O Conselho de Segurança é composto por 15 (quinze) membros, sendo 5 (cinco) permanentes: Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China.
O Conselho de Segurança pode denunciar uma situação de que possivelmente esteja ocorrendo um ou mais crimes previstos no Estatuto de Roma ao Ministério Público, baseando-se no Capítulo VII da Carta das Nações Unidas. Dessa forma, o próprio Estatuto reconhece o papel do Conselho de Segurança em manter a segurança e a paz internacionais, como descrito no artigo 24 da Carta da Organização das Naçoes Unidas.
Inicialmente, procurou-se desvincular a iniciativa da Ação Penal dos critérios políticos do Conselho de Segurança.
Feita tal denúncia, a jurisdição do Tribunal Penal Internacional torna-se obrigatória, auxiliando o Conselho de Segurança na manutenção da segurança e da paz internacional através do inquérito e do processo.
Segundo o artigo 16 do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, o Conselho de Segurança, através de uma resolução, pode impedir ou interromper qualquer investigação ou processo por um período de 12 meses, renovável por períodos iguais, ficando o Tribunal obrigado a obedecer o pedido do Conselho de Segurança. Essa medida poderá ser tomada desde que haja anuência de todos os membros permanentes do Conselho e seja fundamentada na defesa da paz e da segurança internacionais.
Esta é uma questão polêmica desde a formulação do Estatuto de Roma. Como afirma Raquel Tiveron, “um outro grupo de delegações de Estados, conhecidos como os “like-minded states”, temia a criação de uma relação de dependência entre o Tribunal e o Conselho de Segurança e a politização desta organização internacional.”237238
237
TIVERON, Raquel. Aspectos históricos, jurídicos, filosóficos e políticos do Tribunal Penal
Internacional e seu impacto no ordenamento jurídico brasileiro. 2005. 213 f. Dissertação
(Mestrado) – Centro de Ensino Universitário de Brasília – UniCEUB, Brasília, Programa de Pós- Graduação em Direito, p. 84.
238
Alguns desses Estados são: África do Sul, Dinamarca, Canadá, Suécia, Suíça, Alemanha, Irlanda, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Itália, Portugal, Uruguai, Venezuela, Chile, etc.
O grupo like-minded states era formado por 42 Estados, liderado pelo Canadá e Alemanha, queria um Ministério Público mais poderoso, independente do Conselho de Segurança, pois para esse grupo, assim o Tribunal funcionaria.239
Os membros permanentes do Conselho de Segurança, Estados Unidos, Rússia, China, França e Inglaterra, têm um poder diferente daquele que os Estados Partes possuem. Eles têm poder de veto perante o Tribunal Penal Internacional. Então, fica evidente que o Conselho de Segurança é ainda o responsável pelo início das atividades judiciais de direito penal internacional.240
É importante ressaltar que a Rússia, a China e os Estados Unidos, que têm assento permanente no Conselho de Segurança, possuem três dos cinco votos permanentes do Conselho. Contudo, esses Estados não ratificaram o Estatuto de Roma, mas, ainda assim, exercem forte influência sobre o Tribunal Penal Internacional.
Os Estados Unidos assinaram o Estatuto de Roma no último dia do mandato de Bill Clinton, mas não o ratificaram. Tal assinatura foi retirada em 06 de maio de 2002. Segundo as afirmações de Cristina Caletti, “George W. Bush tirou essa assinatura e até mesmo lida com a possibilidade de abandonar todas as missões de paz se não obtiver imunidade.”241
Os Estados Unidos fizeram muita pressão para que outros países não se aderissem ao Estatuto de Roma. Ameaçaram, inclusive de retirar a ajuda militar e econômica que ofereciam.242 Eles não queriam, e ainda não querem, um Tribunal
que funcionem contra seus interesses.243
A China foi contra a criação do Tribunal Penal Internacional devido aos conflitos armados existentes no Tibet, pois tinha receio de que seu governo pudesse ser responsabilizado por esta Corte, apesar de, nos dizeres de David
239
ROBERTSON, Geoffrey. Crimes against humanity: the struggle for Global Justice. Nova York: New York Press, 2000, p. 325.
240
AMBOS, Kai; CHOUKR, Fauzi Hassan (Org.), BEHRENS, Morten. Tribunal Penal Internacional.
O regime jurisdicional da Corte Internacional Criminal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p.
238.
241
CALETTI, Cristina. Os precedentes do Tribunal Penal Internacional, seu Estatuto e sua relação com a legislação brasileira. Disponível em www.jus2uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=3986.
Acesso 30 de março de 2007.
242
SACCHI, Eny. OCampo assume TPI. Disponível em http://www.parceria.nl/atualidade/organizacao/at030617tpi_instalado.html. Acesso: 21 de abril de 2007.
243
ROBERTSON, Geoffrey. Crimes against humanity: the struggle for Global Justice. Nova York: New York Press, 2000, p. 325. Para esse autor, a França e a China também querem um Tribunal que funcione dependentemente do Conselho de Segurança.
Fernandes, “no caso de conflito armado não intencional, não afeta a responsabilidade do governo de manter e restabelecer a lei e a ordem pública do Estado e de defender sua unidade por qualquer meio legítimo”244
.
Diante disso, como se procede as investigações pelo Ministério Público sobre um crime da competência do Tribunal Penal lnternacional cometido por um nacional de um dos cinco Estados-membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas? Por uma razão política, a paralisação das investigações pode vir a “desmoralizar” a atuação funcional do Ministério Público?
Não se pode olvidar que o Procurador é eleito pelo voto secreto da maioria absoluta dos votos da Assembléia dos Estados-partes do Tribunal Penal Internacional, e não pela Assembléia da Organização das Nações Unidas. Apesar da intervenção do Conselho de Segurança, o Ministério Público é um órgão autônomo e independente efetivamente?
Como critica, Marcelo Biato, há um “risco da seletividade e de politização nas denúncias, visto o poder de veto que detêm os cinco membros permanentes.”245 São
questões de cunho político que podem comprometer o eficaz funcionamento do Tribunal Penal lnternacional.
A guisa destas pontuações, observa-se que o Conselho de Segurança poderá não julgar nacionais dos Estados-Membros que têm assento permanente no Conselho que cometerem atrocidades contra os direitos humanos e/ou humanitários, da competência do Tribunal Penal Internacional devido à conjugação de interesses desses Estados-Membros.
Tais Estados poderiam impedir um procedimento criminal contra um de seus nacionais, uma vez que as forças armadas desses Estados estão sempre participando de missões de paz pela Organização das Nações Unidas.246
Nesse sentido é o entendimento de João Clemente Baena “a situação dos nacionais dos Estados-Membros permanentes do Conselho de Segurança – eles
244
FERNANDES, David Augusto. Tribunal Penal Internacional: A concretização de um sonho. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 146.
245
BIATO, Marcelo. O Tribunal Penal Internacional e a segurança coletiva. Revista Política Externa. São Paulo. Volume 10, nº 3, p. 137, Dez/Jan/Fev 2001/2000.
246
SOMENZARI, Isteissi Aires Garcia. O papel do Conselho de Segurança da ONU no Tribunal Penal Internacional. Revista Brasileira de Direito Internacional. Curitiba. Volume 1. Nº 1, Jan/Jun 2005.
podem beneficiar-se politicamente do art.16 e gozar de alguma imunidade, de fato, política, se quiserem.”247
No mesmo sentido, afirma Juan Colomer:
Mas tampouco é descartável que se pense em aceitar esta possibilidade como medida de proteção específica contra alguma pessoa ou grupo de pessoas (...), sobretudo por parte dos países que têm direito de veto, ou como conseqüência de uma negociação política de altíssimo nível que terá conseqüências no processo perante o TPI.248
A jurisdição exercida pelo Tribunal Penal Internacional poderia se tornar ima jurisdição para os Estados pobres, subdesenvolvidos, uma justiça seletiva.249
Em sentido contrário, Celso Mello alega que a exigência do consenso dos cinco membros permanentes dificulta ao máximo a suspensão do procedimento pelo Conselho de Segurança.250
É também utilizado o argumento de que as restrições à atuação do Ministério Público procuram evitar julgamento políticos. Daí, indaga-se: como ser mais político que o próprio Conselho de Segurança?251
Segundo a valiosa lição de Francisco Rezek, esse poder de freio dado ao Conselho de Segurança poderá ser utilizado de forma benéfica ou maléfica, podendo consagrar ou desmoralizar o Tribunal.252 Isto pode, sem dúvida,
comprometer a credibilidade do próprio Tribunal.
247
SOARES, João Clemente Baena. Tribunal Penal Internacional. Revista CEJ. Brasília. nº 11, p. 37 a 40, Mai/Ago 2000.
248
COLOMER, Juan Luis Gómez. Sobre la instrucción del proceso penal ante el Tribunal Penal Internacional. Disponível em: www.unifr.ch/ derechopenal/articulos/pdf/gomezcolomer25pdf. Acesso:
05 de maio de 2007. Tradução própria: “Pero tampoco es descartable que se piense em acudir a esta posibilidad como medida de protección específica contra alguna persona o grupo de personas (...), sobre todo por parte de los países que tienen derecho de veto, o incluso como consecuencia de una negociación política de altísimo nivel que tendría indefectiblemete consecuencias en el proceso ante el TPI.”
249
SOMENZARI, Isteissi Aires Garcia. O papel do Conselho de Segurança da ONU no Tribunal Penal Internacional. Revista Brasileira de Direito Internacional. Curitiba. Volume 1. Nº 1, Jan/Jun 2005.
250
MELLO, Celso de Albuquerque. Anuário Direito e Globalização: A soberania. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p. 168.
251
CASSESE, Antonio. In TIVERON, Raquel. Aspectos históricos, jurídicos, filosóficos e
políticos do Tribunal Penal Internacional e seu impacto no ordenamento jurídico brasileiro.
2005. 213 f. Dissertação (Mestrado) – Centro de Ensino Universitário de Brasília – UniCEUB, Brasília, Programa de Pós-Graduação em Direito, p.83.
252
REZEK, Francisco. Tribunal Penal Internacional. Revista CEJ. Brasília. nº 11. Disponível em: www.cjf.gov.br/revista/numero11/Painel VI. Acesso: 30 de março de 2007.
8.1 Autonomia versus Independência
É importante fazer uma diferenciação entre os atributos da independência e da autonomia.
De acordo com o Direito Administrativo, ”órgão” é uma unidade de atuação que se compõe de um conjunto de pessoas e meios materiais para a realização de atividades predeterminadas visando cumprir os objetivos para os quais foi criado.253
Fazendo analogia com a citada ciência jurídica, verifica-se que o Tribunal Penal Internacional é composto por órgãos que em conjunto desempenham suas atividades. Como já foi mencionado anteriormente, o Tribunal Penal Internacional é composto pela Presidência, Câmaras de Questões Preliminares, Câmara de Julgamento e de Recursos, Procuradoria, Secretaria e a Assembléia dos Estados- partes.
Segundo a valiosa lição de Hely Lopes Meirelles254, um órgão é independente
quando não tem qualquer subordinação hierárquica ou funcional. Já um órgão autônomo, é aquele que possui ampla autonomia administrativa, financeira e técnica. Desempenha suas funções de acordo com as diretrizes de um outro órgão, sendo a este subordinado.
Na verdade, o Ministério Público do Tribunal Penal Internacional é um órgão autônomo e não independente. Encontra-se subordinado ao Conselho de Segurança quando este órgão decide impedir ou interromper uma investigação ou processo, cujo pedido deve ser obedecido pelo Procurador. Pela conjugação de interesses políticos dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas o funcionamento do Tribunal pode ficar comprometido.
253
MEDAUAR, Odete. Direito Administrativo Moderno. 7ª edição. São Paulo: revista dos Tribunais, 2003, p. 57.
254
MEIRELLES, HELY Lopes. Curso de direito Administrativo Brasileiro. 26ª edição. São Paulo: