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CAPÍTULO 3 A DISLEXIA AO NÍVEL ESCOLAR

5. Comportamentos e problemas escolares associados

Após uma breve descrição das caraterísticas da problemática, passamos à análise dos comportamentos apresentados pelas crianças disléxicas e os problemas escolares que advêm desta problemática.

Toda a nossa vida escolar é afetada, pelos primeiros anos de escolaridade. É comum lembrarmo-nos da nossa professora primária, do seu nome e até das suas caraterísticas. Estes anos são determinantes para a sua escolaridade e para o seu sucesso escolar. É fundamental que a iniciação à escolarização de qualquer criança não apresente experiências frustrantes, quer para ele quer para o seu o professor.

É frequente ouvirmos os professores do ensino básico comentarem que não sabem o que fazer com certos alunos, que embora apresentem níveis de inteligência normais ou até, acima da média. Mostram um desenvolvimento normal, mas que apresentam dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita. Torna-se assim notório, a importância que tem o conhecimento das características destas crianças, para o desempenho do professor, que se irá refletir na

aprendizagem do seu aluno. Em geral, as características da dislexia podem agrupar-se em dois grandes blocos: comportamentais e escolares (Torres e Fernández, 2001).

Sendo uma das principais características desta problemática a prevalência de uma inteligência normal ou cima da média, leva a que as crianças tenham perfeita noção das suas dificuldades, originando como refere Thomson (1992, citado por Torres e Fernández, 2001) um traço comum, a ansiedade, a qual pode manifestar-se: quando a criança assume de forma extrema o seu problema, observando-se então um baixo autoconceito, aparecendo condutas típicas de etapas ou anos anteriores e perturbações psicossomáticas, como problemas de sono, problemas digestivos, alergias, etc. ou quando tenta compensar o seu problema ou fracasso escolar através da procura de popularidade ou manifestando comportamentos agressivos para com os colegas.

Nesta linha de ideias Lobo Antunes (2009), refere que quando uma criança entra para a escola inicia o processo de competição que só acaba na reforma. Pela primeira vez vai ser comparada, qualificada, posta à prova em público. A entrada na sala de aula é idêntica à que fará mais tarde ao ultrapassar a porta da fábrica, do escritório, do emprego. O problema que se coloca é que na maioria das vezes ela sai a perder, essa consciência pode afetar o seu tipo de personalidade na sala de aula, fazendo-se notar pela inibição, insegurança, agressividade, distração, etc., levando o professor a procurar a causa do problema, mas estes comportamentos são as consequências. Em geral, a maioria das crianças disléxicas mostra-se insegura ou excessivamente vaidosa, em consequência do seu problema escolar, exibe uma atenção instável, consequência da fadiga que advém do empenho na superação das dificuldades preceptivas e um grande desinteresse pelo estudo, dado que geralmente o rendimento e as classificações baixas provocam falta de motivação e de curiosidade, (Torres e Fernández, 2001).

Este tipo de comportamento são facilmente compreendidos, porque o facto de a sociedade atual ter convertido a leitura numa necessidade básica, como comer e dormir, e considerando que a maior parte dos seus colegas, conseguem ler razoavelmente bem e fazem-no automaticamente, sem se darem conta das inúmeras acrobacias que vão acontecendo nas suas mentes, para um disléxico esse processo representa um esforço acrescido, que nem sempre é visto, nem reconhecido.

Em relação às características escolares que influenciam os comportamentos, Cruz (2007) refere que com base na análise dos resultados de diagnósticos e de observações de Jonson e Myklebust (1991), prevalecem várias características entre as pessoas que têm dislexia visual. E que também existem vários problemas característicos das pessoas com dislexia auditiva. Assim, a tabela 1 apresenta um resumo das características de cada um dos subtipos de dislexia.

Subtipos de dislexia Características do comportamento

Dislexia Visual

 Dificuldades na interpretação e diferenciação de palavras;

 Dificuldades na memorização de palavras;

 Confusão na configuração de palavras;

 Frequentes inversões, omissões e substituições;

 Problemas de comunicação não-verbal;

 Dificuldades na perceção espacial;

 Dificuldades em relacionar a linguagem falada com a linguagem escrita.

Dislexia Auditiva

 Ploblemas com os sons;

 Não associação dos símbolos gráficos com as suas componentes auditivas;

 Não relacionamento dos símbolos gráficos com as suas componentes auditivas

 Não relacionamento dos fonemas com os monemas (partes e o todo da palavra);

 Confusão de sílabas iniciais, intermédias e finais;

 Problemas de perceção auditiva;

 Problemas de atenção;

 Dificuldades de comunicação verbal.

Tabela 1 – Sintomas mais característicos de cada subtipo de dislexia segundo Fonseca (1999)8

O difícil processo de apreender a ler, exige não só uma maturação de estruturas de comportamento, como também uma aprendizagem prévia que possibilite à criança o prazer dessa experiência. Esta está dependente da forma como as crianças manifestam as suas dificuldades. Uma criança poderá revelar dificuldades visuais ou auditivas, como pode

apresentar problemas em ambas as áreas de processamento de informação. Nada impede que a criança utilize a expressão oral, só que a integração e a assimilação da linguagem escrita encontra-se comprometida, podendo afetar o seu desenvolvimento cognitivo (Fonseca, 1985, p.

360). Assim o professor antes de orientar a sua aprendizagem de acordo com as suas necessidades específicas deverá conhecer os comportamentos que esta problemática provoca. Pois são aspetos muito importantes para que um aluno com dislexia seja diagnosticado precocemente e beneficie de uma intervenção adequada. A preocupante falha na identificação de crianças com problemas de leitura, origina um diagnóstico tardio, porque frequentemente já passou a idade ideal para iniciar a intervenção, e o funcionamento cerebral é muito mais plástico em crianças mais jovens. É muito comum as escolas só diagnosticarem as crianças disléxicas no 3º ano de escolaridade, e tal como refere Shaywitz (2008, p. 41) as suas dificuldades são muito

mais difíceis de remediar.