4.3 Como professores e formadores respondem às reclamações 65
4.3.5 Comparando classificações e resultados 90
Nesta seção, as classificações das respostas e seus respectivos resultados são comparadas às classificações e resultados apresentados por Boxer (1993a) em seu trabalho. As diferenças entre as classificações são apresentadas e justificadas. Busca-
se ainda evidenciar e justificar as diferenças encontradas nos resultados das duas pesquisas. As classificações propostas por Boxer (1993a) serão aqui brevemente retomadas apenas para possibilitar as comparações, já que o trabalho dessa autora é descrito em maiores detalhes no capítulo de fundamentação teórica.
É importante explicitar que uma comparação estrita com do trabalho de Boxer (1993a) nunca foi intencionada, dadas as diferenças entre os contextos de coleta e em função dos próprios objetivos da presente pesquisa. Contudo, a comparação de alguns traços das classificações e de seus resultados é interessante, já que pode evidenciar características específicas do contexto aqui estudado.
Em sua pesquisa, Boxer (1993a) classificou as respostas coletadas entre 6 categorias ou grupos, a saber: 1) nenhuma ou mudança de assunto; 2) pergunta; 3) contradição; 4) piada/ provocação; 5) conselho/ lição e 6) comiseração. A classificação de Boxer, embora tenha inspirado a classificação utilizada no presente trabalho, não foi aqui integralmente adotada. Tal escolha foi feita no intuito de representar da maneira mais fidedigna possível o padrão das interações coletadas e de evidenciar os traços mais representativos dessas interações. Sendo assim, optou-se por elaborar uma classificação própria, guiada prioritariamente pela análise dos dados. Dessa forma, como visto na seção anterior, a classificação utilizada dividiu as respostas nos seguintes grupos: 1) discordância; 2) redirecionamento/ interrupção; 3) neutra; 4) sugestão/ conselho; 5) pedido de elaboração e 6) solidarização.
Como pode ser observado, as categorias foram nomeadas de forma bastante semelhante nas duas pesquisas. As características das respostas associadas a cada uma dessas categorias também se assemelham, e os traços comuns considerados interessantes foram identificados e explicitados nas análises já apresentadas. Contudo, as classificações guardam algumas diferenças que serão apresentadas a seguir.
Na pesquisa de Boxer (1993a), a classe 'nenhuma ou mudança de tópico' agrupa respostas que tinham por função terminar ou minimizar uma troca de reclamações. Essa classe se assemelha em termos de suas funções à classe aqui denominada 'interrupção'. Contudo, as descrições dos tipos de ocorrência incluídos nas duas classificações não são completamente semelhantes. A classificação de Boxer inclui, nessa categoria, respostas marcadas pelo uso repetido de expressões como "uhum, ahã, sei", uma vez que a autora considera o emprego desse tipo de resposta uma estratégia para desencorajar quem reclama a continuar. Na presente pesquisa, essas respostas foram incluídas em uma categoria à parte (neutra) ou dentre as
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solidarizações, já que não foram observadas situações nas quais uma resposta desse tipo tivesse como efeito o fim de uma sequência de reclamações.
A classe nomeada por Boxer (1993a) como 'pergunta' inclui respostas denominadas pela autora de 'perguntas desafio', através das quais o ouvinte questiona a validade de uma reclamação escutada. Esse tipo de resposta foi tratado na presente pesquisa como uma 'discordância'. As demais respostas incluídas por Boxer nessa categoria, se assemelham às respostas que aqui denominamos 'pedidos de elaboração'. No entanto, para Boxer, esse tipo de resposta serviria como forma do ouvinte demonstrar interesse no falante ao estimulá-lo a formular uma reclamação mais elaborada, o que daria ao falante uma maior oportunidade de expressar seus sentimentos ou desabafar. Já nos contextos aqui analisados, a intenção da formadora ao responder às reclamações com pedidos de elaboração não parece ser a de dar ao falante maior oportunidade de se expressar. Pelas perguntas feitas, fica a impressão de que a formadora visa fazer com que os professores reflitam sobre os procedimentos adotados em sala.
A categoria 'piada/ provocação', utilizada pela pesquisadora para agrupar algumas das respostas coletadas, não foi empregada na presente pesquisa. Apesar de algumas respostas, especificamente algumas respostas coletadas durante a aula de metodologia, terem traços de humor, essas respostas foram consideradas como tendo mais traços pertencentes a outra categoria.
A categoria denominada por Boxer como 'conselho/ lição' é caracterizada de maneira bastante semelhante à categoria aqui denominada de 'sugestão/ conselho'. Contudo, a ocorrência predominante de respostas que vinculam sugestões (inclusive várias sugestões de procedimentos, como visto) parece ser mais característica do contexto de coleta da presente pesquisa, fato que influenciou a escolha do nome da classe.
Por fim, a categoria nomeada por Boxer como 'comiseração' agrupou ocorrências bastante similares às classificadas como 'solidarizações' na classificação proposta pela presente pesquisa. As duas categorias divergem apenas em relação à contabilização de respostas constituídas por expressões de uma sílaba que apresentavam marcas entonacionais que conferiam às mesmas valor ilocucionário de comiseração. Na presente pesquisa, o emprego de expressões curtas (como "uhum", "ahã", "é", etc.) foi registrado nas análises, mas não foi contabilizado em função da
dificuldade de se individualizar cada ocorrência, especialmente no caso da aula de metodologia devido ao grande número de pessoas participando da interação.
A comparação dos resultados obtidos nas duas pesquisas através da análise das respostas gera quatro constatações relevantes. Essas constatações e suas relações com o contexto da presente pesquisa serão aprofundadas na seção seguinte. A primeira constatação que se pode fazer é a de que a frequência de respostas de tipo 'pedido de elaboração' é muito mais alta no contexto da presente pesquisa. Os pedidos de elaboração caracterizaram, em especial, as respostas da formadora Amanda durante os encontros do grupo de pesquisa-ação. Desta forma, o uso recorrente de pedidos de elaboração pode ser entendido como uma característica particular do modo de interagir da formadora especificamente naquele contexto.
A segunda constatação que decorre da comparação dos resultados das duas análises é a ocorrência ainda inferior de respostas desencorajadoras no contexto da presente pesquisa. Essa constatação corrobora na qualificação dos encontros de pesquisa-ação e da aula de metodologia como momentos fortemente marcados pela solidarização entre os participantes.
A terceira constatação possível é a de que comiserações/ solidarizações prevalecem como as formas mais comuns de resposta a uma reclamação, tanto no contexto de coleta do trabalho de Boxer, quanto no contexto de coleta da presente pesquisa.
A quarta e última constatação depreendida dessa análise comparativa é a de que as semelhanças entre as categorizações propostas pelas duas pesquisas e de seus respectivos resultados indicam a existência de um padrão bastante consistente de possíveis respostas a uma reclamação. Padrão este que se sustenta apesar das diferenças contextuais e culturais particulares a cada coleta.