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2 CONSTRUINDO CORPOS BONITOS E FORTES

2.1 Construindo o corpo social: pintando e fortalecendo

Em minha primeira ida a campo tudo que conhecia acerca da ornamentação corporal de povos indígenas no Maranhão eram os relatos de Francisco de Paula Ribeiro, que generalizando tal prática entre os povos com quem teve contato na Capitania do Maranhão, descreveu:

As nações setentrionais Iroqueses Hurões, Esquimaus e outras, apesar de todas as suas maneiras bárbaras, vestem por alguma forma os seus corpos, usando de camisas feitas das bexigas e intestinos de peixes, vestidos e sapatos de peles de animais: porém os selvagens da Capitania do Maranhão, ainda que menos ferozes do que

16 Povo de língua classificada no tronco linguístico macro Jê, localizado no Estado de Goiás.

17 Povo de língua classificada na família Tupi-Guarani, vivem no Tocantins.

aqueles na condição, vivem exatamente nus, tal e qual a natureza os produziu, usando por única compostura pintar seus corpos com tinta preta feita do suco de uma fruta que se chama jenipapo e com a tinta vermelha extraída da semente do urucu. Tiram de certa planta que chamam janaúba um leite pegajoso, com o qual vão lavrando em seus membros as figuras que lhes parece, e as quais cobrem depois com penas miúdas e pintadas de diversos pássaros que apanham; também são aplicadas aquelas tintas em grandes listas por todo o corpo de alto a baixo, ou em lavores diferentes, conforme o seu melhor gosto. Furam as orelhas e o beiço inferior, usando meter nesses furos grandes rodelas e batoques de pau, ou pontas de osso, segundo a divisa mais ou menos diferente de cada nação ou tribo, e assim mesmo alguns rapam grandes coroas na cabeça. Seus cabelos são compridos como três palmos, e caem-lhe soltos ou espalhados sobre as espáduas, peitos e semblantes; trazem-nos sempre bem untados com leite de coco de palmeira brava, e tinta de urucu, com o que deitam de si um cheiro péssimo: finalmente contemplar um destes bárbaros nos dias de sua diplomacia é preparar os olhos para ver um composto de feições o mais horrível que pode imaginar-se (PAULA RIBEIRO, 2002, p.164).

Acredito que este relato é um bom exemplo para reflexões sobre construção social da ornamentação corporal e uma excelente narrativa para uma discussão acerca da noção de nudez entre povos indígenas. Como “vivem exatamente nus”, se o próprio autor relata que estes povos, usam por única compostura pintar seus corpos? No contexto de muitos povos indígenas a pintura corporal se configura como uma segunda pele. Turner (1980 apud Vidal, 1992, p. 143) destaca essa segunda pele como uma “pele social”, que se sobrepõe à pele biológica. Essa segunda pele, conforme Vidal, “constituída de padrões estandardizados, exprime simbolicamente a “socialização” do corpo humano: a subordinação dos aspectos físicos da existência individual ao comportamento e aos valores sociais comuns”. Entre os Canelas essa ‘pele social’ é denominada ih kà, pois esta é a palavra utilizada para se referir a roupa, que literalmente quer dizer pele. Da mesma forma, referem-se aos panos utilizados pelas mulheres pelo termo pẽ kà, pele de “branco”.

Através da diversidade de ornamentos corporais, é possível dizer que os Canelas trocam de pele/vestimenta com frequência, manipulando o corpo a todo instante. Como bem destacou Van Velthen acerca dos Wayana19,

as amarrações dos membros, o tingimento e as incisões da pele representam as principais intervenções sociais que modificam a estrutura original do corpo humano, mudando seu estado de “nudez” para “vestido”, a pintura, o entalhe e a amarração

transformam o artefato de “inacabado” em “acabado” (1992, p. 60).

No processo de construção do corpo Canela, as primeiras ‘peles’ observadas por mim, foram padrões20 de pintura corporal, principalmente nos ahkraré21. Naquele momento

19 Povo de língua classificada na família Carib, localizado ao norte do Estado do Pará.

20 Utilizo a definição de Farias e Silva (1992, p. 115), ao descrever “‘motivo’ como o elemento mínimo e ‘padrão’ como combinação específica de motivos”.

pude colher informações que me permitiram identificar alguns frutos, descritos por Paula Ribeiro, que são fundamentais na construção dos traços e cores que permitem a expressão de formas simbólicas inscritas nos corpos Canelas.

O Jenipapo22 (pôrôru / pôl-ti) é um desses frutos. Para ser utilizado, é ralado ainda verde, sendo o sumo misturado com água, e depois levado ao fogo até obter uma coloração preta. O líquido é guardado em recipientes para ser utilizado quando for conveniente, sendo aplicado ao corpo com talas finas de folhas de palmeira, cuja ponta é enrolada com pedaço de tecido ou algodão. A pintura com jenipapo permanece no corpo por volta de duas semanas, mas é muito rara entre os Canelas, pois, segundo eles, há uma escassez desse fruto em suas terras.

Outro fruto é o urucu23 (pù), do qual utilizam a semente, após ser levada ao fogo com certa quantidade de água para fervura, o que propicia a formação de uma camada de corante que dela se desprende. Esse material, com aparência de uma nata, é retirado e, depois de frio, transforma-se em uma massa consistente. Assim, “na hora de pintar, primeiro é mastigado o coco de babaçu, para misturar o leite com a tinta do urucu para passar na pessoa” (Ivan Pal Catí, 2005). Os Canelas também costumam amassar a semente nas mãos e aplicar o corante no corpo com óleo do babaçu. Utilizam, ainda, o suco da raiz do urucu, obtendo uma coloração amarela, mas este pigmento é utilizado somente na finalização do rito Pepjê24.

Da janaúba25, que os Canelas denominam pau-de-leite, retiram uma resina (aràm

hôk) que será aplicada no corpo com talas ou com as próprias mãos, fazendo formas que serão destacadas após fixarem o carvão vegetal, obtendo uma coloração preta. A pintura de pau-de- leite, como os Canelas a chamam, é, de acordo com Abilim Tààmi e conforme pude observar, a pintura mais utilizada na aldeia.

De acordo com Crocker, os Canelas usavam uma espécie de cal branca, difícil de ser obtida, a qual era utilizada no ritual do Gafanhoto26. No entanto, desde o movimento messiânico de 1963, tornou-se cada vez mais difícil para os Canelas conseguir a cal da sua

21 Este termo, de acordo com o Canela Jôjô, significa menino, podendo ser utilizado também para referir-se às

crianças de ambos os sexos.

22 Genipa americana.

23 Bixa orellana. 24 Ver capítulo 2.

25 Himatanthus drástica plumel.

26 Cerimônia que ocorre no mês de fevereiro, comparada pelos Canelas como o carnaval. Nessa festa um grupo

formado por herança, chamado os Gafanhotos, sai de casa em direção ao pátio ao encontro de um cantador. Este rito ocorre à noite, cujo objetivo é proporcionar o crescimento das plantas nas roças. (CROCKER, 2013).

fonte tradicional nas Alpercatas, distantes colinas ao sul do sítio da família Arruda27. Atualmente substituem a cal pelo branco do pau-de-leite. (1990, p.142).

Com o auxílio de uma agulha ou outro objeto com ponta de aço, fazem tatuagens, introduzindo na pele o pigmento do jenipapo, o que a torna permanente. Foi possível observar tatuagens principalmente nas faces das mulheres, onde sua composição consiste no desenho de pequenas linhas paralelas abaixo dos olhos, denominado de mécupry kuc hôc28 (Figura 2).

Figura 2 – Mécupry kuc hôc (pintura do rosto da moça). Foto: Josinelma Rolande, 2012.

Uma questão que me coloquei, inicialmente, foi quem estaria autorizado a pintar. Logo identifiquei que a pintura entre os Canelas é, prioritariamente, uma atividade feminina29, cabendo às mulheres pintar seus maridos e apenas os filhos solteiros, pois segundo José Pires

Cahhàl, uma mãe não pode tocar no corpo do filho depois que este se casa. Tal atitude é considerada vergonhosa para mãe e filho, cabendo à esposa pintar o próprio marido. Antes do período menstrual das meninas, também lhes é permitido pintar os rapazes, contribuindo dessa forma na construção do corpo deles, para que se tornem, por exemplo, bons corredores

27 Darcy Ribeiro descrevendo o conflito entre os timbira e os criadores de gado, cita Froes de Abreu (1931) ao

relatar um massacre aos Canelas, efetuado pela família Arruda (Cf. 1979, p.64).

28 Esse motivo, traduzido como “pintura do rosto da moça” é feito nas moças, mas nestas constitui-se enquanto

pintura e não tatuagem.

29 Em determinadas ocasiões cerimoniais, como no rito Pepjê, o tio materno de cada recluso é o responsável por

pintar o seu corpo. Nessas ocasiões, é auxiliado por uma mulher. Nesses casos, a pintura está instituindo o pertencimento do recluso ao grupo ou metade da qual o seu tio materno é membro.

de tora ou bons caçadores. No processo de construção do corpo Canela, o sangue menstrual (caprô) é considerado poluente, pois de acordo com Oliveira (2008, p. 69 e 70),

As mulheres e seus filhos não podem se aproximar de outras mulheres menstruadas, pois o sangue (caprô) da menstruação pode poluir e enfraquecer o corpo da criança pequena. O homem pode ser poluído pelo sangue da mulher tanto pela relação sexual como por qualquer tipo de contato, por menor que seja.

Além do caprô, sangue feminino, os Canelas classificam, também, o karõ, “o sangue bom, positivo, não poluente, que constrói o corpo do filho” (PANET, 2010, p. 79). Os homens possuem apenas o karõ, enquanto as mulheres são constituídas de caprô e karõ.

Belaunde afirma que:

entre uma diversidade de grupos culturais, o sangue é concebido como um fluido que corporifica e atribui gênero às pessoas, ao pensamento e à força, transportando conhecimento a todas as partes do corpo. O sangue opera tanto dentro do corpo de uma pessoa quanto fora dele (BELAUNDE, 2006, p. 207 apud PANET, 2010, p. 109).

Entre os Canelas, o sangue menstrual opera como fluido maléfico, pois uma mulher menstruada ao tocar o corpo de um mentuwa (rapaz) causa o seu enfraquecimento. Portanto, no processo de fabricação desse corpo, que é também a construção de um corpo

forte30, geralmente um mentuwa é pintado por sua “avó”. Outra forma de prevenção contra o caprô, conforme Oliveira (2008, p. 72), é a utilização da casca de uma planta, Hõr Curàhti ka, que é queimada até transformar-se em carvão e, então, passada pelo corpo com o objetivo de impedir a entrada do líquido poluente.

Durante o trabalho de campo, identifiquei que os ahkraré (meninos pequenos) e as mekupryré (meninas pequenas) – aqueles que ainda não se tornaram mentuwa (rapaz) e

mekupry (moça) – têm o corpo pintado com maior frequência. Foi a partir da observação dessas pinturas que questionei o significado da pintura corporal Canela. E, nessa busca por significados, tudo que consegui foi colecionar algumas falas onde “ficar bonito” é posto em destaque:

30 “A elaboração da corporeidade entre os Ramkokamekra é realizada por meio de duas categorias. A primeira

diz respeito ao cuidado e à precaução em manter o corpo fortificado e livre de substâncias poluentes,

entendida pela expressão êmica – corpo forte. A segunda é quando este corpo já está enfermo e debilitado,

seja pelo descumprimento de um resguardo, seja por descuido de comportamento, o que pode vir a acarretar a entrada de substâncias poluentes no corpo, é o que eles denominam de um corpo fraco” (OLIVEIRA, 2008, p. 19).

Pinta pra ficar bonito (José Pires Cahhàl, 2005).

Pra cantar pinta, pinta pra ficar bonito, não vai ficar feio pra cantar (Francisquinho Tep Hot, 2005).

Em uma das visitas à aldeia, pedi para tirar a foto de uma mekupryré. Rapidamente sua mãe pediu para esperar, dizendo: “deixa arrumar menino pra ficar bonito”. Depois de alguns instantes, a menina saiu de dentro da casa, ostentando ao longo do corpo o desenho composto de linhas paralelas, elaboradas com urucu. E, logo em seguida ouvi o ket-

(avô) da menina falar:

A pintura nas crianças é pra poder crescer mais depressa, é porque diz que cheiro de urucu aumenta. Uma pessoa que trata bem do filho, da família, é assim mesmo, tem que pintar pra não pegar doença (2005).

Nimuendajú, também observou que os ahkraré são os mais pintados de preto no corpo inteiro, com o objetivo de favorecer o crescimento (1944, p. 60). Dessa forma, ao pensar que a pintura acelera o crescimento e protege os ahkraré de doenças, concluo que é pintando o filho, quase que diariamente, que a mãe vai fabricando um corpo saudável. Assim, também, observou Demarchi (2009, p. 2), acerca de tal prática entre os Kayapó: “o corpo é uma matéria trabalhada ao extremo pelos Kayapó, do nascimento à morte, como um processo de humanização, embelezamento e endurecimento”.

Na construção do corpo Canela, a pintura é fundamental, especialmente, quando ainda são ahkraré e mekupryré, quando normalmente é executada de forma rápida, porém obedecendo aos padrões de pintura que lhes competem. A rapidez na execução dessas pinturas não diminui sua eficácia.

Lagrou (2007, p. 51) destaca como no rito de passagem kaxinawa, as pinturas nos

ahkraré, realizadas com pouca precisão, agem com mais eficácia sobre seus corpos. Ressalta, ainda, o corpo kaxinawa como resultado de uma modelagem e fabricação coletiva, sendo tal processo uma preocupação dos parentes próximos.

Observei em campo, que quando alguns ahkraré chegavam doentes na enfermaria, acompanhados de suas mães, as auxiliares de enfermagem31 não hesitavam em chamar a atenção da mãe, se o ahkraré não estivesse pintado, por considerar uma expressão de falta de cuidado: “vocês nem pintam mais as crianças!”. Nimuendajú também descreveu como os próprios Canelas criticavam as parentas femininas de um homem que ficava sem pintura

durante muito tempo: “a irmã de fulano, ouve-se então, não se importa nem um pouco com o irmão! Vejam só! Elle não tem nenhum urucu no corpo!” (1944, p. 59).

Consigo perceber, então, a pintura como algo que deixa os Canelas bonitos protegendo-os contra doenças. Mas como articular esses significados em uma cabeça que construiu, etnocentricamente, noções de simetria, equilíbrio, harmonia, enfim, formas visuais agradáveis, que constituiriam o belo? Como entender que os Canelas ao falarem em ficar bonito não estavam compartilhando minhas concepções de equilíbrio e harmonia, enfim, de beleza? Contudo, entre os Canelas era preciso compreender o “ficar bonito” não em termos visuais, mas a partir do significado associado a construção do bem estar, conforme destacarei a seguir.

2.1.2 O bonito que faz bem

[...] a ‘beleza’, a busca de um sentido de harmonia, uma ordem que pudesse ser compreendida, encontra-se entre os anseios mais profundos do ser humano (OSTROWER, 1983, p. 301).

O sentido de beleza é uma construção cultural – como descreveu Geertz. Logo, quando Paula Ribeiro se refere aos povos indígenas como os mais horríveis possíveis de se imaginar e, ressalta que as pinturas são utilizadas conforme o gosto de cada um, têm-se duas impressões diferentes diante da mesma imagem: a dos índios que consideram tais pinturas bonitas e as de Paula Ribeiro, que as define como uma prática horrível. Estas impressões são fruto das experiências coletivas que possibilitam a construção de diferentes noções de beleza em diferentes sociedades.

Entre os Canelas, utiliza-se o termo impej para falar de algo positivo, podendo ser traduzido como estar tudo bem / estar bonito32. Portanto, quando me dizem que pintam para ficar bonitos, entendo que a pintura corporal ajuda a manter a ordem / o bem estar, principalmente, quando padrões de pintura são utilizados de acordo com a classe de idade e o sexo de cada indivíduo.

Essa especificidade na utilização de padrões de pintura foi registrada por Dieckert e Menhringer (1989, p. 15), que em suas estadias entre os Canelas, registraram um número significativo de padrões relacionados à corrida de tora, onde dezoito padrões eram relacionados aos homens e quarenta e nove pinturas às mulheres:

32 No livro de Grupp, são apontados ouros significados para o termo impej, que os canelas associam a coisas

Entre as 86 diferentes pinturas corporais, que puderam ser colecionadas em forma de pintura em papel pelos próprios índios e que, parcialmente podem ser comprovadas através de fotografias, se encontram 67 pinturas corporais (18 para homens / 49 para mulheres), que podem ser usadas especialmente para as corridas de tora. O interessante, nesse caso, é que cada nome de pintura frequentemente é originaria do

mundo animal ou vegetal (por exemplo: Mambia – espécie de macaco; Jatobá -

árvore).

Ao longo da minha vivência com os Canelas, o número de padrões de pintura observados foi de, aproximadamente, vinte. Porém, nesse número pequeno – se comparado aos 86 coletados por Dieckert e Menhringer (1989) – foi possível perceber a existência de padrões específicos para diferentes classes de idade. José Pires Cahhàl alertou-me sobre a adequação de determinados adornos às faixas de idade. Ao observar um rapaz pintado, afirmou que aquele adorno não lhe era adequado, pois ainda era muito novo, e aquela pintura aplicava-se a pessoas mais velhas, bons corredores e guerreiros. Acrescentou que, para ter a permissão de utilizar uma determinada pintura seria necessário passar pelos rituais Ketuwajê e

Pepjê, pois durante esses rituais são construídos os corpos de corredor, guerreiro, trabalhador, pajé, caçador.

Foi durante as cerimônias de finalização dos rituais Ketuwajê (2005) e Pepjê (2012) que presenciei uma variedade de corpos pintados com diferentes tipos de padrões. No entanto, os meninos reclusos no rito Ketuwajê33 tinham em seus corpos apenas os desenhos de linhas. Os garotos pertencentes à metade sazonal Kamakrá são pintados com linhas verticais e os reclusos da metade Ahtykamakrá são pintados com linhas horizontais. Esses traços, feitos com urucu, funcionavam apenas como um símbolo para distinguir as metades sazonais. No

Pepjê, também, os reclusos foram pintados com esses traços, pois em ambos os ritos os meninos seguem restrições até mesmo em relação à ornamentação de seus respectivos corpos34.

Com exceção dos meninos reclusos no ketuwajê e pepjê, quase todos estavam pintados para aqueles dias de festa. Observei, durante o ritual, cinco padrões utilizados pelos adultos corredores de tora: capêr pàr hôc (pintura atravessada / pintura de bacaba), ih hôc

xwahhi (pintura de cipó escada de jabuti), mehkàpi hôc (pintura do homem adulto), tep hôc (pintura do peixe) e rohti xwahnã hôc (pintura de dente de sucuri); dois padrões para as moças: mekupry hôc (pintura de moça) e tê-rê hôc (pintura do carrapato – Figura 3); uma pintura para as mulheres que têm um ou dois filhos: mehkrahtetet pi hôc (pintura da mãe do

33 Observado nos dias dezoito e dezenove de junho de dois mil e cinco.

34 No Ketuwajê e Pepjê existe o momento exato em que os reclusos devem ser ornamentados e como e por quem

bebê – Figura 4) e duas para os ahkraré: ronhàc krã kà (casca da macaúba) e me hôc pó (pintura mais larga).

Figura 3 – Tê-rê hôc Figura 4 – Mẽhkrahtetet pi hôc

(pintura do carrapato) (pintura da mãe do bebê)

Desenho35: João Carlos Pimentel, 2005. Desenho: João Carlos Pimentel, 2005.

Pessoas que estão de resguardo, seja por conta de doença, ou mulheres paridas, bem como seus respectivos maridos, são pintadas com pequenos traços semelhantes às pintas de onças, pois aqueles traços passados ligeiramente com os dedos indicam que estes não podem receber uma pintura mais elaborada.

Além dos padrões citados, existem outras pinturas que podem ser utilizadas por todos. Mas vale ressaltar que mesmo quando alguns falam das especificidades na utilização de determinados padrões, atualmente é difícil perceber tais diferenças. O contraste maior ocorre entre as pessoas que não tem filhos e aqueles que já os possuem, pois assim respondeu Tep

Hot ao ser questionado acerca de tais diferenças:

Tem outras pinturas das mulheres já de idade, que já tem família. Não se pinta bem

não, se pinta só mesmo passada listrada. Essa pintura chamada Mẽhkrahtãxwa hôc,

porque é mulher que já tem família não pinta bem bonita, se pinta só como listrada. É mesma coisa do branco, porque o branco fica já meio velho não usa mais aquelas roupas bem bonitas. Ele usa aqueles roupas... É a mesma coisa. Não bota cocar bonito na cabeça.

Essa comparação que fez Tep Hot das diferenças entre a vestimenta dos “brancos” e dos indígenas, variando de acordo com a faixa etária, é uma demonstração clara de que estar

pintado para os Canelas é estar protegido. No entanto, tais pinturas obedecem a critérios de uso, inclusive as pinturas de rosto. Como já havia citado anteriormente, a pintura denominada

mécupry kuc hôc (pintura do rosto da moça) só pode ser utilizada pelas mulheres que não têm filhos, conforme Tep Hot, “velho não usa essa pintura no rosto”. Acerca da pintura no rosto, assim descreveu Nimuendajú: “riscos vermelhos verticais sobre testa, nariz, boca e queixo ou sobre testa, olhos e faces, como também riscos horizontais nos cantos dos olhos e da boca são a pintura comum do rosto” (1944, p. 59). Além desses traços, existem pinturas de rosto

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