2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.4 Fundamentos da abordagem dos modos de vida
2.4.2 Diversificação dos modos de vida
As populações tradicionais em diversas localidades globais são vistas como grupos que desenvolviam atividades ligadas à sua subsistência com ocupações, que de forma geral estavam predominantemente ligadas ao campo (DFID, 1999). Atualmente, há um processo de transformação no espaço rural, com a expansão de atividades não-agrícolas e a identificação de distintas formas de uso do espaço (SCHNEIDER, 2003; 2007). Mesmo sendo diminuto o número de estudos que atestam a relevância dos agricultores familiares “como atores sociais e percebam em sua capacidade de diversificação econômica e empreendedora, pistas para compreender o desenvolvimento rural e regional como um todo” (PERONDI; SCHNEIDER, 2012, p. 133), refletir a agricultura familiar, é valorizar as numerosas estratégias empreendidas pelas famílias, tanto relacionadas a sobrevivência como de acumulação de capital (TERNOSKI; PERONDI, 2014).
A diversificação diz respeito a estratégias pluriativas presentes nos estabelecimentos familiares e refletem questionamentos sobre a pobreza (PERONDI; SCHNEIDER, 2012). Na abordagem dos modos de vida, o tema diversificação ganha destaque. Estudiosos entendem que analisar a composição da renda a partir dos modos de vida é progredir na compreensão das estratégias que as famílias empreendem para garantir suas fontes de renda. Essas estratégias relacionam-se desde atividades agrícolas e não agrícolas, dentro e fora de seu
núcleo familiar (PERONDI, 2007; PERONDI; SCHNEIDER, 2012; TERNOSKI; PERONDI, 2014).
Muito do que se há discutido na literatura atualmente sobre diversificação baseia- se no conceito liderado por Frank Ellis (1999; 2003) que centra seus estudos na capacidade das pessoas em diversificarem seus meios de subsistência, uma capacidade que possibilita a criação da diversidade. Para o autor a diversificação corresponde a um “processo pelo qual as famílias constroem um portfólio diversificado de atividades e capacidades de apoio social para a sobrevivência a fim de melhorar seu padrão de vida" (ELLIS, 1999, p. 2, tradução livre), onde a ampliação das possibilidades de renda oportunizam novos caminhos frente a cenários de riscos (TERNOSKI; PERONDI, 2014).
Perondi e Schneider (2012) entendem a capacidade de diversificação como uma prática benéfica para os grupos familiares, pois simboliza uma possibilidade de enfrentamento a contextos de precariedades, assim como uma escolha intencional por novas alternativas de renda e de autoconsumo. A diversificação amplia as chances e oportunidades de escolha, o que colabora para que a família desenvolva mais estratégias de sobrevivência e evolua em sua capacidade de resiliência. A diversificação também proporciona a flexibilidade, resiliência e estabilidade, onde os sistemas diversificados são menos vulneráveis do que os não- diversificados. Atenuando a pressão sobre o uso de recursos naturais já que ocorreria uma alternância de atividades incluindo as não agrícolas e um maior controle das práticas tradicionais nesses ambientes, contribuindo para uma melhor planejamento e gestão dos territórios tradicionais (ELLIS, 1999). Vadjunec et al. (2016), esclarecem que um melhor conhecimento dos modos de vida de pequenos produtores rurais implica em apoiar o uso sustentável dos recursos naturais, bem como adequar políticas públicas para reduzir as desigualdades econômicas e vulnerabilidade às mudanças climáticas e outros choques externos. Para Ternoski e Perondi (2014, p. 294) “os modos de vida mais diversificados contribuem para o aumento da segurança, principalmente em longo prazo por permitir facilmente adaptações e substituições de sistemas decadentes”. Porém, a existência da diversificação vai depender do acesso aos ativos, já que são pontos chaves na compreensão dos meios de subsistência (HAAN; ZOOMERS, 2005). Bebbington (1999) esclarece que o acesso aos ativos representa o elemento mais importante para os modos de vida. Inclusive, discussões acerca da disponibilidade de acesso ao ativo permeia os debates sobre a abordagem dos modos de vida e diversificação, principalmente porque limitações de acesso inviabilizam os meios de subsistência dos grupos familiares.
Na diversificação, igualmente encontram-se desvantagens, como expõe Ellis (1999) e Ternoski e Perondi (2014) em alguns estudos empíricos como a não garantia de uma partilha igualitária da renda, podendo ocorrer um distanciamento de rendimentos entre as famílias, onde famílias mais ricas tendem a se destacar frente as famílias mais pobres pela possibilidade de um acesso maior aos ativos e o abandono ou estagnação da produção agrícola quando a mão de obra tem que se deslocar para lugares distantes do núcleo residencial para o desenvolvimento de atividades não agrícolas, impossibilitando que a força de trabalho realize atividades ligadas ao preparo da terra, plantio, etc. pelo esgotamento físico.
No geral, os aspectos positivos da diversificação sobrepujam os negativos, contribuindo positivamente para a superação da pobreza, já que pode proporcionar formas mais autônomas de desenvolvimento local, ampliando as escolhas e opções de atividades (ELLIS, 1999), como aponta Nierdele e Grisa (2008) à existência da diversificação aliada à expansão de atividades incluindo os ativos disponíveis na própria unidade familiar, permite a diminuição da dependência das populações locais a recursos controlados por agentes externos. Perondi e Schneider (2012) até supõem que famílias que possuem um repertório restrito de fontes de renda e de atividades encontram-se em um estado maior de vulnerabilidade. A falta de autonomia e a susceptibilidade a fatores imprevisíveis como clima, seca, pragas, etc. constituem ameaças a liberdade de escolha e de continuidade da soberania sobre os meios que lhes permitem exercer essa condição.
Nesse contexto, busca-se na abordagem dos modos de vida elementos para a compreensão das estratégias de sobrevivência empreendidas pelos grupos familiares do Cumbe. Para isso, foram analisadas as fontes de renda e de autoconsumo, bem como as mudanças ocorridas no território após a instalação das fazendas de camarão e do parque eólico, evidenciando os impactos que a instalação desses projetos ocasionaram aos meios de subsistência das famílias, favorecendo novos caminhos para a intervenção a nível local. Essas discussões foram expostas ao longo dos capítulos que compõem a tese.