Ao analisar os dados estatísticos com base nos temas dos Estudos Culturais em Educação, comparamos as postagens sorteadas nas páginas com os vídeos dos canais. Devido à diferença estrutural e de recursos oferecidos pelos dois sites de redes sociais, só foi possível comparar os itens semelhantes, como a quantidade de likes e de comentários.
No caso dos compartilhamentos, apesar de ser um recurso disponível em ambas as redes sociais, não fizemos a comparação, porque não foi possível obter o quantitativo de compartilhamento dos vídeos no YouTube nem comparar o mapeamento das redes, devido a diferenças de coleta apresentadas pelos softwares e pelas redes sociais. Primeiro, por causa da diferença entre os itens ainda na coleta dos dados, e segundo, porque os softwares estruturam as informações com diferenças que não permitem uma comparação fidedigna dos resultados, como a centralidade e outras métricas de análise que não estão disponíveis em ambos os programas.
As comparações possíveis foram mantidas para garantir a validade das interpretações. O resultado desse comparativo pode ser visualizado nos Gráficos 5 e 6.
Gráfico 5 - Porcentagem de likes por tema Gráfico 6 -Porcentagem de comentários por tema
Os resultados apontaram que os materiais sobre inclusão receberam mais likes do que os temas ‘gênero’ e ‘cultura digital’; 46% dos likes foram para o tema ‘inclusão’, o que sinaliza que, dentre os materiais analisados, o tema mais curtido pelas pessoas que nele interagiram foi ‘inclusão’. Contudo, a diferença entre esse tema e o tema ‘Gênero’ (segundo colocado) foi de apenas 0,15%, o que sinaliza uma preferência também em termos de likes para esse tema. Já o tema ‘Cultura Digital’ recebeu apenas 7,91% dos likes.
Para a pesquisa educacional no campo dos estudos culturais, os resultados inferem para o interesse das pessoas pelo tema ‘inclusão’. As postagens traziam três vídeos e um link, cujo conteúdo apresentava metodologias de trabalho para serem utilizadas nas atividades pedagógicas, inclusive com a divulgação de um aplicativo de alfabetização. Também abordaram questões sobre o papel do professor e as dificuldades e os desafios da inclusão escolar. Do ponto de vista da aprendizagem, as interações relativas às postagens sobre o tema ‘inclusão’ podem ter diferentes motivações, entre elas, questões de afinidade, afetividade, busca por mais informações, tipo de publicação, qualidade das publicações e forma de apresentar o material.
Apesar do interesse das pessoas pelo tema, esse não foi o mais comentado. De acordo com os resultados do Gráfico 6, o tema mais comentado foi ‘Gênero’, com mais da metade do percentual, 55,50%, enquanto o tema ‘Inclusão’ recebeu 41,53% dos comentários, e ‘Cultura Digital’ alcançou 2,97% dos comentários. Para a pesquisa no campo dos Estudos Culturais, o tema ‘Gênero’ possibilita estudos referentes a identidades, relações de poder e diferenças. Por ser considerado um tema polêmico, devido ao entendimento equivocado dos conceitos de gênero e de sexualidade, o que gera diferentes posicionamentos na sociedade, talvez, em decorrência dessa confusão conceitual, o número de comentários aumente nesses casos, pois as pessoas não só comentam a postagem, como também interagem diretamente com os usuários respondendo aos comentários, o que provoca uma rede de diálogos.
Ao comparar os Gráficos 5 e 6, constatamos que 45% dos likes e 55% dos comentários recebidos foram para páginas ou vídeos que tratam do tema ‘Gênero’, e 46% e 41%, respectivamente, foram destinados ao tema ‘Inclusão’ e apenas 7% dos likes e 2% dos comentários foram direcionadas ao tema ‘Cultura Digital’. A análise do material (postagens e vídeos) aponta que o tema ‘Gênero’ se destaca no debate, em relação aos demais que foram investigados.
Para as pesquisas no campo dos Estudos Culturais, os resultados a respeito do tema ‘Cultura Digital’ sinalizam que as redes sociais, apesar de estarem situadas no universo
digital, não trazem como foco dos debates as questões referentes à cibercultura e seus artefatos. Somando esses resultados com as novas dinâmicas de aprendizagem que ocorrem por meio das redes, as quais estão sujeitas a interferências que podem gerar frutos positivos ou negativos para o desenvolvimento da pessoa inteira, como diz Rogers (1977), instiga-nos pensar, como aponta Lévy (2017), sobre a necessidade de uma alfabetização na inteligência coletiva.
Há que se considerar, ainda, que muitos dos debates lançados por meio de postagens nas redes sociais também envolvem assuntos em pauta no mundo atual (LÉVY, 2010). Isso significa que o ponto de partida para alguma postagem, salvo em casos específicos, pode ser um projeto de lei ou uma lei aprovada, uma data significativa, a proximidade de um evento, um crime, uma campanha ou uma publicidade. Enfim, são inúmeros os motivos que podem estar relacionados ao tema e que fazem com que ele seja mais pesquisado e, consequentemente, origine mais interações. Como tema para novas pesquisas, sugerimos que se investigue a relação entre os conteúdos em pauta no mundo virtual e no atual, a fim de mapear como essas interações estão ocorrendo e influenciados esses contextos.
Ressaltamos que, como o Ciberespaço, local da cibercultura, é um ambiente amplo, diversificado, fluido e global, os conteúdos que são retratados por meio dos sites de redes sociais também o são, assim como a maneira como as pessoas interagem, dialogam e formam vínculos. Nos casos analisados, percebemos que o tema ‘Gênero’, apesar de ter sido o mais debatido, não foi o mais curtido, enquanto o tema ‘Inclusão’ foi o mais curtido, mas não o mais comentado. Esse dado reflete o dinamismo de interações e as formas de aprendizagem presentes nas redes.
Ao interpretar os dados, supomos que a comunicação por meio dos símbolos tem sido utilizada em detrimento da comunicação escrita, porque, além de ser uma manifestação mais objetiva, não resulta em uma vinculação mais profunda com o que foi exposto, ou seja, não oferece uma probabilidade direta de que outras pessoas questionem sua opinião de maneira diretiva, como acontece no comentário. Esses resultados apontam mudanças nas interações sociais que precisam ser consideradas pelas escolas no planejamento pedagógico e provocam reflexões do tipo: seria esse fenômeno – o do predomínio de uma comunicação ideográfica
versus uma comunicação escrita – uma consequência da sociedade não leitora que temos e,
por conseguinte, menos escritora? Ou seria o surgimento de uma nova proposta de comunicação, pelo menos no ciberespaço, por meio de imagens, como propõe Lévy (1998) em sua ideografia dinâmica? Ou pode ser apenas um fenômeno típico da cibercultura, como é
o caso das abreviaturas gramaticais utilizadas durante a comunicação virtual, como “vc” (você), por exemplo?
Nos casos em análise, entendemos que, quando se curte ou reage a algum link, há certa superficialidade no debate sobre o tema, pois a possibilidade de alguém responder diretamente a quem apenas curtiu a postagem é mínima, porque a resposta direta não aparece como opção, ou seja, não há possibilidade de expressar resposta ou comentário direto para as pessoas que deram like ao post. Contudo, quando os usuários decidem interagir por meio de comentários, abre-se uma oportunidade de haver interações mais consistentes, através das respostas diretivas, uma vez que outras pessoas que estão vinculadas à página podem responder concordando ou discordando do ponto de vista daquele usuário.
No comentário, as pessoas podem responder ou expressar, por meio de curtidas, o comentário original, convidando o usuário a rebater a resposta, e assim por diante, dando continuidade a uma interação iniciada pela postagem. Trava-se um diálogo, que se espera ser produtivo, sobre a postagem compartilhada ou anunciada e surgem interações, relações e conexões que resultam em aprendizagens, o que conduz os sujeitos rumo à inteligência coletiva, que envolve o reconhecimento da diversidade das ações humanas, como afirma Lévy (2011, 2002).
Assim, seja qual for a forma de interação utilizada pelos usuários, os ecossistemas de aprendizagens serão modificados e ampliados. Como é um ambiente com diferentes oportunidades de comunicação e vinculações, o ciberespaço passa a ser um lugar em que as formas como as pessoas aprendem e se expressam precisam ser diversas para dar conta dessa realidade, que acontece dentro e fora do ambiente digital. Além disso, embora não se conheçam pessoalmente, os usuários travam relações pessoais e trocas de conhecimento que podem levar ao conhecimento de ambos.
Apesar dos avanços, é preciso lembrar estudos como os de Pariser (2012), Recuero, Zago e Soares (2017) e Fava (2015), que mostram a atuação de algoritmos que formam bolhas em torno dos usuários da rede, que o fecham em uma redoma com postagens sobre seus pontos de vista e deixam de lado postagens em contraponto. Esse fenômeno é uma afronta à diversidade, à liberdade, à inteligência coletiva e à ciberdemocracia, que precisam do diferente para se constituir como tal. O conhecimento precisa estar em contato com outras possibilidades, com diferentes opiniões, para que seja fortalecido e não seja construído em bases frágeis, que levam à intolerância e ao desrespeito aos direitos humanos.
A inteligência coletiva idealizada pelos estudiosos do ciberespaço prevê a saída do simples acesso à informação em direção a uma participação mais acentuada, como prática de
uma ação coletiva (LÉVY, 2001; JENKINS, 2009), como, por exemplo, o deslocamento de simples visualizações dos vídeos para uma interação por meio de compartilhamentos, comentários, debates ou reações e utilização de emotions, que vão além de palavras ditas. Para a aprendizagem, o importante é que as ações por meio das interações se transformem em ações concretas para empreender transformações e construir conhecimentos.
É importante mencionar que não se excluem os casos em que a interação ocorreu apenas por meio da visualização da postagem, ou seja, o usuário vê a postagem, mas não interage. Essa situação foi observada nos casos analisados quando comparamos o número de visualizações com o de interações do tipo reações, compartilhamentos e comentário, o que corrobora as afirmações de Brennand e Brennand (2013) sobre o fato de a comunicação nas redes assumir significados de participação permanente, uma vez que incluem múltiplos canais, entre eles, o silêncio.
A visualização sem interação é uma prática difícil de ser monitorada, porquanto as redes sociais não disponibilizam o número de visualizações que uma postagem recebeu. Só nos casos de vídeos no YouTube e no Facebook é possível monitorar o número de visualizações e fazer estipulações. Não se sabe o impacto real que o fenômeno da visualização seguida de silêncio gera na aprendizagem, pois são dados difíceis de rastrear. Supomos que frases do tipo “O melhor são os comentários” ou “eu fico só olhando”, ouvidas no dia a dia do convívio social, possam ser indícios de que, no silêncio, há significativos processos de aprendizagem.
Atualmente, os dados a que se tem acesso referem-se às interações materializadas por meio dos likes, dos dislikes, das reações, dos comentários, dos compartilhamentos e das visualizações, mas o silêncio ainda intriga os pesquisadores. Os dados sobre o silêncio ou a não interação dos usuários às postagens investigadas também representam indícios de alguma aprendizagem, porém mais difícil de analisar.
Pelo exposto, vemos como as formas de interação nas páginas da rede social estão postas, ao mesmo tempo em que comparativamente se demarcam as preferências utilizadas pelos usuários em suas formas de se comunicar no ciberespaço e reflete a troca de informações entre os nós a partir da amostra investigada. Essas situações fazem parte de processos de aprendizagem que envolvem cultura, emoções, cognição, identidades, comunicação, percepções e tantos outros elementos.
Em complemento aos dados estatísticos, mapeamos as redes de interação e de aprendizagem nas páginas e nas postagens do Facebook e nos canais e nos vídeos do YouTube. Esses resultados são apresentados no capítulo a seguir (Capítulo 6).
6 MAPEANDO AS REDES DE INTERAÇÃO
O mapeamento das redes de interação, no que tange aos elementos investigados, foi divido em dois subitens: (i) o mapa das redes formadas no Facebook e (ii) o mapa das redes formadas no YouTube. Ao mesmo tempo em que apresentamos os resultados, procedemos às interpretações seguindo o arcabouço teórico que respaldou a pesquisa.