FORMAS DE DESRESPEITO
3 COMUNICAR PARA LEGITIMAR DECISÕES
3.2 Comunicação e participação social
É possível pensar um desenvolvimento socioambiental sem levarmos em consideração a participação social? Como os pesquisadores e os agentes de desenvolvimento podem melhorar sua comunicação com as comunidades locais? Como a comunicação pode facilitar a participação comunitária tanto em pesquisas quanto nas iniciativas de desenvolvimento, sobretudo quando se trata da gestão de seus próprios recursos naturais? Essas são algumas questões que nos remetem sempre a pensar a importância da participação social em processos de comunicação. Mas, para compreender esse procedimento operativo é necessário, primeiro, esclarecer o que se entende por participação.
Conforme explica Juan E. Díaz Bordenave, em seu livro O que é participação (2013), nenhum homem é uma ilha e desde suas origens o homem vive agrupado com seus iguais. As pessoas participam nas suas famílias ou em sua comunidade (grupos primários); no trabalho, com associações profissionais ou sindicatos (grupos secundários); e, na luta política, por meio de partidos políticos ou movimentos de classe (grupos terciários). A participação, como se percebe, esteve sempre presente - de forma mais ou menos intensa - nas formas históricas que a vida social foi tomando. Ela se apresenta em duas bases complementares: uma chamada de base afetiva e a outra chamada de base instrumental. Na primeira, participamos porque sentimos prazer em fazer coisas com os outros; na segunda, participamos porque fazer coisas com os outros é mais eficaz e eficiente que fazê-las sozinho. Ocorre, no entanto, que a participação não é somente um instrumento para a solução de problemas, mas, sobretudo, uma necessidade fundamental do ser humano, pois é por meio dela que o homem interage com outros homens, exprime sua tendência inata de realizar coisas e de afirma-se a si mesmo e ao mundo.
Mas, para se falar em participação social é preciso tratar dos processos de micro e de macroparticipação. A importância de fazer está distinção, de acordo com Díaz Bordenave (2013, p.23-24), refere-se ao fato de que “[...] muitas pessoas participam somente em nível micro sem perceber que poderiam – e talvez deveriam – participar também em nível macro, ou social”. O autor explica, que a microparticipação seria a associação voluntária de duas ou mais pessoas numa atividade comum na qual elas não pretendem unicamente tirar benefícios pessoais e imediatos. Já a macroparticipação, isto é, a participação macrossocial, compreende a intervenção das pessoas nos processos dinâmicos que constituem ou modificam a sociedade,
ou seja, essa participação deve incidir “[...] na produção dos bens materiais e culturais, bem como sua administração e seu usufruto”.
Díaz Bordenave enfatiza ainda que numa sociedade participativa existem diversas maneiras de se participar. Assim, podemos dizer que existem tipos diferenciados de participação, bem como graus de controle e níveis de importância nas decisões que levam à uma participação social mais ou menos qualificada.
Comecemos por explicar os tipos de participação. Para este autor, o primeiro tipo de participação é a participação de fato, ou seja, aquela que ocorre no seio da família nuclear, quer nas tarefas de subsistência (caça, pesca e agricultura), quer no culto religioso, na recreação ou na defesa contra inimigos; o segundo tipo seria a participação espontânea, aquela que leva os homens a formarem grupos de vizinhos, de amigos, cujo objetivo fim é o sentimento de pertencimento; o terceiro tipo seria a participação imposta, nos quais o indivíduo é obrigado a fazer parte do grupo e realizar certas atividades consideradas indispensáveis (a exemplo dos rituais de passagem em tribos indígenas ou o voto obrigatório nas eleições); o quarto tipo é o da participação voluntária, onde o grupo é criado pelos próprios participantes, que definem sua própria organização e estabelecem seus objetivos e métodos de trabalho (a exemplo dos sindicatos, das cooperativas ou dos partidos políticos); o quinto tipo seria a participação provocada, isto é, quando agentes externos ajudam outros a realizarem seus objetivos (por exemplo, a extensão rural, o serviço social, a educação em saúde, os trabalhos de pastorais e o desenvolvimento de comunidades); por fim, o sexto tipo de participação também chamada de participação concedida, ou seja, aquela em que parte do poder ou influência dos subordinados é considerada legítima por eles mesmos e seus superiores (a exemplo da participação nos lucros de uma empresa ou mesmo o chamado planejamento participativo quando implementados por alguns organismos oficiais que buscam restringir a participação nas relações primárias e criam a ilusão de uma participação política e social).
Em relação aos graus de controle na participação, Díaz Bordenave (2013, p. 30-31) enfatiza que “[...] não são iguais os membros participarem de atividades decididas pelo próprio grupo e participarem de atividades controladas por outro ou outros”. Para tanto ele utiliza um esquema (Figura 12) que ilustra os graus que pode alcançar a participação numa organização qualquer, do ponto de vista do menor ao maior acesso ao controle das decisões pelos membros.
Figura 12 – Grau de controle na participação
Fonte: DÍAZ BORDENAVE (2013).
Assim, o menor grau de participação é o da informação. Os dirigentes informam os membros da organização sobre as decisões já tomadas. Por pouco que parece, escreve o autor, isso já constitui certa participação, pois “[...] não é infrequente o caso de autoridades não se darem sequer o trabalho de informar seus subordinados” (DÍAZ BORDINAVE, 2013, p. 31). Em alguns casos, a reação dos membros às informações é levada em conta pelos superiores e pode gerar uma reconsideração à decisão inicial, contudo, em outros casos, o direito de reação não é tolerado.
Na consulta facultativa, explica o autor, a administração pode, se quiser e quando quiser, consultar os subordinados, solicitando críticas, sugestões ou dados para resolver um problema. Quando se trata de uma consulta obrigatória os subordinados devem ser consultados em certas decisões, embora a decisão final permaneça ligada aos dirigentes. É o caso das audiências públicas para licenciamento ambiental, elas são obrigatórias por lei, mas a decisão permanece no poder dos dirigentes e não da população consultada.
Um grau mais elevado de participação é a elaboração/recomendação na qual os subordinados elaboram propostas e recomendam medidas que a administração aceita ou rejeita, mas sempre sendo obrigada a justificar sua decisão final. Já em um grau superior está a cogestão, na qual a administração da organização é compartilhada mediante mecanismos de codecisão. Neste grau de controle, os membros exercem influência direta na escolha de um plano de ação ou na tomada de decisão. São os casos dos comitês, conselhos e outras formas de colegiados. A delegação é um grau de participação onde os administrados têm autonomia em certos campos ou jurisdições antes reservadas aos administradores. Por fim, o grau mais elevado de participação é a autogestão, na qual o grupo determina seus objetivos, escolhe
seus meios e estabelece os conteúdos pertinentes, sem interferência externa. “Na autogestão, desaparece a diferença entre administradores e administrados, visto que nela ocorre uma autoadministração” (DÍAZ BORDINAVE, 2013, p. 33).
Outra questão importante para o pensador latino-americano em termos de participação social é o nível de importância das decisões tomadas e cuja formulação os membros têm acesso. Em outras palavras, isso significa dizer que em qualquer grupo ou organização existem decisões de muita importância e outras menos importantes. Como exemplo, tem-se uma cooperativa de crédito com duas decisões a serem tomadas por seus membros em reunião: a primeira e, mais importante, diz respeito à decisão de passar também a ser uma cooperativa de consumo; a segunda e, menos importante, refere-se a decisão de pintar ou não a sala de reuniões da diretoria. Essas decisões podem ser organizadas em níveis, do mais alto ao mais baixo, a saber: Nível 1 – Formulação da doutrina e da política da instituição; Nível 2 – determinação dos objetivos e estabelecimento de estratégias; Nível 3 – Elaboração de planos, programas e projetos; Nível 4 – Alocação de recursos e administração de operações; Nível 5 – Execução das ações; Nível 6 – Avaliação dos resultados.
Ainda sobre os níveis de participação, o autor explica que enquanto há uma relativa disposição favorável a permitir a participação dos membros de uma determinada instituição ou de um movimento social nos níveis 5 e 6, isto é, na execução das ações e na avaliação dos resultados; nos níveis 1 e 2, de formulação de políticas e de planejamento, a participação fica restrita a poucos “burocratas”, “tecnocratas” ou “lideranças”. Entretanto, numa democracia participativa o objetivo é “[...] promover a subida da população a níveis cada vez mais elevados de participação decisória, acabando com a divisão de funções entre os que planejam e decidem lá de cima e os que executam e sofrem as consequências das ações cá embaixo”. (DÍAZ BORDENAVE, 2013, p. 34).
Ademais, existem circunstâncias de diversos tipos que condicionam o grau, o nível e a qualidade da participação. A grande influência da estrutura social sobre a participação é uma delas. Para Díaz Bordenave (2013, p. 41), o fato de nossa sociedade estar estratificada em classes sociais superpostas e com interesses antagônicos “[...] nos leva a perguntar se uma estrutura como a nossa favorece à participação, admitindo-se que só se participa realmente quando se está entre iguais”.
Outras duas circunstâncias seriam, aquilo que o autor chama de sistemas de solidariedade e sistemas de interesses. Os primeiros funcionam, sobretudo, em nível comunitário e nele a ação visa à identificação com o grupo e a solidariedade entre as pessoas,
dentro de um ambiente de relativa igualdade. “Os membros se vinculam por uma série de laços que constituem uma solidariedade orgânica” (DÍAZ BORDENAVE, 2013, p. 42).
Já nos sistemas de interesse, a ação visa o interesse individual no intuito de se distinguir dos demais, melhorando desta forma sua posição social. Segundo o autor, esse tipo de sistema é muito frequente nos setores de atuação econômica e mesmo política, nos quais vigoram a concorrência e a contínua atualização e renovação das desigualdades. Assim, “[...] os membros destes sistemas se apoiam mutualmente por fins utilitários numa solidariedade puramente mecânica e não orgânica” (DÍAZ BORDENAVE, 2013, p. 42).
Por fim, explica Díaz Bordenave, o problema da nossa sociedade é que com frequência o Estado se alia aos sistemas de interesse em detrimento dos sistemas de solidariedade. Prefere, inclusive, limitar drasticamente a participação destes no momento em que considerada que sua mobilização coloca em perigo o sucesso daqueles. Nesse sentido, ele ainda enfatiza que:
Numa sociedade regida mais pelos sistemas de interesse que pelos sistemas de solidariedade, com uma marcada estratificação socioeconômica, na qual umas classes exploram outras, a participação será sempre uma guerra a ser travada para vencer a resistência dos detentores de privilégios (DÍAZ BORDENAVE, 2013, p.42).
Nessa perspectiva, alguns aspectos tornam-se importantes para garantir uma dinâmica de participação na sociedade, são eles: a qualidade da informação produzida pelo grupo (sobre eles mesmos e seu ambiente) com a abertura de canais informativos confiáveis e desobstruídos; e a prática do diálogo, não como conversa, mas no sentido de se colocar no lugar do outro para compreender seu ponto de vista e respeitando a opinião alheia. Para entender melhor essas dinâmicas é preciso primeiro entender o que significa uma comunicação participativa.
Conceitualmente a comunicação participativa distingue a informação da comunicação. Define a informação como um processo unidirecional, orientado predominantemente ao conhecimento e sua transmissão verbal; enquanto que a comunicação é entendida como um processo de via dupla, é diálogo, interação, onde a fonte e o receptor são ambos ativos, são interlocutores e atuam em pé de igualdade84. O objetivo da comunicação, segundo Santos
84 A definição da Unesco é explícita ao afirmar que “Comunicação é um processo de interação social
(2001, p. 258), não é a mera informação ou a dominação pela persuasão, mas “[...] a compreensão recíproca, o enriquecimento mútuo, a comunhão, e, sobretudo, a participação na descoberta e na transformação da realidade”. Por meio do diálogo, a comunicação passa a ser considerada soberana por excelência, pois segundo a autora:
A consequência de privilegiar o diálogo como forma de comunicação é que no modelo participativo desaparece a noção de feedback tão caro aos modelos tradicionais da comunicação. O feedback proposto pela teoria cibernética, e adotado pelas demais ciências que se ocupam do estudo da comunicação, resulta de uma concepção de comunicação que privilegia a fonte no sentido de que cabe a ela escolher os conteúdos, iniciar o processo, selecionar os meios e transmitir a mensagem cabendo, ao “receptor” apenas receber e reagir (feedback) realimentando assim o processo (SANTOS, 2001, p. 258).
No diálogo desaparece a noção de fonte e receptor. Eles são substituídos pelos “interlocutores”, para representar que ambos os elementos do processo da comunicação são ao mesmo tempo emissor e receptor e, portanto, se “afetam” mutuamente. Conforme sugere Santos (2001, p. 258), esse é o esquema circular de comunicação, proposto por Díaz Bordenave, entre as décadas de 1970 e 1980, que rompe com a polarização dos modelos convencionais, representando a ideia do “significado compartilhado” como base da comunicação dialógica.
De lá para cá, a comunicação participativa tem sido considerada por diversos especialistas85 como um instrumento de trabalho eficaz que pode facilitar os processos de desenvolvimento comunitário e de pesquisas para o desenvolvimento. Ela visa a facilitar a participação da comunidade em suas próprias iniciativas de desenvolvimento graças à utilização de diversas estratégias de comunicação.
Entretanto, como sugere Peruzzo (1999, p. 143-145), ao se tratar da participação na perspectiva da democratização da comunicação, “[...] é recomendável percorrer um caminho que nos favoreça captar o processo com mais profundidade”, ou seja, compreendendo o nível de envolvimento ou de participação popular no processo comunicativo (Figura 13). Para tanto, Peruzzo utiliza-se dos três níveis apresentados por Jorge Merino Ultreras86 (produção de mensagens, materiais e programas; planejamento dos meios; e, gestão dos meios) e
experiências sobre condições de acesso livre e igualitário, diálogo e participação”, como lembra Peruzzo (1999, p.141).
85
Ver Akoun (1994); Brandão (1987); Bessette (2004; 2007); Gardère et Gardère (2008); Peruzzo (1999)
86 ULTRERAS, J.M. Comunicación popular alternativa y participatoria. Manuales didácticos. Quito, CIESPAL,
acrescenta mais um nível em suas análises (mensagem), tomando como base as experiências da América Latina
Desta forma, tem-se a Mensagem como primeiro nível ou nível reduzido de participação. Este compreende a participação pura e simples nas mensagens, “[...] representadas por entrevistas, depoimentos, denúncias, avisos, pedidos de músicas, entre outras possibilidades” (PERUZZO, 1999, p. 144); Em seguida, aparece a Produção de Mensagens como segundo nível de participação. Aqui a participação acontece mediante a aplicação da “capacidade pessoal e da qualificação técnica”, na produção sistemática e periódica de notícias, artigos, poesias e desenhos transmitidos pelo meio de comunicação. Mas, também, na preparação, elaboração e edição de materiais impressos, ou digitais, ou de programas de rádio e de televisão, “[...] exigindo o necessário domínio e o acesso a recursos da tecnologia” (PERUZZO, 1999, p.145). O terceiro nível de participação está relacionado ao Planejamento dos Meios. Este nível compreende a participação no “[...] estabelecimento da política editorial, dos objetivos e da formatação de programas e veículos, assim como dos princípios de gestão e das formas de sustentação financeira, além de planos ou políticas globais de comunicação em âmbito local, regional e nacional” (PERUZZO, 1999, p.145). E como nível mais avançado de participação, aparece a Gestão dos meios. Este último nível compreende a participação no processo de administração e controle do veículo ou da instituição de comunicação como um todo.
Figura 13 - Níveis de participação no processo comunicativo
Fonte: Adaptado de PERUZZO (1999)