2 PSICOLOGIA MORAL E O DESENVOLVIMENTO DA ÉTICA DO CUIDADO
2.2 O DESENVOLVIMENTO MORAL HUMANO NA PERSPECTIVA DE CAROL GILLIGAN
2.2.4 Complementaridade entre as orientações morais e maturidade moral
próprias. Os interesses do ‘eu’ são tão legítimos quanto os interesses do outro. Por conseguinte, tem-se a combinação das duas orientações da moralidade – aceitação de visão de direitos e justiça junto com a percepção da interdependência cuidadosa e responsável entre os sujeitos – e o alcance da maturidade moral.
2.2.4 Complementaridade entre as orientações morais e maturidade moral
Se a luta por direitos das mulheres tem lhes proporcionado o alcance da maturidade moral e a modificação da ideia tradicional do ‘feminino’, no sentido de perceber a complementaridade entre a orientação moral derivada da voz padrão – de direitos e princípios – e a voz diferente – voltada para o cuidado responsável nas relações –, a inclusão das mulheres na esfera social e o reconhecimento de sua igualdade permite também uma redistribuição de poder que exige dos homens o desenvolvimento da voz relacional. Se na estrutura conceitual patriarcal homens são cobrados pela formação de uma identidade masculina enquanto sinônimo de virilidade e força, uma sociedade mais igualitária abre espaço para a expansão do sentido do masculino e para o entendimento de que homens, assim como mulheres, podem, ou não, ser fortes e vulneráveis, e devem ser sujeitos que cuidam de forma responsável de si e dos outros.
No que concerne especificamente ao desenvolvimento dos homens, a complementaridade implica a valorização de relacionamentos em detrimento da anterior relação existente entre sucesso e separação. O progresso no desenvolvimento de um ser humano não se constitui apenas de uma luta para atingir um destino glorioso e o reconhecimento
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social pelos feitos públicos, mas também pela maior atenção e cuidado dado àqueles com os quais se possui um vínculo de proximidade.
Gilligan critica a falta de atenção dada aos relacionamentos nos estudos sobre o desenvolvimento e adaptação à vida adulta de homens, nos quais o trabalho e o sucesso têm importância central. Os modelos para um ciclo de vida saudável são homens que parecem distantes nos seus relacionamentos interpessoais e incapazes de expressão de emoções. Os homens bem sucedidos têm sua capacidade de intimidade comprometida e as relações no nível afetivo empobrecidas404. Mas o reconhecimento da complementaridade permite mudar essa perspectiva masculina parcial.
Ainda acerca da omissão da questão da conexão com o outro e das relações no desenvolvimento, Gilligan acrescenta:
[...] parece que está faltando uma linha de desenvolvimento na descrição habitual do desenvolvimento da idade adulta, uma falha na descrição da progressão dos relacionamentos a caminho de uma maturidade de interdependência. Embora a verdade da separação seja reconhecida em muitos textos sobre o desenvolvimento, a realidade da conexão continuada perde-se ou é relegada para o pano de fundo em que aparecem as figuras das mulheres405.
Dessa forma, Gilligan defende que o ciclo de vida saudável de homens e mulheres envolve a proximidade nos relacionamentos. Intimidade com outros indivíduos, formação de amizades duradouras, por exemplo, são aspectos importantes na vida adulta que colocam o indivíduo em conexão com o outro e o afastam do isolamento e da indiferença406. A identidade do adulto torna-se completa se o modelo da conexão, da responsabilidade e do cuidado, bem como o modelo da separação e da compreensão lógica das relações é bem desenvolvido.
Com isso, chega-se à maturidade moral dos indivíduos adultos, conforme Gilligan acentua na passagem a seguir:
404 Ibid., p. 149-154. 405 Ibid., p. 155. 406 Ibid., p. 163-164.
A moralidade dos direitos apóia-se na igualdade e centra-se na compreensão da justiça, enquanto que a ética da responsabilidade se baseia no conceito de equidade, no reconhecimento de diferenças nas necessidades. Enquanto que a ética dos direitos é uma manifestação de respeito mútuo, equilibrando as reivindicações dos outros e de si mesmo, a ética da responsabilidade assenta em uma compreensão que dá origem à compaixão e ao altruísmo. Assim, o contraponto da identidade e da intimidade que marca o tempo entre a infância e a idade adulta articula-se através de duas moralidades diferentes cuja complementaridade é a descoberta da maturidade407.
Gilligan evidencia como a maturidade moral indica uma concepção de moralidade alargada e abrangente, de integração entre duas orientações morais. Integridade e igualdade, ambas derivadas de uma noção de direitos e de justiça, são combinados no cuidado com o outro, derivado da voz relacional, que enfoca a diferença entre os sujeitos morais e implica levar em conta a perspectiva do outro, não apenas a sua própria que pode ser bem diferente das necessidades do outro. O diálogo entre as vozes ou orientações morais do indivíduo permite chegar a decisões mais completas na moralidade, que não se atêm apenas a princípios absolutos, impostos de uma perspectiva externa à situação, mas também às especificidades contextuais – incluindo a realidade de vida das pessoas em um determinado momento histórico408. Gilligan denomina esse processo especificamente de uma relativização da igualdade em termos de equidade na consideração moral. Ou seja, a igualdade não perde seu valor, mas passa a ser interpretada a partir da noção de equidade, onde o cuidado de si e do outro, bem como os próprios direitos e o dos outros, são colocados numa situação de balanceamento equitativo e variável de acordo com as necessidades de cada situação.
Em suma, a maturidade para ambos os sexos situa-se na compreensão da complementaridade entre as duas orientações morais. Ambas permitem entender que se, por um lado, é uma questão de justiça que todos os sujeitos morais tenham direito à igual consideração, por
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Ibid., p. 164-165. 408
outro lado, é uma questão de responsabilidade dar atenção e cuidado às suas necessidades. A inserção das mulheres na sociedade têm permitido o diálogo entre homens e mulheres, além do reconhecimento por parte delas da importância dos direitos que adquiriram, os quais lhes asseguram a participação social. Elas passam a conviver mais com princípios e regras e, ao mesmo tempo, tem um espaço maior para desenvolver o cuidado, diante do crescente número de situações que lhes permitem assumir a responsabilidade na tomada de decisões. Ao exercerem o seu raciocínio, as mulheres começam a apresentar questões de responsabilidade nas relações sociais, oferecendo um caminho complementar à abordagem de regras e princípios na moralidade. Ao mesmo tempo, homens podem perceber a importância da intimidade, do relacionamento e do cuidado responsável pelo outro, para além da mera aplicação de princípios e regras. Com, isso, tem-se uma representação mais completa das relações morais nas diferentes esferas e grupos sociais. E, a partir disso, é também possível buscar uma teoria moral caracterizada pela completude ou pela complementaridade.
Importa salientar, por fim, que uma sociedade democrática e não- patriarcal, onde a distribuição do poder entre os sexos é primordialmente igualitária e a ordenação social e dos gêneros não se dá a partir de relações de domínio e subordinação, o alcance da maturidade moral e a percepção da interdependência como base da moralidade são alternativas concretas.
2.3 CONSIDERAÇÕES FINAIS DO CAPÍTULO
Ao longo deste capítulo destacou-se a importante contribuição do trabalho pioneiro de Kohlberg – movido pelo ideal do próprio psicólogo de combater a injustiça no mundo – para a psicologia moral, incluindo elementos da filosofia e da sociologia em sua concepção. Procurou-se mostrar uma certa incompletude e parcialidade em sua concepção de desenvolvimento moral humano ao focalizar estritamente a relevância de um certo tipo de raciocínio e do julgamento moral, baseado no respeito à pessoa e em uma concepção de justiça, seguindo uma certa tradição filosófica que tem como destaque a teoria moral de Kant. Ao apontar os limites da concepção de Kohlberg, buscou-se argumentar a favor da tese de Carol Gilligan sobre o desenvolvimento moral. Mostrou-se que o que Kohlberg representa como um problema no desenvolvimento moral de meninas e que, por conseguinte, constituiria uma base para indicar a existência de uma disparidade entre a
experiência moral de mulheres e homens na representação do desenvolvimento humano, é apenas um problema na própria representação. Em outras palavras, é um problema de parcialidade da escala de desenvolvimento que não acessa todas as potencialidades em termos morais dos sujeitos.
Tratou-se, então, da abordagem de desenvolvimento moral de Gilligan e da identificação por ela realizada de uma voz diferente que guia, em geral, as mulheres na tomada de decisões morais. Essa voz diferente corresponde à voz do cuidado e da responsabilidade nas relações. Muitos sujeitos morais, ao invés de se guiarem primordialmente por uma noção de justiça, e os direitos e princípios morais que dela se possam derivar, abordam problemas morais com base em uma conexão ou ligação que sentem em relação ao outro. Ao tomar uma decisão moral, buscam equilibrar as necessidades de si mesmo e do outro, sem romper essa relação de cuidado responsável.
Gilligan não propôs de fato uma teoria moral. Ela apresenta uma descrição acerca do desenvolvimento moral e sugere em que direção uma teoria moral deveria ir, qual seja, a da complementaridade entre as vozes morais. Uma teoria moral precisa, então, abranger as duas orientações ou perspectivas da moralidade, o que se busca alcançar no último capítulo deste estudo por meio da proposta do princípio universalizável do cuidado e das reflexões sobre a integração entre cuidado com justiça e direitos. Dessa forma, ao construir uma compreensão ampla da noção de desenvolvimento moral, que considera as diferenças no desenvolvimento entre os seres humanos, Gilligan abre o caminho para propor uma ética que concilie a perspectiva de princípios e direitos com a da ética do cuidado e da responsabilidade nas relações. Tem-se, então, a possibilidade de pensar a compreensão de problemas morais, bem como sua resolução, de forma mais ampla, para além da aplicação de regras, princípios e direitos e para além da definição dos limites de gênero.
3 A CONCEPÇÃO DE ÉTICA DO CUIDADO DE NEL