• Nenhum resultado encontrado

4. TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL: ASPECTOS COMPETENCIAIS E

4.2 Competência do Tribunal Penal Internacional

4.2.1 Competência material

Quanto à matéria, a competência do Tribunal Penal Internacional restringe- se, basicamente, aos crimes de agressão (art. 5º), genocídio (art.6 º), crimes contra a humanidade (art. 7º) e aos crimes de guerra (art.8º). Os bens jurídicos tutelados pertencem a toda a humanidade e o objetivo é manter a paz mundial.

O tráfico de drogas e o terrorismo, também crimes internacionais, não foram incluídos no rol de competência trazido pelo Estatuto de Roma. Segundo João Miranda, tais crimes não foram previstos no Estatuto porque, além de não terem sido considerados suficientemente graves para ali estarem previstos, há no ordenamento jurídico internacional tratados de cooperação entre os Estados tratando desses crimes.120

O crime de agressão está condicionado à posterior tipificação, pois não houve consenso na Convenção de Roma a esse respeito. Para Flávia Piovesan, esse conceito poderá ser incluído na Conferência de Revisão do Estatuto do Tribunal Penal Internacional, prevista para ocorrer em 2009.121

O crime de agressão foi definido como um crime internacional, particularmente, a agressão representa os crimes contra a paz122 e é

responsabilidade do Conselho de Segurança mantê-la, como designado pelo Capítulo VII da Carta das Nações Unidas. Agressão, nos dizeres de Marcelo Biato, “é conceito com densa imbricação política e forte carga ideológica, o que dificulta a tipificação juridicamente precisa e rigorosa indispensável em matéria penal”.123

Segundo Mohammed Gomaa, o crime de agressão é cometido por uma coletividade e não por um indivíduo124, sendo que o Tribunal Penal Internacional

prima pelo princípio da responsabilidade individual.

120

MIRANDA, João Irineu de Resende. O Tribunal Penal Internacional frente ao princípio da

soberania. 2005. 172 f. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

- USP, São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Direito, p. 70.

121

PIOVESAN, Flávia. (Org.), IKAWA, Daniela Ribeiro; PIOVESAN, Flávia. Temas de Direitos

Humanos. O Tribunal Penal Internacional e o Direito Brasileiro. 2ª edição. São Paulo: Max

Limonad, 2003, p. 158.

122

NESI, Giuseppe; POLITI, Mauro (Org.); LEANZA, Umberto. The International Criminal Court and

the Crime of Aggression. The Historical Background. Inglaterra/Aldershot: Ashgate, 2005, p.3.

123

BIATO, Marcelo. O Tribunal Penal Internacional e a segurança coletiva. Revista Política Externa. Volume 10, nº 3, p. 139, Dez/Jan/Fev-2001/2000.

124

NESI, Giuseppe; POLITI, Mauro (Org.); GOMAA, Mohammed M. The International Criminal Court and the Crime of Aggression. The Definition of the Crime of Aggression and the ICC Jurisdiction over that crime. Inglaterra/Aldershot: Ashgate, 2005, p. 77.

A definição do crime de genocídio trazida no Estatuto, encontra-se em conformidade com o conceito previsto na Convenção para Prevenção e Repressão do Genocídio de 1945.

O crime de genocídio é identificado como qualquer ato, em tempo de paz ou de guerra, com a intenção de destruir, completa ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, assassinando ou causando ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo;125 sujeitar intencionalmente os membros do grupo a condições de vida com o intuito de provocar a sua destruição física, total ou parcial; impor medidas que visem impedir nascimentos no seio do grupo e tranferir, à força, crianças do grupo para outro grupo.126

O conceito de crimes contra a humanidade assume o status de norma costumeira, de caráter imperativo (jus cogens), reportando-se a graves violações da dignidade humana.127 É crime contra a humanidade o ato cometido contra qualquer população civil de modo generalizado ou sistemático: homicídio; extermínio; escravidão; deportar ou transferir forçadamente uma população; prender ou realizar outra forma de privação da liberdade física grave, em violação das normas fundamentais de direito internacional; torturar; agredir sexualmente, escravizar sexualmente, forçar a prostituição, gravidez forçada, esterilização forçada ou praticar qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade comparável; perseguir um grupo ou coletividade que possa ser identificado, por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou de gênero ou em função de outros critérios universalmente reconhecidos como inaceitáveis no direito internacional, desaparecimento forçado de pessoas; cometer crime de

apartheid; cometer outros atos desumanos de caráter semelhante, que causem

intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental.128

Os crimes de guerra são os mais antigos dos crimes da competência do Tribunal Penal Internacional. Em seu artigo 8º, o Estatuto consagra a longa

125

O Tribunal de Nuremberg reconheceu esse tipo de violações, confirmado sobre a forma de princípio pela resolução da Assembléia Geral na resolução 95 (I) de 11 de dezembro de 1946. In JARDIM, Tarciso Dal Maso. O Tribunal Penal Internacional e sua Importância para os Direitos

Humanos. www.dhnet.org.br/direito. Data de acesso: 03 de novembro de 2007.

126

UNITED NATIONS. Rome Statute. Disponível em www.un.org/law/icc. Acesso: 02 de abril de

2007.

127

JARDIM, Tarciso Dal Maso. O Tribunal Penal Internacional e sua Importância para os

Direitos Humanos. www.dhnet.org.br/direito. Acesso: 03 de novembro de 2007.

128

UNITED NATIONS. Rome Statute. Disponível em www.un.org/law/icc. Acesso: 02 de abril de 2007.

evolução do direito internacional humanitário que, desde o século passado, vem sendo impulsionado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Os crimes mencionados neste artigo são "infrações graves” consagradas nas quatro Convenções de Genebra de 12 de agosto de 1949, violações graves a leis e costumes pertinentes a conflitos armados internacionais e, violações graves em conflitos de caráter não internacional.129

Alguns desses crimes, descritos no próprio Estatuto de Roma são: homicídio doloso; tortura ou outros tratamentos desumanos, incluindo as experiências biológicas; destruição ou a apropriação de bens em larga escala, injustificadamente; privação intencional de um prisioneiro de guerra ou de outra pessoa sob proteção do seu direito a um julgamento justo e imparcial; deportação ou transferência ilegais, ou a privação ilegal de liberdade; tomada de reféns; submeter pessoas que se encontrem sob o domínio de uma parte beligerante a mutilações físicas ou a qualquer tipo de experiências médicas ou científicas que não sejam motivadas por um tratamento médico, dentário ou hospitalar; utilizar veneno, armas envenenadas ou gases asfixiantes ou dispositivo análogo; provocar deliberadamente a inanição da população civil como método de guerra; recrutar ou alistar menores de 15 anos nas forças armadas nacionais ou utilizá-los para participar ativamente nas hostilidades; etc.130