”. Essa invisibilidade é notória entre os

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