2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.4 Fundamentos da abordagem dos modos de vida
2.4.1 Componentes dos modos de vida
Na abordagem dos modos de vida, os recursos correspondem a um conjunto de a) ativos ou capitais, b) capacidades e c) atividades agrícolas ou não agrícolas necessárias para se obter um meio de vida (CHAMBERS; CONWAY, 1992; ELLIS, 2003). Esses recursos proporcionam ao indivíduo ou grupo familiar potencializarem suas estratégias de subsistência, que será sustentável, se conseguir se restabelecer de tensões e choques, garantir recursos para as futuras gerações e até mesmo manter e melhorar suas capacidades e ativos (KOLLMAIR; GAMPER, 2002; PERONDI; SCHNEIDER, 2012).
As atividades praticadas pelas pessoas podem ser diversas e dizem respeito ao que as pessoas fazem baseado no repertório de ativos que possuem (CHAMBERS; CONWAY, 1992). Os ativos representam elementos de base para a construção dos meios de subsistência, ou seja, são o ponto de partida, onde sua disponibilidade interfere nas atividades criadas pelas pessoas para a sua sobrevivência (SITOE, 2011). Os ativos são classificados em cinco ou mais tipos possuídos ou acessados pelos membros das famílias. Os mais frequentes são (KOLLMAIR; GAMPER, 2002; SITOE, 2011; PERONDI; SCHNEIDER, 2012):
a) Ativo natural – é atribuído aos recursos naturais como solo, água, ar, florestas, etc. e serviços ambientais como ciclo hidrológico, sumidouros de poluição etc., dos quais as pessoas utilizam para sua sobrevivência. É fundamental para famílias que derivam sua subsistência atividades baseadas nos recursos naturais.
b) Ativo físico – compreende as infraestruturas básicas e bens de produção necessários para dar suporte aos meios de subsistência como transporte, saneamento, energia, etc. Aspectos básicos que apoiam um melhor uso dos ativos disponíveis.
c) Ativo humano – representa a educação, habilidades, capacidades de trabalho, saúde, conhecimento, etc. É um ativo que pode expandir à medida que ocorre investimentos em educação e capacitação, assim como aptidões em uma ou mais ocupações produtivas. Considerado fator determinante já que influência o uso dos outros ativos.
d) Ativo financeiro – refere-se à disponibilidade de dinheiro, crédito, poupança, pensões, etc. que permite que as pessoas tenham a possibilidade de investir em diferentes estratégias de sobrevivência. É um dos ativos mais flexíveis, pois pode ser convertido em outro ativo ou pode ser utilizado para a aquisição direta de meios de subsistência (compra de alimentos). Todavia, é o ativo menos disponível em alguns grupos sociais.
e) Ativo social – diz respeito às redes e conectividades, ou seja, as relações familiares, associações comunitárias, organizações religiosas, cooperativas, etc. O capital social
impacta diretamente sobre os outros ativos, já que possibilita o aumento da confiança e da capacidade das pessoas em cooperar.
Para Bebbington (1999) os modos de vida são dependentes dos cinco ativos, porém não há uma homogeneidade no tipo de ativo necessário para a sobrevivência dos diversos grupos sociais, sendo necessário uma visão mais ampla dos principais ativos para diferentes pessoas em diferentes lugares, afim de classificar os mais relevantes e desvantajosos de investimento. Segundo Ellis (2003) nem todos os recursos utilizados pelas pessoas vão estar representados perfeitamente nos ativos. No entanto, eles auxiliam na interlocução entre tipos de ativos e as políticas. Por exemplo, o capital humano se interliga as políticas sociais como educação e saúde, já o capital natural se conecta as políticas ambientais e de uso da terra.
O acesso há um ativo pode gerar outros benefícios, por exemplo, o acesso à terra, permite as pessoas o uso livre de sua propriedade em diversas atividades, fortalecendo não só o capital natural, mas também o capital financeiro e social (KOLLMAIR; GAMPER, 2002). Porém, a interação de diferentes ativos pode enfraquecer a existência de outros, como por exemplo, investimentos em capital financeiro podem em algumas situações ser prejudicial para a qualidade ambiental e social enfraquecendo as formas como as pessoas acessam os seus recursos (BEBBINGTON, 1999).
Assegurar o acesso aos ativos, traduz-se em uma política de empoderamento, pois os ativos não se referem apenas a recursos que os indivíduos acionam na criação de meios de subsistência, na verdade são ativos que lhes proporcionam a capacidade de ser e agir (BEBBINGTON, 1999). Essa capacidade segundo Amartya Sen (1993) refere-se as várias combinações que uma pessoa pode fazer, ou seja, reflete a liberdade pessoal de escolher entre vários modos de viver. Essas capacidades segundo Perez (2005, p. 3, tradução nossa) “incluem tudo o que uma pessoa é capaz de fazer ou ser. Ser bem nutrido, escrever, ler e comunicar, participar da vida comunitária faz parte dessas capacidades”. Nessa perspectiva, além do acesso a equipamentos, tecnologia e dinheiro, a liberdade de escolher e realizar as coisas do modo que acharem mais pertinente na obtenção de bens e recursos também é levada em consideração na abordagem dos meios de vida.
Contudo, não se trata de qualquer recurso, mas aqueles que são mais importantes para as pessoas. Por isso, é necessário ir além das preocupações referentes a maneira como os ativos se transformam em renda, mas é importante também evidenciar seus reflexos no significado de bem-estar dos povos. Garantir um meio de vida congruente pode “melhorar as capacidades no sentido mais amplo do termo, fornecendo condições e oportunidades para ampliar as escolhas, diminuindo a impotência, promovendo o respeito próprio, reforçando
valores culturais e morais, e de outras formas, melhorando a qualidade de vida e experiência” (CHAMBERS; CONWAY, 1992, p. 8, tradução livre).
Por isso, Bebbington (1999) defende a ideia de mapear os diferentes ativos utilizados pelas pessoas em seus meios de subsistência. O que contribuiria para tornar mais assertivo e eficaz os investimentos públicos. Na visão de Ellis (2003), a identificação desses ativos é fundamental, pois ainda é um desafio para as políticas de redução da pobreza contemplarem os diversos e particulares meios de subsistência. Grande parte dessas políticas ainda são elaboradas de forma homogênea. Entretanto, como alerta Bebbington (1999) esse mapeamento poderia ser impreciso, pois as formas de subsistência das populações rurais passam por transformações, em especial pela perda de acesso a determinados ativos decorrentes de processos que evolvem aumento demográfico, políticas macroeconômicas, dentre outras. Talvez esse também seja um dos motivos que dificultem a elaboração e implementam de políticas públicas assertivas.