À P
rofess
Rio de Janeiro, 18 de junho de 2018. Querida professora Sueli,
gradeço a oportunidade de participar de seu trabalho e espero que nosso diálogo possa contribuir na sua formação, humana e amorosa.
Vou ser bem objetiva, espero conseguir, indo direto ao assunto. O gênero epistolar é bacana, por isso o percebo com uma liberdade fantástica, que até outros gêneros tem, mas este tem direção certa.
Você enuncia com muita força a necessidade de mostrar a dor, ouça:
Dolorosa: nefasta palavra que revela a dor. Dela desejava fugir, manter distância, pois conheço bastante da sua face impiedosa. No entanto, como impedir a vida e o movimento que se faz na experimentação da escrita?
Suas palavras me trouxeram muitos desassossegos, pois fiquei pensando na adolescente que eras, aquela que escrevia dissertações longas, que tinha um caderno de poesias e fazia letras de músicas com os amigos do Colégio Pedro II. Em que momento da sua história passou a sentir dor ao escrever? E por que questiona sua escrita, como escreve, por que escreve? Gostaria muito que dividisse isso, está com medo?
A vida parece estar sempre nos pregando surpresas, não é verdade, professora? Creio que seria muito interessante você conversar com os meninos e as meninas do CIEP que trabalhou no município do Rio de Janeiro. O Josué, o Igor e a Lylha para saber que escrita você buscou ensiná-los. Menciono essas crianças, que a essa altura são adolescentes, e conforme você me disse, autorizaram a compartilhar suas histórias nas cartas. Pense nisso, talvez a melhor maneira de avançar seja dando um passo atrás. Depois me conta.
Retornarei diversas vezes nas suas cartas, não me prenderei a nenhuma ordem, deixarei as ideias dançarinas em passos desordenados de uma dança, a rumba. É uma proposta sua, fundamentada em Nietzsche, e reverberaram em mim, pois um dos meus grandes sonhos de criança era o de ser dançarina.
A escolha desta dança é pura preferência, gosto muito porque exige dos dançarinos uma complexidade nos gestos, na harmonia. Além é claro do movimento caliente. Aproveito para puxar outro fio já que falei em sonhos.
Você me deixa em dúvida acerca do conhecimento da proposta de formação do Mestrado quando escreve assim:
Mas, por que iniciar por algo que, vocês já sabem, até porque estão imersos nesse universo? Para dizer que este texto é resultado desse ritual?
Será que pode me esclarecer, professora? Também tenho uma curiosidade, por que a essa altura da sua vida acha válido participar desse tipo de formação? Talvez pareça preconceito, mas sabes bem que não é, pois me conhece o suficiente para saber quando estou faminta por saciar meus desejos.
Aliás, a palavra desejo acompanhou praticamente todas as cartas e me fez lembrar tantas coisas. Uma delas foi uma lista que fiz na década de 90, bem próximo do meu casamento, e o título era bem esse: “Como sacrificar meu desejo”. Logo abaixo do título várias figuras coladas: uma casa, um carro, dois bebês e pasme uma bicicleta. Quantas lembranças essa palavra potente arrancou da minha memória. Divide um pouco mais das suas, professora, e dos seus desejos também. Um deles está na carta às crianças. Vou mencioná-lo para te entusiasmar, o que acha?
Não quero perpetuar mais essa relação com vocês, pelo contrário, minha intenção é buscar alternativas mais justas, por isso estou rompendo o silêncio e dizendo um pouco de mim.
Que tarefa árdua a sua, pois seu lugar é o de quem tem o poder. Afinal quem ensina na escola? É a professora. Ela sabe e por isso tem que ensinar aos que não sabem. A professora exerce o poder. Mas... afinal, quem tem o poder nunca deseja perdê-lo e nas suas palavras percebo que há uma inversão quando sinaliza sua intenção de não perpetuar uma relação injusta. Acredito que a injustiça então pode ser superada quando sugere o abandono do silêncio e a escrita de si, propondo às crianças conhecer a sua história, como afirmação da experiência humana na vida.
E isso me leva a outro trecho da sua carta, quando menciona Paulo Freire. Mas antes quero te provocar um pouquinho. Por que você não buscou conhecer as crianças e as infâncias neste autor? Você tem uma queda por ele e me parece amedrontada em dizer isso. Me perdoe a franqueza, mas já que somos amigas e estamos unidas pelo desejo comum de conhecer o mundo, deixo uma ideia: ouse sempre.
O trecho que me refiro é este, vou procurar destacar todos os trechos para melhorar nosso diálogo.
Através da nossa prática consciente, vamos escrevendo e reescrevendo esse mundo, transformando-o,...
Conhecer a história de alguém é muito mais do que ensinaram nas aulas de História no Colégio. Escrever de si é trazer o outro colocado à margem. E como é difícil falar de si sem ficar parecendo contação de historinha triste. A morte de Maria Rosa e o nascimento de seu primeiro filho são emoções consideradas no cotidiano escolar. Fiquei imaginando uma criança que de uma hora para outra fica sem sua mãe e perde o seu maior elo com a vida. E aqui não se trata para mim de uma questão pessoal ou cultural, mas humana. Por que essas coisas não doem a tal ponto de ferir quem não está ferido?
Olha a dor aparecendo por aqui. Vamos aproveitá-la para falar de Guilherme. Sabe, fiquei com uma dor provocada pela raiva. Você, professora, falou do menino com Patrícia, José Machado, Ester, com seus amigos do grupo de pesquisa, mas até agora estou ansiosa pela história. Ela começou na carta escrita à professora Patrícia e vou dizer o que penso, era lá que o verbo precisava ser conjugado. Leia o trecho da carta e refresque sua memória.
Experiência que compartilhei com você, lembra como foi Patrícia? Acredito que sim, ainda sinto o seu entusiasmo ao me ouvir enunciando cada palavra. No mesmo dia que te contei o que havia acontecido na escola e do menino Guilherme, você, durante a sua aula não se conteve e pediu que dividisse com as amigas da Especialização a história, o que fiz com relativo acanhamento.
Não torço por nenhum time de futebol, só que acredito que as torcidas já devem conhecer a história de Guilherme. É claro que estou brincando e te provocando um pouquinho. Como sei da sua miopia, usarei as ideias de Machado de Assis, para lembrar de algo que talvez tenha esquecido: “a vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam”(2002, p.24).
Até quero escrever mais, são tantos fios nessa tessitura. Mas nossos tempos são problemáticos, não respeitam nossas vontades, nossos desejos. Quero antes de me despedir lembrar que o que escrevi é puro desejo de dialogar. Não se preocupe com que compreendi,
pois mesmo que haja uma ideia central na sua escrita, sou eu que escolho o que é importante ou prazeroso.
Te desejo poemas, flores coloridas e muitas vadianças. Por aqui me despeço, ouvindo Renato Russo, lendo Paulo Freire e dançando rumba!
Abraços carinhosos,
Compreendendo os caminhos e desvios da
vida cotidiana
À Sueli
laranj
Rio de Janeiro, 27 de junho de 2018.
Querida Sueli,
uantas novidades você traz na sua carta. Acredite a sua leitura e participação foram importantes na ampliação da minha visão. Tentarei dialogar partindo daquilo que me apresenta como provocação e não sei se conseguirei dizer de forma tão clara, direta e sincera como você.
A fim de organizar minhas ideias na escrita iniciarei satisfazendo seu desejo acerca do meu ingresso no Mestrado em Educação que foi dito assim por você: “Também tenho uma curiosidade, por que a essa altura da sua vida acha válido participar desse tipo de formação?” Procure lembrar que me incentivou a “ousar sempre”, então vou narrar por mim mesma.
Na carta à professora Patrícia disse como a ideia do Mestrado surgiu e você quase me exige que enuncie a história, escrevendo os pormenores. Destaco outro trecho da sua carta para unir duas emoções suas, o desejo de conhecer e a dor de desejar conhecer. Aceite meu gesto como o de releitura e de experimentação na escrita.
Olha a dor aparecendo por aqui. Vamos aproveitá-la para falar de Guilherme. Sabe, fiquei com uma dor provocada pela raiva. Você, professora, falou do menino com Patrícia, José Machado, Ester, seus amigos do grupo de pesquisa, mas até agora estou ansiosa pela história. Ela começou na carta escrita à professora Patrícia e vou dizer o que penso, era lá que o verbo precisava ser conjugado.
Iniciei minha prática com crianças do terceiro ano do ciclo de alfabetização e com a transferência de unidade escolar fui retirada do Ensino Fundamental e precisei assumir a primeira turma de Educação Infantil da Escola Municipal Ana Nery.
As dificuldades no lidar diário com as crianças me fizeram buscar alternativas. A saída encontrada foi na organização da rotina do novo grupo adaptando o que conhecia das turmas de alfabetização. Inseri práticas de leitura, de escrita e de raciocínio e permaneci com essas práticas por muitos anos, mas sempre desassossegada.
O incômodo era grande. Buscava ler os referenciais, participar das formações, teimava em não aceitar o meu fazer, nunca o tive como suficiente. A incansável procura me levou ao
curso de Especialização em Educação Infantil na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Durante a Especialização, na aula de Introdução ao Estudo do Cotidiano Escolar, conheci as ideias acerca do Cotidiano, o campo de estudo, teorias, teóricos e produções acadêmicas. Tive um encontro minha querida, daqueles que nos arrancam suspiros e aumentam nossa esperança. Nas mãos da professora Patrícia de Freitas o gesto de me dar a ler aquilo que havia sido escrito e que ainda não conhecia.
Nas aulas tive liberdade de compartilhar minhas experiências e de encontrar outras pessoas com inquietações semelhantes as minhas. Fiquei empolgada com os gestos amorosos da professora. Há muito não encontrava uma pessoa desejosa por ouvir e assim tive vontade de partilhar um episódio experimentado no cotidiano escolar.
Era um dia da semana como qualquer outro. A rotina pronta, o planejamento fechado em torno das atividades que culminariam o projeto semanal, material separado e sala organizada. Tudo aconteceria de modo a ser mais um dia. Aconteceu que o principal elemento das atividades faltou: a água. Sem ela toda a rotina da escola precisou ser alterada e o desânimo invadiu as paredes das nossas salas de aula.
O horário da merenda também foi modificado e as turmas foram agrupadas em três dentro do refeitório. As crianças com menos idade se alimentavam primeiro.
Vencida pelo furo no planejamento resolvi colocar em prática uma ideia que mexia com meus pensamentos, a vadiagem. Comecei a andar na nossa pequena escola acompanhada das crianças. Elas não paravam de falar mostrando gostar da minha presença.
Até que chegou o momento do meu grupo fazer sua refeição. Fomos para o refeitório e sentei à mesa com as crianças da minha turma. Começamos a conversar e, logo, o refeitório ficou cheio, com as crianças de outras turmas, que dividiam conosco o primeiro horário de merenda.
Percebi um movimento apressado enquanto comiam. Elas pegavam seus pratos iniciando os movimentos, levantavam apressadamente e lançavam a comida no lixo. Vi o alimento rejeitado dentro da lixeira e aquilo me causou um grande incômodo. Fiquei intrigada com a situação, então, resolvi perguntar às crianças o motivo.
Assim que iniciei a conversa fiz logo a pergunta: “por que vocês jogaram a comida no lixo, não estavam com fome?”. Pensei que me responderiam do mesmo modo, objetivamente, mas houve um silêncio. Fiquei contrariada, mas de nada adiantou, as crianças ficaram caladas, em silêncio.
Nosso dia encerrou e fiquei com aquela „pulga atrás da orelha‟. Retornei no dia seguinte à escola e no horário da merenda fiz o mesmo do dia anterior. Sentei à mesa, fiquei conversando com as crianças e observando os movimentos. Era muito estranho ver as crianças jogando a comida no lixo e sair correndo, algumas com as bochechas cheias e até escorrendo um caldinho de feijão pelo cantinho da boca.
Se não fosse meu caderno de memórias, minha querida, não poderia reconstruir essa história. Ainda bem que ele resistiu. Espero que sua raiva passe com o detalhamento do episódio.
Fiz isso dias seguidos e em todos repeti a mesma pergunta às crianças do meu grupo. Elas de início ficaram caladas, em silêncio. Depois riam, até que em um dia durante a leitura da história, chamada leitura compartilhada na rotina, desistindo da pergunta, o menino Guilherme segura meu braço e diz: “porque queremos brincar”. Depois disso a turma começou a rir e o menino me abraçou e depois beijou meu rosto.
A resposta de Guilherme me deixou atônita, não compreendia as suas palavras ou não queria compreender? O menino desconhecia a agitação que provocou. Justamente ele, menino considerado de difícil comportamento, enigmático, com limitações ainda desconhecidas, com a cor indesejada. Ele me disse o que meus ouvidos não ouviam e mostrou o que meus olhos não viam.
Depois das palavras de Guilherme e do seu gesto carinhoso conversei com as crianças e perguntei se desejam saber os motivos das outras crianças ao jogarem a comida no lixo. Minha turma e eu fomos às outras salas de aula, autorizados pelas professoras do meu turno, fazendo perguntas: “quem comeu hoje na escola?”, “a comida estava boa?”, “quem gosta da comida da escola?”, “alguém jogou fora a comida?”, “por que o cesto está sempre cheio de comida?”.
As crianças responderam e anotei as respostas que mais se repetiam e são essas: “a comida é gostosa”, “o cesto está cheio porque tem crianças que pegam a comida, mas não estão com fome”, “por que é melhor brincar”, “a tia que toma conta do refeitório só deixa sair para brincar depois que o prato está vazio”, “tem crianças que jogam fora porque tem olho grande”.
Depois da nossa pesquisa na escola, as crianças do meu grupo com idades de cinco e seis anos, pediram para mudarmos a rotina de nossas atividades. Guilherme disse que queria iniciar usando os brinquedos da caixa. Modifiquei as atividades e comecei a brincar com elas.
Essa aproximação deixou as crianças mais livres para falar e assim começaram espontaneamente a dizer: “é melhor brincar do que comer”, “a escola é um lugar
maravilhoso”, “não gostamos do banheiro”, “queremos dançar”, “vamos tirar acerolas verdes do pé e experimentar”.
Voltamos a conversar acerca da nossa visita as outras salas de aula e da pesquisa feita com as crianças. Perguntei ao grupo por que era mais importante brincar do que comer a comida da escola? Fui novamente surpreendida quando disseram que comer era importante.
Essa, querida Sueli, é a história que contei à professora Patrícia e que se tornou o meu projeto do Mestrado, escrevi essa experiência porque me marcou de tal maneira que não pude ficar sossegada. Meu desejo era aprender e compreender as crianças que estavam ali todos os dias juntas a mim.
Não tinha intenção em continuar os estudos, enfrentei as provas e as dificuldades da vida não pelo título que receberei, não desmerecendo a sua importância, mas pelo desejo que move meu coração de fazer escola, dentro e fora da escola. Talvez o momento da vida não seja o melhor, mas quem faz a vida?
Vamos prosseguir, porque ainda quero me arriscar nas suas provocações. Você cita Paulo Freire e diz que eu tenho “uma queda por ele”. Terei que concordar. Fiz escolhas enquanto escrevia e nem todas são as mais indicadas, creio que fazem parte do processo de pesquisa.
Aproveito este fio, a pesquisa, para falar da dor da autoria. É verdadeiro o que você me traz, na adolescência havia uma liberdade na minha cabeça que me permitia dizer. Lembro as aulas de Literatura, no terceiro ano do segundo grau, em que meu professor falava do futuro e das nossas convicções. “Tudo é passageiro”, dizia ele, se referindo as dissertações escritas com as vísceras, repletas de emoções e contradições. Escrever parece que tem esse estigma, tudo precisa ser muito bem pensado e colocado para que o outro entenda. Quem escreve precisa deixar marcas.
Não sei ou talvez saiba e não queira dizer o porquê da dor. Assim como as crianças que riram de mim, vou guardar esse „segredo‟. As crianças me ensinaram e aprendi com esse gesto que todos nós temos os nossos tempos.
Mas quero encerrar trazendo uma parte da sua carta que muito me emocionou e preciso destacar.
Acredito que a injustiça então pode ser superada quando sugere o abandono do silêncio e a escrita de si, propondo às crianças conhecer a sua história, como afirmação da experiência humana na vida.
No final das contas é disso que se trata o meu gesto. O desejo de conhecer as infâncias e as crianças se faz na busca pela superação da injustiça. Escrever de si, mostrar a face, é anunciar Maria, Antonio, Jose, Joaquim, Pedro, Guilherme, Ester, Marisol, Luciana, Adelino, Renata, Patrícia, Carmen, Bianca, Heron, Valdemir, Otoniel, Francisco, Sueli, Vanilda, Alexsandre, Sara, Natália, Igor... tantos mais, que estão na vida e experimentam das mesmas dores, dificuldades, alegrias, sonhos.
Finalizo esta carta sabendo que escrevi um texto científico. Não há dureza nas minhas palavras, nem conceitos difíceis de serem compreendidos. O objetivo da ciência deve ser sempre com a transformação do mundo, se isso não acontecer de nada valem as teorias produzidas.
É com muito amor que escrevo, esta emoção me move. Não há outra emoção que consiga me fazer responsável por cuidar e cativar o meu semelhante, humano como eu.
Um forte e caloroso abraço,
Professora Sueli Laranja