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Competência, complexidade e demandas organizacionais

2. Fundamentação teórica

2.2 Competência do indivíduo

2.2.3 Competência, complexidade e demandas organizacionais

O grau de complexidade com que um indivíduo realiza seu trabalho depende de seu nível de maturidade profissional. Mas também é função das necessidades organizacionais, do espaço que a organização disponibiliza para o indivíduo exercer sua competência. A este espaço, que abarca o conjunto de atribuições e responsabilidades assumidas por um indivíduo, Dutra (2001a) chama de espaço ocupacional. Assim, as demandas da organização demarcam os limites para o exercício da competência individual. E o indivíduo, ao perceber oportunidades e assumi-las, desenvolve-se.

Se necessidades organizacionais “puxam” o crescimento em complexidade da entrega do profissional, é possível supor que organizações operando em circunstâncias mais complexas16 demandem indivíduos de maior grau de desenvolvimento. Assim, tais organizações seriam mais dependentes do grau de competência individual. Alguns estudos empíricos suportam esta assertiva. Por exemplo, Terra (2001), investigando práticas de gestão do conhecimento em empresas brasileiras, descobriu três clusters: “empresas que aprendem”, “empresas tradicionais” e “pequenas atrasadas”. O primeiro cluster caracterizou-se por conter grandes empresas, líderes de mercado, melhor desempenho recente, capital estrangeiro, setores intensivos em conhecimento e maior parcela do faturamento relacionada à exportação. O segundo incluiu empresas grandes, de capital nacional, líderes de mercado em setores tradicionais. O terceiro grupo abarcou as menores empresas da amostra, concentradas em serviços, poucas líderes de mercado, pior desempenho recente e, em geral, de capital nacional. Na comparação de resultados entre o primeiro e o terceiro grupo, variáveis relativas à formação de competências individuais (como processo seletivo, investimento em treinamento e remuneração ligada a competências) revelaram superioridade significativa em favor do primeiro cluster.

16 Em analogia à complexidade individual, pode-se entender a complexidade organizacional em termos de escopo de atuação (internacional, nacional ou local), porte da empresa,

Também o trabalho de Fleury e Fleury (2001), realizado na indústria plástica, manifestou que competências organizacionais requeridas às empresas e processo de formação de competências nas pessoas variavam segundo a posição da empresa na cadeia produtiva e sua estratégia competitiva.

Starbuck (1997, p. 150), ao analisar o caso de empresas intensivas em conhecimento17, também relata a associação entre sofisticação da atividade

organizacional e uma “expertise esotérica” incomum que traz contribuição excepcional ao negócio. Entretanto, essa expertise não está estocada nas pessoas, mas é aplicada: “algumas formas de expertise podem ser difíceis de medir separadamente de seus efeitos” (p. 150), o que remete à idéia de competência enquanto entrega. Assim, pode-se argumentar que a maior complexidade organizacional decorrente de um ambiente de conhecimento intensivo exige mais capacidade de entrega e competência dos indivíduos.

O autor argumenta que a expertise não está necessariamente nas pessoas:

“Além do conhecimento mantido pelos indivíduos, ainda se pode encontrar conhecimento em: a) capital, como fábrica, equipamento ou instrumentos financeiros; b) procedimentos e cultura da empresa; c) culturas profissionais” (p.153).

Essa objetivação ou explicitação do conhecimento das pessoas em realidades externas coincide com o que Polanyi (1997) denomina passagem do conhecimento tácito para o conhecimento explícito. O conhecimento explícito se refere ao conhecimento codificado, transmissível em linguagem sistemática. O conhecimento tácito é de caráter pessoal, mais difícil de formalizar e comunicar. Polanyi (1997) elucida a questão mediante o exemplo de reconhecer um rosto:

“Nós conhecemos o rosto de uma pessoa e podemos reconhecê-lo entre milhares, talvez milhões. No entanto, normalmente não podemos dizer como reconhecemos o rosto que conhecemos” (p. 136).

17 Em economia, os termos intensiva em capital ou intensiva em mão-de-obra assinalam a importância do capital e mão-de-obra, respectivamente, como insumos produtivos. Da mesma forma, intensiva em conhecimento aponta para empresas nas quais o insumo conhecimento se sobressai (STARBUCK, 1997, p. 149).

Com o passar dos anos, com o estudo e o surgimento de novas técnicas, conhecimentos antes considerados tácitos podem se converter em explícitos. O próprio Polanyi (1997) lembra técnicas adotadas pela polícia para identificar rostos, mediante o uso de uma variedade de desenhos de narizes, olhos, bocas, entre outros, tornando comunicável o conhecimento antes dificilmente transmissível.

No plano organizacional, a formalização do conhecimento facilita sua disseminação, por um lado (NONAKA, 1994). Por outro, pode implicar diminuição do nível de complexidade da entrega requerido aos indivíduos. De acordo com esse raciocínio, ao formalizar o conhecimento, a organização passa a requerer indivíduos de menor qualificação, que obedeçam a regras, que realizem atividades em circunstâncias de maior padronização, estruturação e rotina, em vez de indivíduos detentores de mais experiência e conhecimento, capazes de trabalhar com maior autonomia18.

Para resumir, pode-se dizer que a relação entre competência e complexidade da entrega individual (ou capacidade de entrega mais complexa), de um lado, e demandas organizacionais, de outro, dependerá do nível de complexidade e do grau de formalização da organização. Organizações operando em ambientes mais complexos tendem a exigir pessoas capazes de atuar em maior grau de complexidade. Já a formalização do conhecimento exerce pressão no sentido contrário, de “esvaziar” a necessidade de complexidade da entrega e competência individual. O caso do McDonald’s, abordado por Starbuck (1997) e citado acima, constitui um exemplo19.

18 Observe que a formalização aqui se refere ao conteúdo do trabalho em si, não a insumos necessários ao trabalho. Por exemplo, informações automatizadas e estruturadas que subsidiam a tomada de decisão de um presidente de uma grande empresa não substituem nem esvaziam a complexidade e o conhecimento tácito exigidos a esta função.

19 Entretanto, vale lembrar que atividades tendem a ser mais passíveis de formalização se dependerem de conhecimentos mais simples. Atividades dependentes da intuição ou de