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Conhecimento tradicional, território e garantias de direitos

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.5 Revisão dos estudos sobre a comunidade do Cumbe

2.5.2 Conhecimento tradicional, território e garantias de direitos

O conhecimento local acerca do seu território e recursos esteve presente em vários estudos desenvolvido ao longo dos anos, porém nas investigações Pinto (2009); Dantas (2009); Pinto et al. (2013); Nascimento (2014) e Deprez (2015) essas discussões foram melhor abordadas trazendo para a bibliografia novas questões para se compreender a realidade do Cumbe.

Pinto (2009) em seu trabalho de conclusão de curso intitulado “Aspectos etnobiológicos na comunidade Sítio Cumbe as margens do estuário do rio Jaguaribe – Aracati – CE”, traz considerações sobre os conhecimentos tradicionais sobre a fauna e flora, informações presentes na literatura científica e as transformações de um território com a chegada da atividade de carcinicultura e como ela alterou a forma como a comunidade entendia o seu território. A autora faz um amplo debate sobre os impactos da carcinicultura sobre o ecossistema manguezal e sobre o rio Jaguaribe e sobre a importância desses recursos para a sobrevivência das famílias.

Os resultados indicaram um amplo conhecimento da população local sobre o seu território e sobre a dinâmica ecológica que integra os recursos naturais presentes na localidade. Nos relatos dos entrevistados é possível evidenciar um resgate da história da comunidade evidenciando a presença de índios e negros na região. Moradores identificaram o desaparecimento de algumas espécies da flora e da fauna, principalmente após a instalação das fazendas de camarão no manguezal e em áreas próximas a esse ambiente. Pinto acredita na importância de estudos etnobiológicos pela possibilidade de evidenciar os conhecimentos presentes nas comunidades tradicionais.

A tese de Dantas (2009) “Memórias e histórias de quilombolas no Ceará”, busca investigar o processo de territorialidade e identidade quilombola nas comunidades de Minador e Bom Sucesso, município de Novo Oriente e Cumbe em Aracati, todas localizadas no estado do Ceará. O estudo foi o primeiro a mencionar o Cumbe como uma comunidade quilombola,

porém, em seus estudos a autora se limitou a contextualizar a comunidade, caracterizando os seus processos ambientais, econômicos e sociais, mas não estabeleceu discussões com o processo de auto definição como quilombolas. Os debates propostos na tese seriam de suma importância nas discussões sobre a presença de comunidades quilombolas no litoral do Ceará, mas, como investiga outras comunidades os debates tornaram-se vagos e inconclusos.

Buscando compreender a relação da comunidade com o seu território através da etnozoologia Pinto et al. (2013) no artigo “Qual a relação entre etnozoologia e o território”, tece importantes contribuições na identificação da fauna local, classificando-a de acordo com o conhecimento local, os diferentes tipos de habitat e as relações que os moradores desenvolveram com a fauna e o ambiente de forma geral.

Indo além dos estudos etnobiológicos de Pinto (2009), a investigação de Pinto et

al. (2013) é a primeira pesquisa sobre o Cumbe a abordar a importância da delimitação

territorial a partir do conhecimento local para a garantia de direitos. Assim, com o auxílio da comunidade, os autores realizam uma proposta de delimitação territorial a partir da criação de ecozonas, identificando a fauna e os ambientes utilizados pela população como o manguezal, dunas e o rio expondo a importância desses ambientes para o sustento das famílias. Na delimitação territorial não há indícios de uma proposta já voltado para a regularização do território quilombola, em especial porque em 2010, 86 famílias oficializam a auto definição junto aos órgãos federais solicitando a titulação das terras ocupadas.

Debatendo sobre o racismo ambiental a partir do olhar das mulheres Nascimento (2014), em sua dissertação “Processos educativos: as lutas das mulheres pescadoras do mangue do Cumbe contra o racismo ambiental”, discute como e de que forma as mulheres pescadoras e marisqueiras veem a privatização de seus territórios e como essas experiências podem se tornar um espaço educativo a partir da contextualização da realidade vivenciada pelas mulheres que dependem diretamente dos recursos naturais para a manutenção de seu modo de vida.

Nascimento (2014) destaca a importância do conhecimento produzido dentro da comunidade, que muitas vezes não é considerado, por não ser construído nas dependências da universidade. Aponta que, a valorização desse tipo de conhecimento é fundamental para a defesa dos territórios comunitários. Ao longo de seu trabalho disserta sobre a resistências das mulheres e como a resistência aos empreendimentos podem ser utilizados como processo educativo e de defesa do território. Apesar de afirmar, em diversas partes do texto, que se tratava de uma comunidade quilombola, e de certa forma, abordar questões gerais sobre os quilombolas do Brasil, pouco foi falado sobre a auto definição de parte dos moradores da comunidade, da

criação da associação quilombola e até mesmo dos conflitos internos em torno do processo de auto definição.

Outro estudo que se propõe discutir a identidade quilombola no Cumbe é a dissertação de Deprez (2015) intitulada “Ao abrigo da tradição? Identidade e sustentabilidade em comunidades litorâneas do Ceará com regimes de proteção do território”. O estudo se propõe a analisar o processo de construção de identidades e da consciência ambiental na comunidade do Cumbe e na Reserva Extrativista do Batoque e as diversas ameaças vivenciadas pelas comunidades. Todavia, as mesmas lacunas evidenciadas nos estudos de Dantas (2009) referente a ausência de discussões sobre a identidade quilombola, a criação da associação e os conflitos internos após a auto definição foram observadas na investigação de Deprez. O autor ao final da caracterização da comunidade apenas menciona o recebimento da certidão de auto definição como quilombolas, mas não discute como a identidade quilombola tem sido vivenciada por parte da comunidade e como essa identidade tem gerado conflitos intracomunitários. O estudo não contemplou informações fundamentais na compreensão da identidade de um grupo.