3 EXPERIÊNCIAS CLÍNICAS: ONDAS NUNCA VOLTAM? APROXIMAÇÃO PARA
4.4 Claustros: territórios interiores para onde a identidade pode ser seqüestrada
4.4.1 Comparando claustros e refúgios
Por todas as características arroladas, os claustros assemelham-se a refúgios: constituem-se por conjuntos de defesas extremamente organizadas e, portanto, estáveis, as quais, como nos refúgios, promovem uma maneira alterada de lidar com agruras das posições esquizoparanoide e depressiva. Em todos eles, há uma parada no desenvolvimento, vivências e relações de objeto peculiares. Deixar os claustros é difícil, pois além da sensação de estarem presos pela identificação projetiva intrusiva (que também cria o clima de claustrofobia), existe ali a sensação de pertencimento e de identidade.
Por exemplo, no compartimento chamado peito-cabeça (Head-brest), as defesas criam a sensação de segurança e de sustentação por um objeto idealmente poderoso e provedor: o seio e a cabeça da mãe. Há uma sensação de interesse, mas pouco intenso, pelos desafios da vida, uma espécie de acolhimento educado, mas superficial das coisas vivas. Não há lutas, nem muitas expectativas ou sonhos, trazendo a sensação de se estar livre e longe de carências e angústias. Esses moradores podem demonstrar enfado e agir como se as demandas por buscar ligações e desenvolvimento fossem para outros, não para eles. São capazes de manter relacionamentos afáveis, mas pouco profundos, pois o egocentrismo predomina. Podem aceitar situações de perversão ou conluios doentios em seus relacionamentos, desde que o objeto os sustente e exija pouco mais que conivência. Note-se que Meltzer, embora descreva exemplos marcantes de habitantes de seus claustros, também relata graus mais amenos de pertencer a eles e a outros espaços dos objetos internos.
A questão da claustrofobia e a presença simultânea de receios de expulsão merecem pequena digressão. Como a entrada no claustro foi realizada de forma forçada, ou sub-reptícia, e não pela via de identificação projetiva comunicacional, o receio de ser expulso é constante. Há também um desejo de se libertar do claustro, mas sem esforço. Há que lembrar que, aquele tipo de vida psíquica
parece ser a única possível, o que implica que seus habitantes receiem não conseguir viver de outra forma, e possam acreditar que aquele modo de vida mental seja o único possível.
Por ser uma entrada intrusiva, a perseguição pelo objeto invadido está sempre em pauta, e as relações com esse objeto tem boa dose de ambivalência. Não se trata de acolhimento ou continência verdadeira. Além disto, o objeto foi deformado pelas projeções, pela atividade de pensamento mágico e contém elementos beta, com traços de superego e de ego (BION, 1988, MELTZER, 2008). Assim, torna-se facilmente um perseguidor, contribuindo para a claustrofobia. A identificação intrusiva também implica na existência de voracidade e inveja, que são projetadas no objeto. Portanto, mesmo que o claustro contenha elementos desejados, também contém partes hostis e/ou destrutivas.
O desejo de ter uma vida mental livre e criativa existe, como nos refúgios, mesmo que submisso, e aumenta a sensação de confinamento e claustrofobia, a qual também pode ocorrer nos refúgios. Além disso, ficar aprisionado em qualquer outro tipo de reduto é uma ameaça e uma atração permanente para a personalidade com essa dotação (claustrofilia, isto é, a tendência e/ou afinidade para entrar em claustros).
Percebe-se também na qualidade das relações do habitante do claustro e seus objetos, bem como nos refúgios, que há sempre algo sádico ou masoquista, e que são objetos parciais. Em ambos há uma estrutura de objetos organizados de tal forma que controlam, submetem, e dominam outras áreas do ego, que não pode por isto crescer. Neles também os objetos são parciais e onipotentes. A elaboração das angústias paranoides e depressivas não é possível nos claustros nem nos refúgios.
Na proposta de Steiner, a questão de fugir das dificuldades das posições é central. Na de Meltzer, embora haja sensações de desconforto fóbico e receio de expulsão, esses sentimentos se alternam ou são sobrepujados por outros, de proteção e de ser vantajoso estar no claustro. Mas as defesas que sustentam tal estado, embora poderosas, não emergiram após uma situação de fragmentação e caos mental.
Mesmo o habitante do reto, onde as angústias paranoides são mais claras, pode migrar para o Head-breast e, temporariamente, eclipsar a situação esquizoparanoide. No entanto, a identificação com defesas muito onipotentes faz com que a situação paranoide possa ficar sob controle, gerenciada pela organização patológica. Portanto, objetos onipotentes e identificações narcísicas (com componente destrutivo) estão presentes tanto na proposta de Meltzer quanto na de Steiner. A divergência quanto ao conforto em cada um dos redutos pode ser minimizada, se considerarmos que, no refúgio, também existe o medo de ser odiado pelo objeto onipotente e protetor, bem como a necessidade de obedecer a ele para não sê-lo. Observa-se assim um aprisionamento aos desejos do referido objeto, o que pode levar o paciente a um relacionamento claustrofóbico.
A falsa continência existe em ambos os casos, pois, no claustro, o objeto foi invadido e, no refúgio, mesmo sem a invasão o objeto também é parcial e onipotente e desumano, como parte da organização patológica. Portanto, há, em ambos, um mimetismo de continência, nunca uma continência real.
Indo mais além, observa-se que, nas situações graves de doença mental, as sensações de estar junto a um objeto poderoso (e perseguidor, pois desumanizado) são frequentes, por exemplo, nos chamados estados de pânico, em que o objeto perseguidor fica localizado em algum órgão corporal, e a situação psicológica é a de uma fobia a algo alojado nesse local. Veem-se, dessa forma, confluências nos conceitos de refúgios e claustros entre as quais deve-se ressaltar a importância central da relação de objeto onipotente e narcísica, que se estabelece no âmago do ego e se torna duradoura.
Importa referir que a entrada no claustro é buscada sorrateiramente pelo sujeito, com uma fantasia poderosa de intrusão e para estabelecer uma identidade. Já no refúgio houve uma espécie de colapso psíquico, com uma perda insuportável e uma experiência de não encontrar continência (ou não poder aceitá-la) e, portanto, acabar buscando-a de forma espúria. Nessa última, o objeto parcial onipotente surge como a única opção para organizar e amenizar o sofrimento. Variam, assim, as formas sob as quais se entra em contato com o objeto parcial onipotente, e as causas que podem levar a isso.
Meltzer concebe que, diferentemente da entrada num refúgio, alguns habitantes de claustros foram para lá atraídos ou mesmo forçados pela sedução de um adulto importante para aquela criança. Isso significa que Meltzer aventava a possibilidade de um adulto portador de um objeto parcial onipotente atrair um sujeito vulnerável, e coloca a relação humana no centro do problema.
Na proposta de Steiner, em que pese a ênfase à luta interna do ego, acossado pelas dores das posições esquizoparanoide e depressiva, também é mencionada, como muito significativa para a construção de refúgios, a influência do meio externo. Tal influência é exercida por objetos hostis, que podem diminuir as oportunidades da criança de introjetar objetos verdadeiramente continentes e bons, e contribuir para a internalização dos maus. Observamos também que o self fragmentado e carente poderá ser seduzido pela parte onipotente e permitir que a organização patológica estabeleça seu domínio.
Mesmo com defesas tão poderosas, a situação nos claustros não é boa. As vicissitudes da vida põem em xeque as defesas que, frequentemente, irão fracassar. Diante das experiências reais da vida, os claustros desempenham um papel de convidar à retirada e não a alcançar algo na vida. Por isso, muitos pacientes buscam ajuda, mas, mesmo assim, podem ser atraídos de volta. Essas vicissitudes expressam e trazem os balanços entre as possibilidades de saída e os retornos aos claustros.
Meltzer diz:
Em resumo, a experiência analítica com crianças e adultos sugere fortemente a existência de uma ou outra parte infantil vivendo tanto em identificação projetiva quanto facilmente provocada a entrar no claustro de objetos internos, com muita frequência. Toda análise começa com copioso material sobre esgotos, encontros eróticos ou felicidade parasitária, tão cedo quanto a transferência preformada possa ser dissipada, de modo que algum grau de intimidade possa ser permitido.
(Tradução livre).
In summary, psycho-analytical experience with children and adults strongly suggests that the existence of one or another infantile part either living in projective identification or easily provoked to enter the claustrum of internal objects is fairly ubiquitous. Every analysis begins with copious material referable to the sewer, the erotic encounter or parasitic bliss, as soon as the preformed transference has been dispelled so that some degree of intimacy can be allowed. (MELTZER, 2008, p. 134).
As palavras anteriores afirmam ser frequente que partes infantis do self vivam em identificação projetiva com objetos internos e sejam facilmente incitadas
a entrar nos claustros desses objetos (portanto, que tenham criado objetos internos assim). Propõe que essas fantasias são regularmente encontradas nos pacientes em geral, e que a busca de projeções que aliviem por soluções onipotentes, paralela e concomitante à necessidade de encontrar continência verdadeira, está sempre presente na mente humana. Atesta-se com isso a regularidade com que as fantasias de estar no interior de objetos internos aparecem num processo analítico, e a importância de diferenciar e compreender as várias nuances da continência e da identificação projetiva intrusiva.