• Nenhum resultado encontrado

No entendimento dos alunos e professores temos a necessidade de compreensão da verdade. Se o outro estiver envolvido precisa ser ouvido e os fatos devem ser averiguados e não julgados precipitadamente. Entendem que o outro deve ter espaço para falar e se justificar como no caso de Marcos, caso contrário, podemos incorrer numa injustiça e essa pode acarretar consequências negativas.

Defendem a análise do fato com mais cuidado por parte das pessoas daquela escola. Chegaram a denominar a situação da escola quando se expressaram verbalmente sobre o fato como: ―palhaçada‖, ―diretora acusou sem saber certo o que aconteceu‖, ―precisa apurar‖, ―funcionária não deveria espalhar‖, ―injusto‖, entre outras posturas.

A partir das características da sociedade atual apresentadas anteriormente com base nos estudos e reflexões trazidas por La Taille, assim como outros estudiosos que o acompanham em sua problematização, nos parece que a compreensão e a verdade não são valores considerados importantes. Pois, numa sociedade onde prevalece a efemeridade, a fragmentação, a superficialidade, esses valores não teriam mais lugar.

Por outro lado, alguns alunos (embora minoria), professores (mais de cinquenta por cento) assim como nós, parecem concordar com La Taille: ―com efeito, considerar a verdade como valor não é tarefa fácil nos dias de hoje. Todavia, se a

―cultura do tédio‖ acarreta, como vimos infelicidade, é absolutamente necessário reabilitar a verdade (2009, p. 89). Tanto os professores como os alunos não estão indiferentes à verdade. E, aparecendo num percentual maior entre os professores, também é algo que consideramos importante, pois cabe a eles tornar essas questões como objeto de conhecimento e de reflexão.

O tédio a que se refere o autor, como vimos, é a falta de direção e a falta de sentido-significação para a vida. É quando: ―[...] não sabemos bem quais as formas de vida que valem a pena ser vividas, não sabemos bem o que tem valor e o que não tem‖ (2009, p. 86). É importante saber distinguir o certo do errado, o verdadeiro do falso. Por isso, o valor da verdade deve estar presente entre nós.

É claro que a verdade como um valor aqui apresentada foi direcionada para uma questão mais específica conforme proposta realizada, mas, esse valor perpassa pelas mais diversas instâncias de nossa vida. Somos diariamente submetidos a mensagens dúbias, a informações imprecisas, promessas duvidosas, assim como nítidas investidas de enganação que nos chegam por meios como:

publicidade, mídia, política, internet, entre outros. De acordo com La Taille, para sobreviver a esse ambiente equívoco:

Se faz necessária a chamada capacidade de crítica, não entendida como disposição a julgar negativamente, mas sim como vontade de passar o que se ouve, se vê, se pensa e se diz pelo crivo da razão, para debelar possíveis erros, possíveis mentiras, possíveis ilusões. Não há crítica honesta sem amor à verdade. (2009, p. 91).

Nomeamos a subcategoria como compreensão da verdade, porque entendemos que essa é uma característica de ação moral, porque as situações devem ser avaliadas, analisadas para não cometermos injustiças como no caso de Marcos. Do mesmo modo, não compreendendo a verdade podemos fazer opções erradas para a nossa vida e, essa, nos leva à pergunta: ―como devo agir‖? Agir a partir da verdade, pois:

Sem o valor da verdade, é difícil construir projetos de vida. Tal construção pressupõe sincera tomada de consciência de si e também pressupõe conhecimentos precisos a respeito do entorno natural e social no qual o ―eu‖

vai se mover e evoluir. (LA TAILLE, 2001, p. 95).

Partindo desse pressuposto, podemos nos questionar. É verdade que o consumo dos produtos que nos apresentam diariamente nos levam à verdadeira felicidade, à busca da ―vida boa‖? É verdade que precisamos expor nossa privacidade para ter visibilidade social? É verdade que precisamos de visibilidade social? É verdade que precisamos comprar celulares, carros, roupas e outros objetos para sermos felizes? Sabemos que mesmo tendo o conhecimento da

verdade, somos passíveis de fazer escolhas e avaliações erradas, porém, sem o conhecimento da verdade o caminho se torna ainda mais nebuloso na busca de significações para nossa vida.

Para a busca de ―significação da vida‖ é preciso pensar sobre si e sobre o meio no qual vivemos. Conhecer, compreender e tomar consciência de quem somos e se o que queremos tem relação com a verdade. Pensar sobre si próprio como nos mostra La Taille, ―equivale a tomar consciência de si, consciência da própria história de vida, dos possíveis talentos, dos próprios valores, dos próprios sentimentos, das próprias aspirações, das próprias potencialidades‖ (2009, p. 88). A busca de sentido para nossa vida perpassa por essas avaliações. Como podemos buscar sentido para a nossa vida sem o autoconhecimento ou sem conhecer e compreender as características da sociedade que vivemos?

Construir sentido para existência implica elaborar projetos de vida, não se vê muito bem como elaborá-los sem conhecer o mundo no qual se vai procurar evoluir: que condições econômicas o caracterizam, que sistema político o rege, que recursos naturais possui, que valores norteiam seus habitantes, que potenciais ele tem, que previsões sobre o futuro são possíveis, etc. (LA TAILLE, 2009, p. 88).

Se não sabemos o que valorizar, se não conseguimos distinguir o que queremos e no que podemos investir, se não temos projetos de vida, aceitamos que:

―para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve [...]‖ (CORTELLA, 2010, p. 25). Assim, ficamos sujeitos às escolhas e prescrições alheias.

Nem sempre dispomos do conhecimento necessário às diversas situações que nos apresentam, e entendemos, assim como La Taille, que a responsabilidade dessa tarefa cabe também às instituições educacionais:

[...] a quem compete o essencial da tarefa de fazer que as pessoas possuam conhecimentos variados são as instituições educacionais: escola e universidade. Digo essencial porque elas não são as únicas responsáveis (2009, p. 97).

Seguindo com La Taille, temos a necessidade de conhecimentos que denomina de ―conteúdo‖ e formas precisas de raciocínio ―forma‖ para desvendar as verdades. ―De nada adianta ser capaz de raciocinar bem, mas não possuir conhecimentos que alimentem a reflexão. Mas tampouco adianta possuí-los sem ser capaz de organizá-los de forma a chegar a diversas conclusões‖ (2009, p. 101).

Além do conteúdo e da capacidade de raciocínio, La Taille nos apresenta também as virtudes: boa-fé, exatidão, paciência, simplicidade e humildade como essenciais para inspirar o amor e respeito pela verdade.

Partindo do princípio de que as virtudes ―são qualidades de caráter decorrentes de um trabalho de autoaperfeiçoamento. Estão, portanto, ao alcance de cada um [...]‖ (2009, p.107). Ou seja, todos nós temos a capacidade de desenvolver essas virtudes se assim desejarmos ou se tivermos espaço para desenvolvê-las. A pessoa de ―boa-fé‖, para o autor, não mente e não se sente confortável, caso pressentir que o que pensa e afirma não está de acordo com a verdade.

A pessoa inspirada pela exatidão, segundo o psicólogo, ―sabe que ideias vagas, raciocínios lacunares, deduções e induções apressadas, definições ambíguas, frases obscuras são obstáculos para a busca bem sucedida da verdade‖

(LA TAILLE, 2009, p. 109). Ou seja, a verdade não se confunde com a opinião.

A ―paciência‖ explica La Taille, nos permite suportar as frustrações, ter constância e perseverança. ―Sentido para vida não se cria do nada e nem de um instante para o outro‖ (2009, p.113). Essa virtude é bem difícil de desenvolver nos dias atuais. As pessoas esperam que as decisões, os posicionamentos, os resultados, os atendimentos sempre devam acontecer de forma imediata.

Conforme La Taille, a ―simplicidade‖ é a melhor forma de dar conta da complexidade. Conceitos simples, teorias simples nos ajudam a perceber e a revelar a verdade. Acompanhando as demais virtudes que contribuem para chegar e manter a verdade, o autor ainda destaca a ―humildade‖. ―Ser humilde não é se privar de autoestima, mas sim avaliá-la a luz de seu real valor‖ (2009, p.114). Humildade nesse sentido é reconhecer quando estamos longe do nosso objetivo, quando erramos o caminho.

Freire também toma a defesa de que uma prática educativa deve ser permeada pela verdade. Pois, entende que essa é responsável por revelar as mentiras dominantes, ―a prática educativa de opção progressista jamais deixará de ser uma aventura desveladora, uma experiência de desocultação da verdade‖ (1996, p. 4). A atividade profissional docente ética é questionadora, é investigadora e vai além do que está posto.

O autor entende que diminuímos a distância que nos separa das condições negativas de vida dos nossos alunos, na medida em que os ajudamos a aprender.

Pode ser diversos saberes.

Como desocultar verdade escondidas, como desmistificar a farsa ideológica, espécie de arapuca que facilmente caímos. Como enfrentar a extraordinário poder da mídia, da linguagem, da televisão, de sua ―sintaxe‖

que reduz a um mesmo plano o passado e o presente e sugere que o que ainda há já está feito. Mais ainda, que diversifica temáticas ao noticiário sem que haja tempo para reflexão sobre os variados assuntos. De uma notícia sobre Miss Brasil se passa a um terremoto na China [...] (1996, p. 138-139).

Quando Freire nos fala da ―consciência crítica‖, traz para a reflexão diversas virtudes citadas por La Taille. Também critica o simplismo na interpretação e resolução de fatos, porque pensar certo ―demanda profundidade e não superficialidade‖ (1996, p. 33). A humildade também é destacada por Freire ―viver a humildade, condição ―sine qua‖ do pensar certo, que nos faz proclamar o nosso próprio equívoco‖ (1996, p. 49)

Como vimos, a verdade corresponde ao plano ético, pois nos leva a responder as perguntas: ―que vida quero viver‖? ―Para que viver‖? e ―Quem eu quero ser‖? Dentre as características de ações morais e éticas temos a segunda subcategoria, a ―gratidão‖, que emergiu nas narrativas dos professores e dos alunos.

Essa, segundo La Taille, pode contribuir para o desenvolvimento moral e não necessariamente é considerada uma virtude moral. É o que veremos a seguir.

Item 2- Gratidão (Professores e alunos)

Para La Taille, a virtude para ser considerada como moral ―depende dos conteúdos que elegemos para a moralidade‖ (2009, p. 281). A virtude pode ser moral ou não. É moral quando vista como ―dever‖. Na sua eleição dos conteúdos morais, estão a ―justiça, a generosidade e a dignidade‖. Esses, segundo o autor, correspondem às virtudes morais necessárias. Porém, entende que outras virtudes podem contribuir para a educação moral. Dentre outras virtudes que podem ser consideradas pertencentes ao plano moral está a gratidão, sendo que essa foi bastante lembrada pelos professores e alunos que participaram de nossa pesquisa.

O autor entende a gratidão como uma qualidade pessoal, porém, não podemos exigir isso do outro:

Não temos o direito de exigir de outrem o reconhecimento agradecido da ajuda que lhe fornecemos, mas tal reconhecimento traduz uma postura universalmente admirada, socialmente valorizada e que certas pessoas consideram, para si, dever moral. (2009, p. 282).

A citação do autor reflete o entendimento de nossos sujeitos da pesquisa, principalmente no que se refere à admiração e valorização da gratidão. Ao mesmo tempo em que La Taille diz que a gratidão não pode ser exigida, valoriza tal virtude e também entende que o trabalho com virtudes é que deve nortear o convívio humano.

Adorno sobre essa questão é ainda mais contundente e afirma: ―a única relação da consciência com a felicidade é a gratidão: isto constitui sua dignidade incomparável‖

(1975, p.125). Ou seja, é uma virtude que não pode ser desprezada, pois essa está ligada a outra virtude moral que é a dignidade de uma pessoa. Uma aluna chega a expressar que se arrependeu por ter devolvido o celular que achou, porque o dono não foi capaz de agradecê-la.

La Taille et al. (2009, p. 47) alerta-nos sobre o fato de trabalharmos mais com as mazelas do que com as qualidades pessoais. ―Atualmente tanto na sociedade como um todo, quanto na educação em particular, fala-se mais em vícios do que em virtudes, embora raramente se empregue tal vocábulo‖. A afirmação do autor é pertinente com a realidade, porque estamos mais voltados para os problemas do que com a valorização das qualidades humanas.

Assim, precisamos desenvolver a sensibilidade do nosso olhar, ―mudar as lentes‖ para não focarmos somente no que nos parece como obstáculos e perceber que, para enfrentar certos desafios, é por outro caminho que podemos seguir, sendo que um deles pode ser o trabalho com as ―virtudes‖. Cabe a nós desenvolvermos a

―sensibilidade moral‖, essa destacada por La Taille e pelos nossos sujeitos da pesquisa conforme segue abaixo.