Como um dos exemplos para falar de sensibilidade moral, La Taille (2006), utilizou-se da situação vivencida por ―Marcos‖, já citada anteriormente. Mostra-nos que a ―sensibilidade moral é perceber questões morais em situações que não tenham tanta clareza‖ (p.87). Ou ainda, é preciso sensibilidade para perceber a dimensão moral implicada. A situação escolar em que Marcos estava envolvido foi
um dos instrumentos de nossa pesquisa e ficou bem evidente que grande parte dos alunos e professores não se fixaram no roubo de Marcos, perceberam as dimensões boas presentes na situação. Ou seja, tiveram sensibilidade moral e reconheceram o mérito de Marcos, reconhecendo a injustiça cometida.
A falta de sensibilidade, como percebemos, pode nos levar a agir de forma injusta, pode ter consequências negativas no juízo de valor do outro e, consequentemente, nas suas ações futuras. Marcos passou por um conflito, por uma tentação momentânea, pegou o dinheiro, porém, arrependeu-se e teve coragem de admitir. Ao realizar esse ato, mostrou ―autorrespeito e coragem‖ (LA TAILLE, 2006, p. 89). Certamente, esse menino ficará desacreditado da moral, pois foi exposto em frente aos demais, sentiu-se humilhado e poderá pensar que a mentira pode ser mais conveniente, caso se deparar com outra situação semelhante.
La Taille (2006) afirma que a sensibilidade moral implica vontade e capacidade de pensar, analisar com mais cuidado os fatos. Não é a falta de conhecimento que faz falta, e, sim, uma análise mais cuidadosa. ―Uma bagagem cultural não é necessária para a ação moral (moral não é apenas para especialistas)‖ (p. 90). É o que confirmam nossos sujeitos da pesquisa. Tanto os alunos jovens e adultos que estão no Ensino Fundamental foram capazes de ir além do visível e perceber que o procedimento adotado pela escola foi inadequado. Da mesma forma, os professores da EJA demonstraram sensibilidade ao analisar a ação de Marcos.
Certamente, muitas situações parecidas como essa estão presentes no nosso cotidiano na educação. Nem sempre as regras nos auxiliam na resolução de dilemas que podem ser morais ou não. Portanto, é necessário o desenvolvimento da sensibilidade, porque estamos constantemente diante de fatos em que precisamos deliberar, escolher o melhor para cada caso, sendo que é preciso decidir bem, tendo como norte uma perspectiva ética ou ―uma vida boa, para e com outrem em instituições justas‖ (RICOEUR, 1990, p. 202). ―Viver bem‖ é o que buscamos.
Cabe salientar que no quadro acima apresentamos alguns exemplos de sensibilidade moral, porém, entendemos que a sensibilidade moral também está presente nas demais subcategorias desenvolvidas. Para aqueles que apontaram a verdade, a justiça, o diálogo, a gratidão, entre outras, também demonstram sensibilidade moral, porque se preocuparam em apurar os fatos e ir além do visível.
Conforme já desenvolvido no capítulo anterior, o ―Saber fazer moral: a dimensão Intelectual‖ requer conhecimento, equacionamento e sensibilidade moral.
O equacionamento está baseado no ―sujeito de direitos‖ e a sensibilidade, conforme La Taille (2006), sobre a ideia de ―sujeito psicológico‖. Sendo assim, a justiça é essencial para o equacionamento e a generosidade para a sensibilidade. Tanto uma como outra ―são condições para a ação moral‖ (p. 95). Um complementa a outra. A partir dessa consideração, vamos refletir um pouco mais sobre a justiça que também foi lembrada pelos nossos alunos quando analisaram a situação que se desenrolou na escola de Marcos.
Item 4 - Justiça (Professores e alunos)
Segundo La Taille, a justiça é considerada a maior das virtudes por quase todos os autores que se debruçam sobre o assunto. Aristóteles já dizia que ela boa em si mesma. Outros defendem que sem justiça a vida em sociedade é impossível.
―Justiça a mais racional de todas as virtudes, como afirmava Piaget (1932)‖ (LA TAILLE, 2006, p.61). Mais racional, porque é um tema tanto moral quanto político, que perpassa a esfera pública e privada.
Fazer justiça é dar ao outrem o que é seu de direito, uma lei justa é aquela que é boa para todos. A decisão da escola de Marcos foi injusta, porque não respeitaram a dignidade do menino, expondo-o frente aos demais e acusando-o de ladrão.
Assim, se posiciona La Taille (2006), se as pessoas tivessem tido sensibilidade moral, teriam evitado ―cometer uma injustiça com esse aluno (colocá-lo no centro das atenções como menino que furta)‖. Da mesma forma, alguns alunos e professores da EJA apontaram a decisão e ação como injusta.
Apesar de todos não escreverem sobre a justiça, quando se expressaram verbalmente sobre o caso, ouviu-se: ―palhaçada‖, ―injustiça‖, ―acusou sem saber ao certo o que aconteceu‖, entre outras falas. Essas palavras e o modo como foram expressas nos remetem ao sentimento de indignação diante da situação. Esse sentimento é um dos centrais, segundo La Taille, para impulsionar uma ação moral juntamente com a vergonha e a culpa. ―Esses sentimentos mostram-nos que existe algo mais ou menos valorizado por cada um‖ (TOGNETTA e VINHA apud LA
TAILLE et al., 2009, p. 17). Os alunos conferiram um valor negativo ao fato, demonstrando que a justiça é mais importante para eles.
Pois, a indignação refere-se essencialmente ―a um conteúdo moral que estaria em jogo: a justiça‖. (TOGNETTA e VINHA apud LA TAILLE et al., 2009, p. 19).
Assim, também entre os professores tivemos manifestações nesse sentido: ―Eu como mãe ficaria indignada numa situação como essa‖. Da mesma forma que os alunos, atribui valor negativo para a situação que aconteceu na escola de Marcos.
Segundo La Taille, Piaget elegeu a justiça como objeto de pesquisa e Kohlberg: ―a justiça é virtude moral por excelência e não apenas uma entre outras‖
(2006, p. 24). Isso, porque essa é uma noção incontornável de moralidade.
As pessoas que agem baseadas na noção de justiça procuram avaliar, analisar com muito cuidado antes de tomar qualquer decisão, porque o objetivo é agir fazendo o bem ao outro.
Situações como essas nos ajudam a compreender os valores que as pessoas têm, que tanto podem ser morais ou não. Da mesma forma, ajuda-nos a entender se a indignação é autorreferenciada ou se considera o universo do outro se este tem um direito violado.
Para os professores, é necessário se colocar no lugar do outro, assim temos a reciprocidade.
Item 5 - Reciprocidade (Professores)
Saber colocar-se no lugar do outro. Para Piaget, quando a criança e jovem aprendem a cooperar esse é o caminho para a compreensão da reciprocidade.
Também, é importante enfatizar que a reciprocidade baseia-se em relações simétricas, portanto, essas podem nascer e desabrochar no interior da sala de aula e no ambiente educacional.
A reciprocidade baseia-se no respeito mútuo, no sentido de que todo ser humano merece ser respeitado, independente de quem esse seja. Não conheço o caixa do supermercado que se enganou com o troco, não sei de quem é o dinheiro que encontrei, porém, me preocupo com esse outro e consigo me colocar no lugar dele. No momento em que os alunos e professores conseguiram se colocar no lugar
de Marcos e perceber a injustiça houve o sentimento de reciprocidade. Esse sentimento permite relações mais afetivas e humanas por aproximar os sujeitos.
A pessoa heterônoma não consegue se colocar no lugar do outro. Piaget já enfatizava que o ideal moral de reciprocidade é típico de autonomia. A reciprocidade nesse sentido vai além da ação que La Taille (2009) nos fala, ―você coça minhas costas que coço as suas‖. É a partir da compreensão da reciprocidade que se pode pensar numa moral universalista.
Item 6 - Diálogo (Professores)
Os professores deram ênfase no diálogo, veem nesse uma forma de resolver um dilema, que é por meio desse que se pode chegar à verdade. Para se estabelecer um diálogo é preciso saber ouvir o outro. O diálogo precisa se estabelecer numa relação horizontal e não de verticalidade. Por isso, Freire nos ensina que um dos saberes necessários à prática educativa para aquele que deseja ser ético, é saber escutar: ―Somente quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que em certas condições precise falar a ele‖ (1996, p. 113).
Essa é uma primeira posição de quem deseja estabelecer o diálogo, aprender a escutar o outro, caso contrário, fala-se impositivamente.
Aprender a escutar para poder falar com outro enquanto sujeito e não como objeto do discurso que se pretende dar. É esse diálogo que Freire entende como fundamental para a pedagogia que desenvolveu. O diálogo que se opõe ao antidiálogo, de um sobre o outro. O antidiálogo é acrítico, arrogante, desesperançoso. Aquele que se propõe ao antidiálogo, nos ensina Freire, ―faz comunicados e não se comunica‖ (1983, p. 108).
As ideias do autor expressam que o diálogo verdadeiro acontece com sujeitos dialógicos que aprendem e crescem na diferença, quando se assumem como seres inacabados. Ou seja, ambos têm o poder de criação. Se não for assim, a educação
―mata o poder criador não só do educando, mas também do educador‖. ―Não cria aquele que impõe, nem aqueles que recebem; ambos se atrofiam e a educação já não é educação‖ (Freire, 1979, p.69). Assim, a comunicação deixa de ter sentido na vida humana e no compromisso com os homens.
Assim, também temos La Taille citando Piaget ―a lição de moral não deve de forma alguma ser proscrita‖. O objetivo maior da educação moral é ―fazer com que as crianças e jovens conquistem a autonomia, ele preconizava que fosse dado espaço para os alunos falarem, questionarem, discutirem, pesquisarem [...]‖ (2009, p. 256-257). Ou seja, essa defesa igualmente a de Freire nega um sujeito passivo dominado pelo professor, porque essas atitudes reforçam, de acordo com La Taille, o egocentrismo, o conformismo e a heteronomia.
Porém, tanto na teoria de Freire vemos a defesa do homem como um ser em permanente busca, que não está preso a um tempo reduzido ou a um hoje permanente que pode progredir, como também pelos construtivistas que La Taille se filia (principalmente a Piaget e Kohlberg), ―acreditam no progresso da humanidade (mesmo sabendo que ele ocorre de maneira caótica e com uma lentidão exasperante)‖ (LA TAILLE, 2006, p.21). Contudo, sem o verdadeiro diálogo, sem a reflexão e a problematização que se dão a partir desse, parece-nos que esse progresso fica ainda mais distante e obscuro.
2- Características de ações com ausência de autonomia na resolução de um dilema
Alunos do EJA
SUPERVALORIZAÇÃO DA HIERARQUIA
1- Se eu fosse a funcionária da cantina, eu teria agido do mesmo jeito que a que está no texto agiu. Teria informado a coordenadora da escola, ou a diretora. (Aluna A2-17 anos)
2- Eu no lugar de Marcos teria falado, para professora. (Aluna B2-28 anos)
3- Perguntaria porque ele pegou a nota e não deixou onde estava, e daí chamaria a professora a orientadora e a diretora (Aluno J2-16 anos) 4- Eu avisaria a diretora e voltaria para o meu trabalho. (Aluno M2-16 tudo a nota deveria ser entregue a direção da escola. (Aluno P2-55 anos) 7- Marcos disse, mas eu apenas achei, aquele dinheiro, não roubei.
Diretora disse – Não é porque você roubou, é porque você não trouxe ate mim, nos poderíamos ter resolvido. (cria uma historinha- punindo pelo fato de não ter informado a figura de autoridade maior) (Aluno F2–29 anos)
PUNIÇÃO
1- Terá que vir todo dia para nós ajudar a limpar a escola todo fim do dia, durante três semanas. (Aluno F2–29 anos)
2- Eu resolveria com uma punição que eu iria dar a ele por ter roubado a nota. Os pais tinham que ser comunicados, e expulsaria ele da escola, para que a escola não fique mal representada.(Aluno J2–16 anos)
3- Não chamaria os pais ... Mas daria uma advertência verbal sobre sua
atitude. (Aluno N2-33 anos)
4- Na minha opinião foi correto a atitude da escola, se ele roubou a nota de dez reais, foi certo conversar com os pais, porque se deixa quieto outros casos podem acontecer. (Aluna O2-27 anos)
AÇÃO MORAL ORIENTADA PELAS
CONSEQÜÊNCIAS
1-Ele roubou a nota de 10 reais porque viu que ninguém estava olhando e colocou ligeiro no bolso. Ele se arrependeu de ter pegado os 10 reais, e devolveu para a garçonete. Porque ele viu uma câmera filmando o local, e quando passassem as imagens iam ver ele pegando a nota de 10 reais.
(Aluno I2-21 anos)
2- A aluna narra que estava num ônibus e não tinha troco por isso foi humilhada, ficou com vergonha e ainda pediu desculpas para o cobrador.
“Porque se fosse o contrario também faria o mesmo. Porque regras são feitas pra serem cumpridas. (Aluna F3-27 anos)
3- No lugar de Marcos nem devolveria o dinheiro a não ser que visse no momento o dono perdendo porque dinheiro não tem dono. (Aluno S2 –15 anos)
4-Uma vez achei um celular e eu fiquei indeciso se eu devolvia ou não o celular. Minha mãe falou pra eu devolver mas eu não queria devolver, meus irmãos também queria que eu devolvece, eu pensei muito e acabei devolvendo o celular pro dono. No fundo eu fiquei muito arrependido.
(Aluna Q3-15 anos)
Professores
SUPERVALORIZAÇÃO DA HIERARQUIA
1- A questão 1 fala sobre resolver o dilema, ora, a pessoa responsável por resolvê-lo na escola é a diretora. (E2)
2-No lugar de Marcos eu levaria o dinheiro à coordenadora para que fosse devolvido. É muito difícil para a diretora, porém, se julgar, ela deve ter cuidado, pois tudo vai para o inconsciente da pessoa- elogios e coisas erradas. Ela acabou marcando, pouco ou bastante, dependendo da sensibilidade da criança, a passagem deste aluno pela escola. (K2) 3-A diretora deveria ter chamado o menino para saber do ocorrido pela versão dele, o que tinha acontecido (D2)