2.2 Moda na sociedade moderna
2.2.2 Como o vestir reflete a identidade do indivíduo
Como vimos, a moda participa de uma interação mútua com a sociedade, no que diz respeito à construção da identidade do indivíduo não é diferente. A moda desempenha um papel que vai além do simples ato de vestir, ela é elemento essencial na construção e formação da personalidade do sujeito.
Com base nas análises sócio históricas descritas anteriormente, percebe-se que a moda desde seu nascimento atuou como dispositivo de diferenciação e classificação dos indivíduos perante a sociedade. De acordo com Pontes (2014), a moda faz parte de um jogo social no qual opera como representação de identidade. “Desta forma, as roupas e os acessórios, bem como todo o aparato na forma de usá-los adquirem o valor de símbolos, através dos quais o sujeito se representa.” (PONTES, 2014, p. 9). Portanto a moda, ou o ato de vestir, tem aptidão para designar dados que compõem a personalidade e identidade do indivíduo.
A moda constitui um espelho das sociedades nas quais ela existe. Seja como fenômeno cultural, seja como negócio altamente complexo, reflete as atitudes sociais, econômicas e políticas de seu tempo. [...] a moda esta integrada a construção e a comunicação de identidades sociais, ajudando a delinear a classe, a sexualidade, a idade e a etnia de quem a usa, além de expressar as preferências culturais individuais. (MACKENZIE, 2011, p.6)
Parafraseando Mackenzie (2011), existe uma intimidade entre moda e sociedade e a atuação destes dois elementos como influenciadores e formadores da identidade dos
indivíduos, isso possibilita a eles distinguir-se no meio coletivo de acordo com determinadas características em relação as suas escolhas do vestir, que compõe sua significação com base em dados externos como os culturais, sociais, de tempo e espaço, bem como suas características intrínsecas como idade e etnia, todos esses dados passam a influenciar a construção de personalidade.
O ato de vestir compõe um tipo de linguagem, uma forma de comunicação, e por isso, segundo Erner (2015) faz parte de estudos semióticos que procuram entender a significação da moda como processo comunicacional.
Consciente ou inconscientemente, todo ser humano, emprega diferentes signos para sua comunicação. Esta situação é, segundo Erner (2015), resultado dos processos culturais que configuram a sociedade, isto posto, cabe lembrar, ainda de acordo com Erner (2015), que signos culturais são signos mutáveis, modificam a linguagem e seu significado ao longo do tempo de acordo com as gerações, bem como, dentro de um mesmo grupo de pessoas independente do referencial geracional.
A moda configura um significativo signo de comunicação, uma linguagem não verbal, apresenta-se como parte da identidade do indivíduo, que por sua vez, torna-se representante de si ao constituir seu estilo.
Sob o ponto de vista da produção de moda, esta comunicação se da através do “manuseio de signos por parte do proponente, o designer, que devem ser inteligíveis para o receptor, o consumidor, a fim de ser efetivada” (HORTA, 2017, p.54).
Percebe-se assim, a importância do vestir na identidade do indivíduo e a necessária sensibilidade do designer para desenvolver sua criação de forma que esta possa ser semelhança e reflexo de distintas identidades, o que leva a questão da unicidade, da relevância da individualidade e ao mesmo tempo senso comum entre os sujeitos pertencentes a uma sociedade, isso porque o próprio designer, como pessoa, transmite através de sua criação sua identidade, resultado dos próprios referenciais e repertório que por sua vez são constituídos a partir do contexto em que vive sob as influências culturais presentes em seu tempo e local (HORTA, 2017).
Outro ponto a ser observado é a tendência, que, segundo Erner (2015), simboliza a convergência do gosto coletivo, a tendência é capaz de fazer indivíduos de identidades completamente diferentes se verem interessados nos mesmos objetos, ainda que façam usos distintos do mesmo.
As tendências podem, num primeiro momento, designar um fenômeno frívolo e comercial, mas sob uma análise mais profunda revela compor uma questão substancial no que tange a representatividade da moda sobre a identidade do indivíduo, como questiona Erner (2015), será que somos de fato livres para agir ou será o compromisso social que nos leva a tomar determinadas decisões?
Para entender este fenômeno do ponto de vista prático basta observar o comportamento humano, como descreve Pontes (2014, p. 3) “o mesmo sujeito que se veste de terno e gravata exercendo total formalidade em seu trabalho, é o sujeito que se dedica a esportes radicais, que frequenta a cena underground e faz uso de drogas ilícitas. A garota que frequenta forró hoje, amanhã passa a se vestir de preto e somente a escutar rock. Essa multiplicidade de escolhas e possibilidades de ser do sujeito é algo totalmente contemporâneo”.
Sob esta mesma visão, cabe um comparativo entre o comportamento do sujeito social dos séculos passados e o sujeito social contemporâneo. Lipovetsky (2009) descreve o comportamento do sujeito social da Idade Média baseado em um pensamento tradicionalista, “durante a mais longa parte da história da humanidade [...] a valorização da continuidade social impôs em toda a parte a regra da imobilidade, a repetição dos modelos do passado” (LIPOVETSKY, 2009, p.27). Em contraponto, o sujeito social contemporâneo é tido como soberano, passível de mudanças em busca do novo, o que afeta sua identidade, portanto, antes a identidade era ditada pela sociedade e designava o papel social do sujeito, hoje, o sujeito tem autonomia para construir-se dentro da sociedade (PONTES, 2014).
O difícil não é nos encontrarmos, mas nos inventarmos afirma Foucault (1926- 1984), relatando que o indivíduo, como atuante da sociedade, encontra-se em um estado de interminável autoconstrução de imagem e identidade, no alcançar de uma espécie “ideal”. (FOUCAULT apud OLIVEIRA, 2013, p. 29)
Oliveira (2013) fala sobre a moda como atuante em um processo de elaboração progressiva da identidade, ou seja, a identidade não é algo estático, a sociedade não mais dita a identidade do individuo, é ele que de acordo com suas experiências e interpretações dos elementos presentes em sua vivencia social, que define as escolhas que compõe sua personalidade, o que pode ocorrer consciente ou inconscientemente, sem necessariamente alcançar uma estabilidade, pois a metamorfose, seja qual for, faz parte da essência humana, “O sujeito vai criar laços com a sociedade em que vive pela semelhança com este ou aquele grupo. Suas relações sociais exercem influência fundamental na mente individual. São os
grupos que o indivíduo participa que o localizam enquanto sujeito.” (PONTES, 2014, p. 4). A formação da identidade do indivíduo ocorre na contemporaneidade de uma forma mais livre e fluida, a moda representa o indivíduo e em muitos casos pode apresentar também um caráter liberatório.
Bernard (2002) lembra a existência de inúmeras situações em que a moda serve para o indivíduo como forma de representar aquilo que aspira ser. Pessoas se vestem para parecer o que elas querem ser, não necessariamente o que elas verdadeira ou superficialmente são, pessoas podem desejar ser diferentes do que a sociedade as rotula ser e acabam encontrando na moda a possibilidade de representatividade do seu ser.
Neste mesmo contexto, Duque (2013) procura expor as diferentes formas de comunicação envolvidas no que chama de ato de passar por, que apresenta como principal forma de representação o vestir do indivíduo, que reflete a identidade e influencia o comportamento, “a experiência de passar por homem e/ou passar por mulher como performances contemporâneas de feminilidades e masculinidades revelam normas e convenções constitutivas de um regime de visibilidade/conhecimento” (DUQUE, 2013, p. 11).
O estudo de Duque (2013) é desenvolvido na sociedade contemporânea, onde a diversidade de gêneros e liberdade de expressão já compõe um fenômeno tangível. Na busca da representação de identidade a moda muda de acordo com o período em que se insere. “Cada época histórica tem suas crenças e valores, tem seu referencial distinto.” (PONTES, 2014, p. 12).
O foco de Duque (2013) é a auto identificação dos indivíduos, as percepções de si. O autor levanta em seu estudo a característica da passabilidade do corpo, a construção de uma imagem para passar por algo que se deseja ser, fazendo uso do vestir como forma de expressão desta situação.
A moda, enquanto uma representação de um modelo a ser seguido, oferecendo-se à identificação dos grupos, se liga a outros assuntos a fim de construir significações, ou fazer uso delas, já que as significações já estão dadas antes dos sujeitos. Assim, os símbolos da moda transmitem mais do que a roupa em questão, exibindo-se como um modelo referencial de uma época, modelo de valores que se oferecem à identificação como modelo ideal de estilo de vida. (PONTES, 2014, p. 11)
“A identidade torna-se uma celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2006, p.13). Segundo a linha de pensamento de Hall (2006), tendo
a moda como dispositivo social essencial para a vida coletiva, se esta for usada no seu melhor intuito de configurar uma sociedade igualitária e livre para todos, torna-se possível tocar a todos os indivíduos de uma forma genuína e natural, levando-os a incorporar em sua personalidade o entendimento da diversidade e a convivência gentil com ela.