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I. L O Distrito do Pântano do Sul

3.3. Saúde e território

3.3.9. Interfaces e conflitos ambientais

Segundo a OPS (1999), entende-se por conflito ambiental a incompatibilidade de interesses que surgem a propósito da prevenção ou recuperação de um dano ambiental. Em um conflito ambiental podem-se distinguir três tipos de atores; os geradores (que provocam um impacto no ambiente e alteram negativamente o entomo e a qualidade de vida de outras pessoas, os receptores (os afetados diretamente) e os reguladores (quem legalmente têm a responsabilidade de diminuir ou anular a ação que provoca o dano ambiental).

Segundo PÉREZ (1995), o conceito ecológico de interface (ou ponto de intercâmbio de dois ou mais sistemas), aporta uma noção importante para renovar os estudos urbanos. As cidades são um âmbito experimental muito apropriado para aplicar o conceito de interfaces, pois constituem um sistema ambiental (natural e cultural) muito complexo e interativo. Segundo seu tipo de atividade na produção de informação ou no fluxo de matéria ou energia, pode-se classificar as interfaces em ativas ou efetivas e em

passivas ou latentes. As primeiras têm imia função aglutinadora; nelas a informação circula

e podem assumir o papel de centro, nó ou vínculo institucional. Nas cidades correspondem aos espaços públicos abertos, de máxima interação/comunicação social entre grupos diferentes, pontos de centralidade e diversidade cultural.

Em sua expressão negativa as interfaces podem ser reconhecidas como os pontos de máxima conflitualidade na dialética campo-cidade e como pontos de máxima conflitualidade na contradição centro-periferia.

Para o autor, o ecossistema urbano convive conflitivamente com seu ecossistema vizinho, o meio rural. Entre ambos existe uma interface peri-urbana, na qual se produz o consumo de matéria (solo) e também decomposição e degradação; férteis solos rurais, bosques antigos ou recursos e paisagens valiosas são suprimidos, destruídos ou contaminados pela ocupação intensiva do solo e pelas atividades urbanas.

As interfaces passivas são predominantemente físicas e têm uma função de separadores, borda ou limite entre o tecido urbano e seu entomo ou no interior do mesmo.

São fundamentais como “tampões ecológicos”, para evitar a urbanização sem limites, e como fronteira para coadjuvar os núcleos de interface ativa. Mas também se comportam como ecótonos, nos quais os sistemas limífrofes descarregam todos os seus dejetos e agressividade e são zonas depredadas e degradadoras de todo o sistema. Contudo, potencialmente podem assumir novos papéis informacionais; sedes de instituições, sedes de emprego, áreas para infraestrutura de mobilidade, para reserva ecológica, barreiras para a urbanização descontrolada, reserva de solos para uso futuro, etc. Podem tomar-se áreas de interesse natural ou de produção rural importante, assumindo distintos significados e usos no processo de rearticulação intra-urbana.

Segundo PESCI (1995) as interfaces são sede de conflitos que configuram interrelações entre dois ou mais sistemas. A crise de um ecossistema não reside em seu interior, mas em sua interação com os sistemas vizinhos. Os sistemas naturais são sistemas vivos abertos, vivem de sua retroalimentação. Portanto, ao negar-se a interface, nega-se a retroalimentação e morre o sistema. A degradação das interfaces naturais acarreta graves conseqüências ecológicas. Sua desconsideração pode até mesmo provocar catásfrofes naturais. Por exemplo, onde passa o caudal de um rio, ao assentar-se a população em sua margem, cria-se um problema; se a população se instala sobre um morro, pode provocar deslizamentos, erosões. Respeitando-as toma-se possível criar corredores naturais de faima e flora, de ar, de clima (corredores ecossistêmicos), conceito moderno de conservação da biodiversidade. Uma cidade multipolar, que permita papéis diversos é reconheça seus subsistemas, deve enfocar antes de tudo seus problemas de interfaces. A visão da cidade como um sistema de interfaces implica em articular suas partes respeitando as interfaces da natureza, não em sua negação. (3)

3.4. Notas

1. Este trecho da obra de Ribeiro de Ahneida revela suas convicções miasmáticas e sua postura moralista sobre o modo de vida da população pobre da cidade do Desterro:

“Há nesta cidade três bairros de triste apparência, onde se achão reunidos todos os elementos da insalubridade. São os bairros da Tóca, Pedreira (com os becos adjacentes à Tronqueira) e finalmente a famoza Figueira. Encontrão-se nestes bairros, casinhas bem inferiores as senzalas de pretos de certas fazendas; tão pequenas, imundas, esburacadas e enfumaçadas são elas. A Tóca, situada na encosta da montanha do Menino Deos e na praia que a circunda, é

habitada p o r toda uma prolífica população de pescadores. Entre as casas que habitão, algumas há, que podendo em rigor abrigar 2 pessoas, accomodão o quádruplo ou quíntuplo. As mulheres são lavadeiras (em geral) e conseguintemente tem de guardar em casa roupa molhada, sua ou alheia; ora, como se avalia em um litro (uma garrafa) a quantidade d ’água que impregna um kilograma (2 libras) de roupa, acha-se que tão somente para dez kilogramas (20 libras) de roupa serião necessários muitos centenares de metros cúbicos de ar, para se dissipar a quantidade d ’água correspondente, o que não se conseguiria nem no mais vasto aposento. Resulta d' isto, que a humidade, que pouco a pouco se vai evaporando, satura o ar e impregna tudo, até a própria cama. Além da roupa lavada, guarda-se nessas casas peixe e os utensílios da pesca, tudo molhado e exhalando cheiro característico de maresia.

Na praia vê-se a cada passo immundícies, como nos outros dois bairros, accrescendo detritos de peixes e também de plantas marinhas, que vêm presas às rêdes e atiradas depois à praia. Este bairro habitado p or gente dada ao trabalho, mas pouco amiga do a ceio , é dizimado p o r todas as epidemias que aqui aparecem. Nelle encontrão-se constantemente diversos charcos d ’água, provenientes de restos de lacrymaes da montanha do Menino Deos, que as lavadeiras reprezão, esquecendo-se a mór parte das vezes de dar-lhes depois esgoto. No ponto da praia em que termina a rua do Menino Deos e começa a Tóca, vem desaguar (ou antes chega até a praia) uma valia ou canal contendo águas primitivamente derivadas de uma pequena fonte na montanha; apezar de seu curto trajecto, graças às lavagens, despejos e reprezas, são as suas águas immundas, verde-negras e fétidas. Estas águas não têm correnteza, p o r isso na embocadura do canal accumula-se areia, que as toma perfeitamente estagnadas, nas melhores condições para a decomposição das matérias orgânicas. (...) Estas margens, quasi desde a origem do arroio, servem de depósito de immundícies, mas é sobretudo da rua do Vigário para o mar, que se observa em maior escala semelhante abuzo. O que ahi se vê é realmente inaudito: p o r toda a parte montes de lixo já estratificado; lagos de ourina podre em alguns pontos (na beira de um riacho l) ; aqui e ali cadáveres dispersos de cães, gatos, ratos, gallinhas e em períodos mais ou menos avançados de putrefacção.(....) Na praia da Figueira se passa p o r uma pequena ponte, sob a qual se vê a terminação da valia que conduz ao mar as águas que vêm da fonte da Palhoça. Resulta disso a mais completa estagnação das águas dessa valia, que é depositária de todas as immundícias da visinhança. Essas águas verde-negras, fétidas e immóveis parecem estar protestando contra quem permitte que ellas se assim conservem, com notável prejuízo da saúde pública. 0 solo destes três bairros, impregnado como se acha de matérias orgânicas em decomposição, exposto aos raios do sol, exhala cheiro pestilencial. Em tempo chuvoso, a água, acarretando essas matérias orgânicas vai filtrando p ela terra dentro ( sobretudo nos lugares beira-mar onde não predomina a argila) e assim chega aos poços visinhos, cujas águas deve alterar necessariamente "(ALMEIDA, 1864).

(Mantida a ortografia original).

2. "Acompanhando as mudanças que se operavam na paisagem da cidade passou-se a definir

algumas atitudes cotidianas, como pendurar e gaiolas nas janelas e fachadas das casas, o trânsito de carregadores, vendedores ambulantes e "camelôs", a criação de galinhas, a existência de bananeiras nos quintais, entre outros modos de utilização do espaço urbano, como práticas que não condiziam com a vida de uma capital. Diversos usos e ocupações da cidade passaram a ser retratados como uma espécie de sobrevivência de tempos antigos, que insistiam em permanecer no cotidiano de Florianópolis. Isto era especialmente enfatizado quando se tratava dos modos de vida da população de pescadores, lavadeiras, biscateiros, carregadores, cavoqueiros, trabalhadores do porto, marinheiros, etc., os quais, na sua maioria, habitavam os bairros da Toca, da Tronqueira, da

Figueira e da Pedreira ” (ARAÚJO, 1999).

3. A identificação das interfaces no território em estudo, principalmente as passivas é um recixrso útil para a detecção de conflitos ambientais, os quais geralmente resultam em situações de risco para a saúde, direta ou indiretamente, de forma imediata ou retardada. A interface urbano-rural pode favorecer a ocorrência de zoonoses, a interface urbana com rios gera zonas inundáveis. Nesse sentido ressalta-se que o território é rico em interfaces conflitivas e pobre em interfaces ativas. Entre as primeiras, a orla das praias, as encostas dos morros, pelo modo de ocupação degradadora do ambiente. As segundas, pela carência de espaços abertos, como praças, áreas e equipamentos públicos de lazer, ciclovias ou mesmo espaços de livre circulação nas praias, devido ao processo de privatização máxima e desordenada de todos os espaços

possíveis, permitida e mesmo estimulada pelo poder público. Quando são construídos equipamentos urbanos para lazer (anchas esportivas) ou mesmo com propósitos sanitários (estações de tratamento de água ou de esgotos), geralmente são ocupados e degradados os espaços naturais, que deveriam ser conservados como tal, mantendo-se como interfaces positivas com o entomo não-xu-bano.

CA PITU LO 4. M ETO D O LO G IA