2 6 HIBRIDISMO OU BLENDED LEARNING
3 COMO E ONDE APRENDEMOS: ANÁLISE DE CURSOS ON LINE DA GRADUAÇÃO
A capacidade de aprender é inerente aos seres humanos e o processo se dá ao longo de nossas vidas em diversas situações, sejam elas formais ou informais. Aprendizagem é um processo dinâmico intrínseco ao aprendente, incontrolável, exceto pelo processo mental, ou seja, concretizado pelo desenvolvimento cognitivo. Tão importante como compreender melhor a forma como as pessoas aprendem, também o é compreender onde a aprendizagem acontece. Para FREIRE (1987, p. 39): “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” . Pode-se deduzir que a condição de mediação que o mundo há de exercer na ação educativa compartilhada entre pessoas na aprendizagem a situa para além dos muros das escolas, que embora possa ocorrer em local e horário definido não se encerra e se limita a estes espaços.
Ao falarmos em espaços, referimo-nos ao locus onde a aprendizagem ocorre, que compreendemos tratar-se do espaço do saber que, segundo Lévy,:
(...) o Espaço do saber não existe. É, no sentido etimológico, uma utopia, um não lugar. Não se realiza em parte alguma. Mas se não se realiza já é virtual, na expectativa de nascer. Ou melhor, já está presente, mas dissimulado, disperso, travestido, mesclado, produzindo rizomas aqui e ali. (LÉVY, 2011, p. 122)
Trata-se de um espaço não físico encerrado por paredes, mas de local onde as relações estabelecidas entre as pessoas e o mundo, o proporcionam e dinamizam.
Freire (1987) ao se referir ao homem como inacabado e sua condição de relacionar- se com o mundo, que é inventado e reinventado sucessivas vezes, à medida que o homem busca compreendê-lo do ponto de vista da interação e de vivências ou do vivenciar, destaca que é na comunhão que as pessoas aprendem, em uma ação coletiva entre as pessoas envolvidas em processos de aprendizagem. Ainda segundo FREIRE (1987, p. 46): “(...) há homens que, em comunhão, buscam saber mais”.
88 Neste sentido, observamos a dimensão coletiva e nômade da aprendizagem assim como Lévy ao apresentar o coletivo inteligente no espaço de saber:
O coletivo inteligente não é mais o sujeito fechado, cíclico da Terra, reunido pelos laços do sangue ou da transmissão de relatos. É um sujeito aberto a outros membros, a outros coletivos, a novos aprendizados, que continuamente se compõe e decompõe, “nomadiza” no espaço do saber. (LÉVY, 2011 p. 183)
A dimensão coletiva presente na educação, desde que voltada ao aprendizado que tenha como protagonistas ou agentes criadores e transformadores de conhecimentos, professores e alunos capazes de fomentar a inteligência coletiva, nos apresentam a dimensão que transcende o espaço físico como locus de aprendizagem manifesta em sua virtualidade (LÉVY, ibidem).
O espaço do saber e sua virtualidade demonstram a importância de compreender os espaços destinados ao aprendizado, do ponto de vista semântico, indo além da constituição física de ambientes como as salas de aula. Tendo em vista que estes devem estar abertos e não circunscritos e delineados a contextos pré-definidos, pois segundo Lévy:
O saber-fluxo, o trabalho de conhecimento, as novas tecnologias da inteligência individual e coletiva mudam profundamente os dados do problema da educação e da formação. O que é preciso aprender não pode mais ser planejado nem precisamente definido com antecedência. Os percursos e perfis de competências são todos singulares e podem cada vez menos ser canalizados em programas ou cursos válidos a todos.
(LÉVY, 2011, p. 160)
Como apresentado na introdução dessa tese, tendo em vista os desafios da modalidade a distância e as questões apresentadas, esta pesquisa tem como objeto de estudo a identificação e análise proposta pedagógica que norteia a estruturação e condução do curso desenvolvido para a modalidade a distância.
Para isso, foram elencados dois cursos de graduação ofertados na modalidade a distância para análise, um deles pertencente à Instituição particular de ensino, e outro, a uma
89 Instituição pública, aqui denominadas de UNI Y e UNI Z. Essa análise será realizada sob a luz da Legislação vigente, dos Referenciais de Qualidade do MEC, e, principalmente, das propostas pedagógicas que os fundamentam. Serão levantados os objetos de aprendizagem, ferramentas digitais utilizadas, e a identificação do ambiente virtual de aprendizagem AVA, e suas possibilidades quanto à formação de redes colaborativas de aprendizagem e interatividade.
O objetivo é identificar e analisar duas diferentes experiências acadêmicas, frente às propostas pedagógicas e recursos digitais utilizados, a fim de identificar o em que contexto da trajetória da EaD estes pertencem, bem como traçar o cenário atual e futuro da modalidade no Brasil, à luz da legislação, indicadores do INEP, MEC, ABED e dados coletados.
3.1 CARACTERIZAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES UNI Y E UNI Z
A escolha das IES, bem como do curso e disciplina que seriam analisadas, foi um processo conturbado, pois houve dificuldade em conseguir autorização para acesso ao plano de curso, à plataforma, ao conteúdo digital, mesmo tendo sido acordado desde o início, que as IES ficariam no anonimato. Ultrapassado os primeiros obstáculos, que demandaram muita energia e argumentação, junto ao corpo gestor das instituições, a caracterização destas foi mais um desafio, pois seria preciso caracterizá-las sem fornecer dados que favorecessem sua identificação. Por essa razão, alguns detalhes serão omitidos.
As siglas: UNI Y e UNI Z, foram escolhidas a partir da classificação sócio-digital, elaborada pelo pesquisador canadense Tapscott (2008), que subdividiu os usuários da web em quatro gerações: “ baby boomer, geração X, geração Y e geração Z.” Apenas para contextualizar, cada geração digital representa um período de 10 anos e, de modo bastante reducionista, numa associação aos conceitos de Presky, a “geração Z” representa os “nativos digitais”, que encaram a tecnologia de modo natural e essencial para o viver; as demais representam os “imigrantes digitais”, aqueles que estão cada vez mais se adaptando a esse contexto tecnológico, e passaram a incorporar e a descobrir esse aparato. Portanto, UNI Y e UNI Z fazem alusão às duas últimas gerações digitais de Tapscott.
90 A UNI Y e a UNI Z são Instituições de Ensino Superior de grande porte, localizadas no Estado de São Paulo, que ofertam cursos de graduação nas modalidades presencial e a distância. Ambas são reconhecidas e respeitadas no mercado educacional, no entanto o tempo de funcionamento e o número de alunos diferem muito.
A IES, denominada nesta pesquisa como UNI Y, é uma Instituição privada, que atua no mercado há mais de 70 anos, possui por volta de 20.000 estudantes, oferece 25 cursos de graduação, e está instalada, além da sede, em 75 polos de apoio presencial. Foi uma das pioneiras no credenciamento para a modalidade a distância, e está em franca expansão, quanto a abertura de novos cursos e polos, de acordo com seu Plano de Desenvolvimento Institucional – PDI.
Já a UNI Z é uma Instituição pública, em funcionamento há mais de 40 anos, que oferece mais de 50 cursos de graduação, possui cerca de 70.000 alunos, distribuídos em 45 polos. No entanto, seu ingresso na modalidade EaD ocorreu apenas nos últimos cinco anos, e ao contrário da UNI Y, está reduzindo a oferta de cursos e vagas na Educação a Distância.
De acordo com os dados coletados do INEP de 2011 a 2015, estes apontam que na IES aqui denominada UNI Y, o número de matriculados na modalidade a distância já ultrapassou o presencial, e as taxas de concluintes supera a concorrência, embora ainda sejam baixas se comparadas ao contexto mundial.
91 Figura 13: Dados do INEP – concluintes e matriculados
Quanto ao índice de concluintes, de acordo com os dados do INEP, a UNI Y possui 25,8% do número de matrículas realizadas; enquanto à Instituição púbica aqui estudada, denominada de UNI Z|, possui o número de concluintes em torno de 13,5%, ou seja, também está um pouco acima dos indicadores das Estaduais que apontam para 12,6% . Sobre o número de matriculados na modalidade EaD na UNI Z, este ainda é modesto, visto que a Instituição solicitou o credenciamento na modalidade recentemente, e, diante da decisão de diminuição da oferta de vagas, os indicadores certamente cairão.