I. L O Distrito do Pântano do Sul
3.1. A investigação de sistemas complexos
3.2.1. Componentes ambientais e efeitos sobre a saúde
O modelo de Lalonde, adotado como referencial nesta investigação, propõe uma análise do campo da saúde buscando superar a carência de um marco conceituai comum que permita separar os determinantes Jo processo saúde-doença em seus componentes principais. Este conceito contempla a decomposição do campo da saúde em quatro amplos componentes: biologia humana, meio ambiente, estilo de vida e organização da atenção à
saúde. Estes foram identificados mediante o exame das causas e dos fatores básicos da
morbidade e da mortalidade no Canadá, como resultado do modo como cada elemento afeta o grau de saúde no país. O componente ambiente envolve o social, o psicológico e o físico. No estilo de vida são considerados a participação no emprego, riscos ocupacionais, os padrões de consumo e os riscos das atividades de lazer. A biologia humana inclui a maturidade e o envelhecimento, os sistemas internos complexos e a herança genética. O sistema de organização dos serviços de atenção à saúde abrange os componentes
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preventivos, curativos e de recuperação das práticas assistenciais (LALONDE, 1996, op. cit.). Para o autor, o componente ambiental inclui todos os fatores relacionados com a saúde que são externos ao corpo humano e sobre os quais a pessoa tem pouco ou nenhum controle:
“Os indivíduos, p or si mesmos, não podem garantir a inocuidade nem a pureza dos alimentos, cosméticos, dispositivos de abastecimento de água, p or exemplo. Tampouco está em suas mãos o controle dos perigos para a saúde que representam a contaminação do ar e da água, nem os ruídos ambientais, nem a prevenção da disseminação de enfermidades transmissíveis. Além disso, individualmente não se pode garantir a eliminação adequada dos dejetos e águas servidas, nem que o meio social e suas rápidas mudanças produzam efeitos nocivos sobre a saúde ” (LALONDE, 1996).
Uma pesquisa sobre mortalidade nos Estados Unidos foi realizada por Dever na década de 1970, aplicando o modelo de Lalonde. Trabalhando com taxas específicas de
mortalidade por doença e por grupo etário, identificou a contribuição de cada um dos quatros componentes para a mortalidade geral. Encontrou como resultados: o estilo de vida (43%), a biologia hximana (27%), o ambiente (19%) e os serviços de saúde (11%). A seguir estabeleceu comparação com os gastos federais em saúde, onde encontrou: estilo de vida (1,2%), biologia humana (7%), ambiente (1,5%) e serviços de saúde (91%), o que demonstrou a inadequação das alocações de recursos para o setor (CARVALHO, 1996).
A classificação dos componentes ambientais sob a ótica de saúde admite diversas possibilidades, apresentadas por diferentes autores. Em geral consideram os componentes físicos, biológicos e sociais. DEVER (1998) classifica de forma simplificada esses componentes. Considerados os riscos para a saúde que o ambiente comporta, os divide em físicos e sociais. Em ambos, muitos fatores diferentes, materiais e sociais, físicos, químicos ou biológicos podem constituir riscos ou ameaças à saúde:
COM PONENTES A M BIE N T A IS E RISCOS À SA Ú D E ( DEVER, 1998)
Com ponentes ^ R iscos à saúde
Físicos: Ar
Água Terra' Alim entos
Físicos; frio e calor
radiação ruído
Clima e tempo Químicos; metais
N ív e l de ruído substâncias químicas
N ível de radiação B iológicos; microrganismos
flora e faima
Sociais; Trabalho
Transporte Lazer Habitação
Família e com unidade
Sociais; cultura / costum es relações econôm icas estrutura social e política fatores habitacionais
Para o autor, embora os efeitos de alguns perigos ambientais estejam bem documentados, é geralmente difícil isolar os efeitos daqueles que são específicos, pois muitas doenças associadas com componentes ambientais, na verdade possuem uma origem multifatorial. Além disso, os fatores ambientais podem agir como variáveis intervenientes,
ou predispondo os indivíduos aos efeitos nocivos de outros determinantes da saúde ou estimulando estas causas. As categorias estilos de vida e ambiente agrupam o que chama de “ efeitos mórbidos da civilização”, não redutíveis a agentes ou fatores causais ou a redes de causalidades claramente delimitadas:
‘‘Trata-se antes de um complexo mórbido, onde causas e efeitos se confundem e se sintetizam num “certo modo de andar a vida". Os fatores alimentação, estresse, poluição, esgarçamento social (sociopatias), violência, sedentarismo, apresentam-se como ingredientes indissociáveis dos marcos culturais onde se inscrevem. Mais do que fatores de risco, trata-se de situações complexas, onde o risco não é mais externo ao indivíduo, mas se inscreve, com ele, num complexo único de múltiplas dimensões - biológico, social e cultural. Nem esse complexo é externo ao indivíduo, de modo que ele possa se proteger dos “fatores de risco” nele contidos, nem o indivíduo é mero portador de uma normatividade vital e biológica a protegê-lo contra agressões externas "(DEVER, 1998).
Segundo ROUQUAYROL (1986), para efeitos de análise estrutural epidemiológica, o termo ambiente tem maior abrangência que no campo da Ecologia. Além de incluir o ambiente físico, que abriga e toma possível a vida antrópica, e o ambiente biológico, que abrange todos os seres vivos, deve incluir o ambiente social, também sede de fatores que podem ser associados a doenças. Desta forma, a estruturação de fatores condicionantes da doença não é um simples resultado de justaposição: a associação dos fatores é sinérgica, isto é, dois fatores estruturados aumentam o risco de doença mais do que faria sua simples soma. O estado final provocador de doenças é resultado de uma sinergização de uma multiplicidade de fatores políticos, econômicos, sociais, culturais, psicológicos, genéticos, biológicos, fisicos e químicos. O estudo da influência exercida pelos fatores naturais do ambiente físico na produção de doenças tomou-se atualmente menos importante que o conhecimento da ação dos agentes aí agregados artifícialmente. O progresso e o desenvolvimento industrial criaram problemas epidemiológicos novos, resultantes da poluição ambiental. O ambiente físico que envolve o homem moderno condiciona o aparecimento de doenças cuja incidência se tomou crescente a partir da urbanização e industrialização:
“Em situações ecológicas desfavoráveis, algumas produzidas p o r fatores naturais, outras produzidas artificialmente pela ação do homem, algumas permanentes, outras contingentes, têm desenvolvimento os fatores fisicos, químicos e biológicos que, p or terem acesso à organização interna dos seres vivos, podem fitncionar para estes, como agentes patogênicos”. (...) “Se os ambientes fisico e biológico albergam fatores ainda não controlados, contribuintes para a geração de enfermidades, é também verdade que um bom nível socioeconômico como que neutraliza os fatores ambientais adversos presentes. A recíproca é verdadeira: um baixo nível socioeconômico
Segundo POSSAS (1989) a distribuição de determinantes relativamente homogêneos de risco de morbi-mortalidade em uma população configura um determinado
padrão epidemiológico. Esses determinantes podem ser identificados a partir da análise do
impacto epidemiológico (a expressão de doenças e mortalidade) associado às diferentes formas de inserção sócio-econômica (condições de vida e trabalho) a que a população está exposta em uma determinada sociedade. Neste sentido considera as categorias condições
de vida e estilo de vida. A primeira, que incorpora componentes ambientais, refere-se às
condições materiais necessárias à subsistência, relacionadas à dimensão espacial de ocupação do espaço urbano e rural, à morbidade, à densidade populacional nas periferias urbanas, às condições de alimentação, habitação, saneamento, transporte, entre outras. O
estilo de vida refere-se às formas social e culturalmente determinadas de vida que se
expressam no padrão educacional, alimentar, no dispêndio energético quotidiano, no trabalho e no esporte, em hábitos como fumo, álcool e lazer, entre outros fatores determinantes do processo saúde-doença.
A autora desenvolve xim modelo de análise epidemiológica relativo à incidência de diferentes classes de doença e agravos, segundo as condições de risco às quais as pessoas se expõem, no qual associa as categorias condições de vida e estilo de vida. Aponta para a convivência no espaço geográfico e econômico de populações submetidas simultaneamente à “modernidade” e ao “atraso”, que se traduz na existência de padrões epidemiológicos distintos, que refletem a heterogeneidade estrutural da sociedade brasileira.
A abordagem de FORATTINI (1976, 1980, 1992, 1996) valoriza os determinantes ecológicos na gênese e distribuição das doenças e agravos. Desenvolve um enfoque embasado na ecologia humana, considerando as relações entre as populações humanas e o ambiente e suas implicações epidemiológicas. Os fatores ambientais são analisados segundo os diferentes ecossistemas humanos, naturais ou transformados. Entre os ambientes transformados pela ação antrópica, caracteriza os ecossistemas rurais-
agrícolas, que denomina exportadores, e os ecossistemas urbanos, que chama de
importadores ou consumidores, em função do fluxo energético de trocas, que resulta em
estruturas definidas e peculiares. As comunidades de seres vivos que os compõem desenvolvem-se em determinados habitats ou ecótopos, aos quais se integram. O autor
identifica perfis epidemiológicos característicos, nos quais as doenças ou agravos resultam dos diferentes modos de exposição humana aos diferentes fatores de risco existentes nestes ecossistemas. Desenvolve a noção de ecologia da doença, como sendo o encadeamento dos determinantes de natureza física, biológica ou social propiciatório das condições necessárias para a ocorrência da doença e também do nível de qualidade de vida. O conceito é aplicável também aos agravos não-infecciosos, incluindo a exposição, a susceptibilidade dos seres humanos e as características do meio, determinados por diversos fatores. Para que esta trama atue no sentido do resultado final ser o agravo à saúde, pressupõe a existência de uma situação preexistente e necessária a seu desencadeamento.