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4.4 Explorando a linguagem: da compreensão do discurso à produção textual

4.4.1 Bases cognitivas da compreensão do discurso

4.4.1.2 Compreendendo textos

Ampliando o foco da compreensão, partimos da compreensão das sentenças para a compreensão os textos. Os elementos mais influentes na compreensão de um texto do ponto de vista cognitivo do leitor são:

a) o contexto (que influi na compreensão das letras, sons, palavras, unidades linguísticas maiores);

b) o conhecimento básico geral do leitor sobre o tema sobre o qual versa o texto; c) a perícia do leitor no tema do texto;

d) os scripts e esquemas do leitor no assunto; e

e) O processamento bottom-up e o top-down do leitor.

Entre estes, o contexto e o processamento top-down são os mais influentes. Com isto em mente, abordamos, a seguir, a compreensão do discurso em dois tópicos principais:

a) a formação de uma representação coerente do texto; e b) as inferências realizadas durante a leitura.

4.4.1.2.1 Formando uma representação coerente do texto

A coesão e estabilidade da mensagem no texto ou coerência são fatores essenciais para a boa comunicação da mensagem escrita. O leitor ou ouvinte, assim como o escritor ou narrador as buscam e delas necessitam. É de uma compreensão clara que surgem as inferências aceitáveis. Para ter esta clareza, é muito comum darmos asas à imaginação e construirmos modelos mentais do material que está sendo lido. Esse é o momento em que a leitura se mes laào à ossoàespaçoàdeàexist iaàog itivoàeàaà vive ia os à

[...] as pessoas constroem modelos mentais com base em descrições escritas de um ambiente. Simultaneamente, os leitores constroem representações internas que incluem descrições do elenco de personagens de uma história. Essas informações descritivas podem incluir ocupações, relacionamentos, estados emocionais, traços pessoais, objetivos e ações dos personagens [...] (MATLIN, 2004, p. 207).

Esseà àoàespaçoàdoà di logoà o àoàauto ,ào deà osàe contramos e, por vezes, nos confrontamos com gigantes que talvez nunca vejamos pessoalmente. Se há um lugar quixotesco é este mundo da leitura, onde o conhecimento se veste da pretendida Dulcinéia. Uma participante da pesquisa contou-nos entusiasmada as suas aventuras através da leitura:

Agora, o que mais me intriga, numa leitura, quando eu [es]tou com o subsídio na mão pra eu desenvolver meus textos, é quando eu escolho aquele cabra. Eu digo: Meu Deus do céu! É ele que tem tudo a ver com o que eu penso! Aí, eu começo a ler. Aí, lá na frente, ele começa a dizer coisa que eu não concordo. Aí, eu digo: Valha- me! Eu me apossei das ideias do autor! Eu achei que ele ia do começo ao fim pensar

igual a mim! Eu me irrito! Tu acredita? Tem umas coisas de gente... Eu digo: Não, também não pode ser assim não! [Professora 4]

E seguimos a leitura, frase a frase, ampliando o sentido pelo contexto do texto anterior. E, com o passar o tempo, a memória de trabalho passa a processar ideias da leitura e não mais as sentenças (lembrando sempre do seu limite em 7 +/- 2). Após compreender a representação do texto, passamos ao estudo breve das inferências.

4.4.1.2.2 inferências na leitura ou interpretação

Um dos pontos mais interessantes sobre cognição e leitura é que inferimos para além do texto. A apropriação que fazemos do texto é também uma personalização da mensagem. Completamos o texto do autor com as nossas próprias inferências e, depois de um tempo, não haverá mais diferença entre essas duas vozes na memória.

Um relato ilustra bem esta habilidade. Após um livro não terminar como previra e perceber que a sensação geral dentre os leitores conhecidos no seu ciclo de amigos, a professora Matlin (2004) escreveu sobre suas questões à autora, que lhe respondeu relatando que as inferências dela sobre a personagem eram bastante diferentes. Existem duas propostas importantes para a explicação das inferências que fazemos além do texto: a perspectiva construtivista e a hipótese minimalista.

A perspectiva construtivista da inferência, queàafi aà ueà [...] os leitores constroem explicações de maneira ativa [sobre causas de eventos e sobre as relações entre eles] à medida que vão integrando as informações importantes das partes anteriores do texto [...] (MATLIN, 2004, p. 208).

Nesta perspectiva todos os leitores buscam explicações e relações quando leem, entretanto, a hipótese minimalista,...

[...] argumenta que os leitores não constroem as inferências de maneira constante quando lêem. [...] as únicas informações criadas de forma automática pelos leitores ou são baseadas em informações facilmente disponíveis ou são necessárias ao entendimento do sentido das sentenças próximas umas das outras. (MATLIN, 2004, p. 208).

Neste caso, para os minimalistas, existe o tipo de leitura em que o leitor investe em inferências extratexto e outro em que as inferências se atém à compreensão do texto, sendo

este último o padrão básico de leitura. Este último argumento poderia explicar um pouco aquele dilema que apresentamos na introdução sobre a estudante que gosta de ler livros de literatura e ficção, mas não gosta de estudar. A justificativa da Estudante 7 faz valer a pena retomar à entrevista:

Eu sempre estudei muito. Pra caramba! Porque era obrigação. Mas eu nunca vi isso com prazer. O único prazer que eu tinha era de pegar um livro de literatura e ler. Estória.

Entrevistadora - você gosta da leitura, mas não gosta do estudo?

Não é que eu não goste de estudar, é porque eu me sinto mais cansada estudando do que lendo. Eu não sei se é uma coisa que dá na nossa cabeça que faz a gente pensar que aquilo é ruim. A gente se sente tentada a não fazer aquilo... Mas, quando eu vou estudar, geralmente é muito ruim! Mas quando eu vou ler, não. Eu leio um livro num dia. Aí, eu... Eu não sei se é porque requer mais raciocínio... dá mais cansaço...

Entrevistadora - que tipo de livro você lê em um dia?

Livros de leitura que eu não possa analisar e pensar sobre ele e entender o que o autor [es]tá dizendo. Po àexe plo,àu àliv oà ueàeuàli,...àoàliv oà Oàdi ioàde Anne F a k à oàfoiàe àu àdia,à asàeuàli,à es oàassi

Entrevistadora - E foi prazeroso pra você?

Foi. Foi. Eu li.

O relato deixa claro que há dois tipos de leitura: uma com raciocínio e análise de ideias e outra sem esta prática tão consciente, o que corrobora a não naturalidade de uma leitura íti a,àa alíti a,ào deàfi aà la oàoàesfo çoà de otadoà oà a saço à ausadoàpelaàleitu aà técnica), confirmando a explicação minimalista.

As nossas inferências também buscam dar uma ordem lógica consistente no texto para sermos capazes de agregar seu sentido ao nosso repertório cognitivo. Sendo assim, podemos perceber que o leitor que faz inferências possui estímulos específicos de alguns fatores ou condições:

As pessoas têm propensão a realizar inferências quando possuem uma capacidade

grande de memória de trabalho [...] quando possuem habilidades excelentes de metacompreensão, de modo que sabem que precisam buscar conexões entre duas sentenças sem relação aparente [...] [quando] têm informações básicas ou perícia sobre o tópico em questão no texto. (MATLIN, 2004, p. 210, grifo nosso)

Há também fatores e condições que diminuem as inferências na leitura, como dep ess oàe,àpo àsu p ee de teà ueàpossaàpa e e ,à [...]àpesquisas mostram que as pessoas muitas vezes deixam de construir inferências quando estão lendo textos científicos. [...] à

(MATLIN, 2004, p. 201). Mas, isto não diminui o poder prospectivo da inferência. As nossas inferências agregam-se na memória ao sentido do texto lido. Vejamos:

Às vezes, é provável que lembremos as inferências que fizemos durante a leitura quanto as afirmações que de fato ocorreram no texto. As inferências se mesclam o àoàtextoà eal ,àfo a doàu aàhist iaà oesa.àPode osàete àoàse tidoàge alàdeà uma passagem, esquecendo que construímos alguns elementos que, na verdade, não aparecem na história. (MATLIN, 2004, p. 210)

Uma leitura, portanto, é uma escrita interna, em si mesmo, fazendo uma revisão do texto original.

A inferência pode tornar-se inclusive superior ao texto original. Observe o que os professores Allbrigton e Gerrig (1991) perceberam sobre nossas capturas do correr do texto:

De fato, Allbrigton e Gerrig (1991) descobriram que os leitores, quando se envolviam com o enredo, criavam respostas participativas, denominação dada por estes pesquisadores às expectativas de quem lê. As preferências mentais em relação ao desfecho de uma trama podem ser tão fortes que até interferem na capacidade do leitor avaliar como a estória realmente terminou, fazendo-o hesitar na tentativa de decidir se um final feliz ocorreu mesmo. De fato, você pode ter tanta esperança quanto a um final feliz que construiu que lê as últimas frases diversas vezes, tentando convencer-se de que o herói ou a heroína não morreu! (ALLBRIGTON; GERRIG, 1991 apud MATLIN, 2004, p. 211)

Somos leitores-autores inconformados, por vezes, autoritários e impositivos sobre o texto. Este último, uma vez dado ao mundo nunca mais retornará à posse do autor. Somos processadores ativos da informação. E isto pode ser corroborado com o relato anterior da professora participante da pesquisa sobre apropriar-se do texto e da posição do autor, mostrando que o texto e a leitura científicas não estão imunes às nossas inferências e vivências mais profundas. Mas é preciso haver uma dissociação e comprometimento para este tipo de leitura elaborativa, ela não ocorre sempre ou naturalmente.