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A prática docente especificamente humana é profundamente formadora, por isso, ética. Se não se pode esperar de seus agentes que sejam santos ou anjos, pode-se e deve-se deles exigir seriedade e retidão (FREIRE, 1996, p. 65).

Em relação à participação do tutor nas sessões tutoriais, os depoimentos dos alunos revelam o papel fundamental que o tutor representa para que a condução dos trabalhos ocorra de modo satisfatório. Segundo eles, a proximidade que existe entre o professor e os alunos nas tutorias permite a criação de um espaço onde ocorre um maior diálogo com o professor, o que propicia a troca de experiências e a resposta às dúvidas levantadas durante a fase de estudo individual e a discussão em grupo, sem que se sintam constrangidos em questionar o docente. Os alunos referem, ainda, que o professor-tutor, nesse método, pode estabelecer uma relação individual com cada integrante do grupo, podendo, dessa forma, melhor entendê-los e auxiliá-los em seus problemas relativos aos processos de aprendizagem e de formação.

Quando abordamos a questão relativa à necessidade ou não do tutor ser um especialista na área em estudo, a maioria considerou que, caso o tutor tenha conhecimento sobre a metodologia ABP e, portanto, sobre o processo tutorial, ele vai entender a importância de se preparar, de estudar para cada sessão tutorial, mesmo aqueles assuntos que não pertencem à sua área específica de atuação. Dessa forma, não há prejuízos para o aprendizado, conforme os relatos categorizados a seguir:

– Depende do professor, na realidade, porque tem alguns que não são especialistas, mas que se empenham, estudam e contribuem, mas tem outros que não estudam e não tão nem aí [...](A4).

– O tutor tem que estudar, pra discutir com a gente, ajudar, contribuir [...] (A4).

– Se o tutor não estuda, o tutorial não adianta de nada, é melhor a gente discutir entre nós, sem a presença dele (o tutor) [...] (A5).

– Se o tutor não estuda, a fala do aluno não é criticada e aí como é que ele pode ser avaliado?(A4).

– Quando a gente percebia que o tutor não sabia, não podia acrescentar nada, a gente procurava tirar as nossas dúvidas com os colegas, no tutorial, na discussão [...] (A5).

– Quando não estuda, o tutor não participa, não presta atenção no que falamos [...](A4).

– Aí o tutorial não funciona, fica chato, monótono, a gente fica frustrado [...] (A4).

–Se o tutor não for especialista, mas estudar os assuntos, aí é bom pra todos!(A5).

– Dá pra perceber quando o tutor estuda ou não estuda!(A5).

– Quando o tutor estuda, ele consegue estimular grupo, a discussão fica interessante, o tutorial é bom (A5).

– A riqueza é bem maior [...] (A4).

– É bom quando o tutor estuda, participa apontando o que é importante e aquilo que não é tão importante, quando comenta como se faz na prática e também contribui com a sua experiência pessoal, contando casos e situações que ele viveu, relacionadas ao problema (A4).

– Sabemos que é difícil para o tutor estudar, conciliar mais esta tarefa com os seus afazeres diários, principalmente se é sobre um assunto que ele nunca se depara, no seu dia-a-dia, diferente de sua área de especialização [...] (A4).

– É possível a realização de um bom tutorial, mesmo que o tutor não seja especialista (A5).

– Se não estuda, o tutor não contribui em nada [...] (A4).

Embora percebam as dificuldades enfrentadas pelo médico que também é professor para conciliar essas duas atividades, os alunos claramente compreendem que o compromisso com a atividade docente não é menos importante que aquele essencialmente inerente à prática clínica do médico-professor-tutor. Da mesma forma, manifestam que a dinâmica que se estabelece entre todos os participantes da sessão tutorial, é intensamente rica e proveitosa quando todos, alunos e tutor, se preparam adequadamente para esse encontro.

b) se o tutor conhece ou não os fundamentos do ABP:

– É importante que o tutor conheça bem o ABP, o que é o tutorial, os passos, como funciona, como o aluno deve ser avaliado, qual o papel de cada um no processo [...](A4).

– Sem saber o que é o ABP, não dá pra ser tutor [...] (A5).

– Tem tutor que não sabe o que tem fazer, como agir, como ajudar [...] (A4). – Pra ser tutor, antes de ser bom naquilo que ele faz como médico, ele tem

que ser bom professor, tem que saber ser professor [...](A4).

– Não importa que ele seja o melhor médico, mas se ele não for um bom

professor, isso daí pra gente não vai acrescentar nada, por mais conhecimento que ele tenha, ele não vai contribuir [...] (A4).

– São oito pessoas em torno de apenas uma pessoa, então quer queira, quer

não, a gente repara em tudo, um piscar de olhos do tutor, pra onde ele tava olhando, tudo isso a gente tá olhando [...] A gente faz essa interação [...](A4).

As falas anteriores relatam com clareza que a participação do tutor, sua postura, suas atitudes e o seu interesse no processo são constantemente submetidos ao crivo de avaliação que invariavelmente, ainda que de maneira velada, freqüentemente é realizado pelos estudantes. Nessa perspectiva lembramos Freire (1996, p. 65), ao dizer que:

A responsabilidade do professor, de que às vezes não nos damos conta, é sempre grande. A natureza mesma de sua prática eminentemente formadora, sublinha a maneira como a realiza. Sua presença na sala de aula é de tal maneira exemplar que nenhum professor ou professora escapa ao juízo que dele ou dela fazem os alunos. E o pior talvez dos juízos é o que se expressa na “falta” de juízo. O pior juízo é o que considera o professor uma ausência na sala.

Ademais, não podemos deixar de registrar o quanto é importante para os alunos que aqueles professores designados para atuar como tutores tenham recebido uma formação prévia adequada, não apenas relativa aos fundamentos da metodologia ABP, mas principalmente, no que se refere aos saberes necessários à sua participação como educadores, em particular, na educação médica, de maneira que possam conduzir a tutoria de forma satisfatória, a fim de que a mesma possa alcançar os seus objetivos.