Segundo May (2004, p. 151), as entrevistas de grupo constituem uma ferramenta valiosa de investigação, por permitir que os pesquisadores explorem as normas e dinâmicas grupais ao redor de questões e tópicos que desejam investigar. A extensão do controle da discussão do grupo determinará a natureza dos dados assim produzidos.
Trata-se de técnica qualitativa, não-diretiva, cujo resultado visa o controle da discussão de um grupo de pessoas. Foi inspirada em técnicas de entrevista não-direcionada e
técnicas grupais usadas na psiquiatria. Um moderador guia grupos de seis a dez pessoas numa discussão que tem por objetivo revelar experiências, sentimentos, percepções e preferências. O papel do moderador é promover a participação de todos, evitar a dispersão dos objetivos da discussão e a monopolização de alguns participantes sobre outros. Os participantes não precisam se conhecer, mas é importante que possuam características comuns. São incentivados pelo moderador a conversarem entre si, trocando experiências e interagindo sobre suas idéias, sentimentos, valores e dificuldades. Nessa técnica, o mais importante é a interação que se estabelece entre os participantes. O facilitador da discussão deve promover e facilitar a discussão e não realizar uma entrevista em grupo. Aos participantes e, principalmente, ao moderador-facilitador, cabe, ademais, como bem nos adverte Macedo (2004, p. 178):
uma certa atitude que consiste em demonstrar tolerância às ambigüidades, paradoxos, contradições, insuficiências, impaciências, compulsões, até mesmo sentimentos de rejeição ao tema tratado ou a sua metodologia. Nesse sentido, saber ouvir, interromper, fazer sínteses, reformulações, apelos à participação, apelos a complementos, à distensão, à maior objetividade, seriam habilidades recomendáveis.
Morgan (1997) define grupos focais como uma técnica de pesquisa que coleta dados por meio das intenções grupais ao discutir um tópico essencial sugerido pelo pesquisador. Como técnica, ocupa uma posição intermediária entre a observação participante e as entrevistas em profundidade. Pode ser também caracterizada como um recurso para compreender o processo de construção das percepções, atitudes e representações sociais de grupos humanos (VEIGA; GONDIM, 2001 apud GONDIM, 2002, p. 3).
A escolha da técnica de grupo focal como fonte de informação deve ocorrer após elucidação do propósito da pesquisa e a identificação de quem utilizará as informações. É fundamental que haja clareza quanto às informações necessárias, entender as razões de ser de cada uma delas e a sua adequação quanto à utilização da técnica grupo focal como forma de coleta de dados.
Ainda seguindo o pensamento de Macedo (2004, p. 179), “Enquanto técnica eminentemente grupal, o grupo nominal ou focal é extremamente válido para tratar com os objetos da pesquisa em educação, afinal de contas, a prática pedagógica se realiza enquanto prática grupal em todas as suas nuances.”
Nesse contexto, também devemos ser sensíveis ao fato de que entrevistas de grupo e individuais produzem perspectivas diferentes sobre as mesmas questões. Por essa razão,
podem prover uma compreensão valiosa tanto das relações sociais em geral como do exame dos processos e das dinâmicas sociais em particular. Ademais, deveremos ser cautelosos no que se refere à tendência de atribuir as opiniões desses grupos a populações inteiras, pois, embora este seja um meio rápido e de baixo custo para obtenção de dados, as questões relativas à seletividade, representação, validade e confiabilidade não podem ser esquecidas (MAY, 2004, p. 152).
As entrevistas são contatos sociais e não simplesmente meios passivos de obter informação. Portanto, é importante que os entrevistados saibam o que é requerido e que também entendam o que é esperado deles. Sem isso os entrevistados podem sentir-se em situação desconfortável, e isso pode afetar os dados resultantes. Por essa razão, o esclarecimento não é apenas uma condição prática, mas também ética e teórica (MAY, 2004, p. 154).
Assim, no nosso trabalho, os grupos focais foram realizados com os alunos, num espaço definido conforme preferências de cada grupo convidado, visando à expressão clara e à exposição de suas compreensões. Tais encontros ocorreram com o emprego de roteiros semi-estruturados que serviram de guia para a condução dos trabalhos. Em um momento prévio ao início de cada encontro, os objetivos do trabalho e a extrema importância da participação de cada um deles em todo o processo foram esclarecidos aos participantes, assim como também, a cada um dos alunos, foi oferecido um termo de esclarecimento e consentimento informado, para que o assinassem, se de acordo.
No presente trabalho, foram realizadas três sessões de grupo focal, envolvendo alunos dos quarto e quinto anos do Curso de Medicina da UESB, com a participação de seis a oito alunos por grupo e uma moderadora (a pesquisadora). Os encontros tiveram a duração média de uma hora e quarenta e cinco minutos e foram realizados em momentos distintos em espaço extra-universidade, respeitando as preferências de cada grupo.
Tais encontros seguiram um roteiro desenhado pela pesquisadora. Tal roteiro foi construído com base nos elementos constantes na literatura pesquisada, com questões norteadoras, motivadoras, com um forte apelo de convite aos participantes para a discussão, reflexão e expressão de suas compreensões sobre o processo tutorial na metodologia ABP, a fim de que pudessem atender aos objetivos dessa pesquisa sem, contudo, impor restrições expressivas de quaisquer espécie.Os debates foram gravados em formato digital (as gravações evitam que o pesquisador substitua as palavras do entrevistado pelas suas), e as falas foram posteriormente integralmente transcritas pela pesquisadora. Neles, os alunos foram estimulados a expressar suas compreensões acerca do processo tutorial, dentro da
metodologia ABP adotada pelo Curso de Medicina da UESB, e abordaram vários aspectos das atividades propostas (de conteúdo, do estudo, do trabalho em grupo, das discussões, das dificuldades encontradas, da metodologia, do desempenho do tutor, da autonomia, da formação, etc.).
Em respeito a um acordo prévio estabelecido entre a pesquisadora e os participantes, a fim de preservar a espontaneidade e a clara expressão daquilo que poderíamos considerar como “verdade”, as identidades das falas não foram apontadas, e o autor de cada uma delas foi assinalado, quando necessário, por meio de um símbolo alfa-numérico, em que o algarismo corresponde ao ano cursado pelo aluno. Participaram dessa pesquisa alunos que cursam o quarto e o quinto anos, portanto, os do quarto ano são assinalados como A4, e os do quinto ano como A5.