• Nenhum resultado encontrado

FORMAS DE DESRESPEITO

3 COMUNICAR PARA LEGITIMAR DECISÕES

3.1 Comunicar e Informar: perspectivas possíveis no lugar social

Da comunicação animal à linguagem humana, da imprensa à televisão, da publicidade à internet, dos ruídos à opinião pública.... Tudo pode ser considerado como comunicação e troca de informação. Nascida na segunda metade do século XX, as Ciências da Informação e da Comunicação se transformaram num vasto campo de pesquisas “multidisciplinares” (WOLF, 2003) que buscam “acrescentar novas vozes” (MATTELART E MATTELART, 2009) às questões sempre contemporâneas. De lá para cá, diversos pesquisadores têm produzido modelos diferenciados de comunicação. Esses modelos, representados por esquemas, são a concretização de suas referências teóricas e de suas questões de pesquisa, mas também têm como objetivo servir de guia e orientar as análises dos fenômenos da comunicação.

Nosso intuito neste item é demonstrar que as teorias estão diretamente atreladas às preocupações históricas e sociais de seu tempo. Por isso, as definições de comunicação e informação estão em constante mutação, assim como as problemáticas que as cercam. Cada aproximação, por um modelo, busca dar uma inteligibilidade e coerência à pesquisa, ou seja, um sentido ao fenômeno comunicacional analisado sobre um determinado ponto de vista. Nenhum desses modelos carrega consigo a exclusividade da “verdade”. Ao contrário, cada um busca um entendimento preciso sobre um determinado fenômeno. Em outras palavras, cada esquema funciona como uma lente que permite visualizar a comunicação de diferentes ângulos. Os modelos esquemáticos que apresentaremos a seguir serão divididos em três categorias, propostos por Mucchielli (2008): A) os modelos positivistas; B) os modelos sistêmicos; C) os modelos construtivistas.

A) Os modelos positivistas

Os dois modelos de comunicação que serão apresentados abaixo fazem parte de uma mesma linha epistemológica, isto é, são essencialmente positivistas. Eles buscam resolver problemas comunicacionais numa perspectiva de causa-efeito.

Modelo da teoria da informação - O primeiro modelo de comunicação (Figura 04)

foi proposto pelo matemático e engenheiro estadunidense Claude E. Shannon, em seu artigo The Mathematical Theory of Communication, publicado no Bell System Technical Journal, em 1948. Shannon, então funcionário da Bell Telephon, propõe um modelo linear de comunicação que busca compreender qual é a melhor forma para codificar a informação que um emissor queira transmitir para um receptor por meio de um canal (telefone, telegrafo...). Em 1949, com a publicação do livro The Mathematical Theory of Communication, em co- autoria com o também matemático estadunidense Warren Weaver, é que a teoria da informação passa a ser amplamente divulgada. Esta teoria foi a primeira a considerar a comunicação como um problema matemático rigorosamente embasado nos ramos da estatística e da teoria da probabilidade. Ela possibilitou aos engenheiros da comunicação um modo de determinar a capacidade de um canal de comunicação em termos de ocorrência em “bits”61

. Importante destacar que esta teoria considera que de um lado da comunicação há uma fonte e do outro um receptor. A fonte transmite um sinal que é captado pelo receptor. O sinal pode ser impedido por ruído e a mensagem chegar de forma distorcida ao destinatário. Este modelo ocupa-se do ato de codificar e descodificar mensagens. Ele não se preocupa com a semântica dos dados transmitidos, mas pode envolver aspectos relacionados com a perda de informação na compreensão e na transmissão da mensagem devido aos ruídos presentes no canal ou no processo de transmissão.

Modelo da comunicação em dois níveis – Produto dos estudos que eram

desenvolvidos nos Estados Unidos na década de 1950, este modelo de comunicação (Figura 05) busca analisar a influência que as mídias (rádio e televisão) podem exercer sobre o público em duas etapas de recepção (Two-Step Flow). Mas porque duas etapas? Porque segundo as pesquisas de Paul Lazarsfeld, a mídia não agiria diretamente sobre o público. A influência da mídia passaria por um grupo intermediário, conhecido como “líderes de opinião”. Estes, por sua vez, estariam diretamente ligados a outros grupos e influenciando a opinião dos indivíduos. De acordo com Mucchielli (2008, p. 60), “no começo, o objetivo era de reduzir o público as manipulações da propaganda; em seguida, o problema foi tentar aumentar a eficácia das campanhas eleitorais”62. Atualmente, este esquema é muito utilizado

61 Bit (significação para o dígito binário) é a menor unidade de informação que pode ser armazenada ou

transmitida, usada na computação e na Teoria da Informação. Um bit pode assumir somente dois valores: 0 ou 1, que significa corte ou passagem de energia respectivamente.

62 Tradução livre de « Au début, l‟objectif était de soustraire le public aux manipulations de la propagande;

na publicidade, pois acredita-se que uma vez identificados os líderes de opinião, é possível influenciar as pessoas que estão à sua volta.

Figura 04 - Modelo da Teoria da Informação

Fonte: MUCCHIELLI, 2008.

Figura 05 - Modelo da Comunicação em dois níveis

Fonte: MUCCHIELLI, 2008.

B) Os modelos sistêmicos

Os modelos de comunicação do tipo sistêmicos visam a analisar a permanência e as mudanças dos sistemas de comunicação. Conforme Mucchielli (2008), eles são elaborados a partir de pesquisas realizadas nos anos 50 e 60, sobretudo na Europa, e estabelecem uma

ruptura epistemológica em relação aos modelos precedentes, haja vista que pela primeira vez emerge uma noção de “estrutura” ou de “relação” nos estudos comunicacionais.

Modelo sociométrico – Este modelo pode ser considerado como o primeiro a ser

parcialmente sistêmico (Figura 06). Nele, a comunicação é definida como uma relação de afinidades (positivas ou negativas, de simpatia ou antipatia) estabelecida em um local de trocas. Ao mesmo tempo, ele também pode ser considerado como um canal privilegiado de transporte de informação, pois “a estrutura informal do grupo vai facilitar ou não a passagem da informação”. Por exemplo, ao se criar um novo grupo de trabalho, inicialmente se interroga cada integrante do grupo para saber o que ele deseja ou não deseja trabalhar. Ao final, recolhe-se tanto os aspectos positivos, quanto os negativos. Estes, por sua vez, serão traduzidos na forma de um diagrama chamado “sociograma”. Para Mucchielli (2008, p. 63), o problema principal para os pesquisadores desta época é centrar-se sobre a “estrutura afetiva” dos grupos e sobre os “papéis” ocupados pelos membros do grupo. Enquanto que a principal questão que sustenta este modelo é: Qual mudança deve-se operar para melhorar a forma e a estrutura do local de trocas?

Figura 06 - Modelo sociométrico

Fonte: MUCCHIELLI, 2008.

Modelo transacional – Já nos anos 70, o modelo de comunicação que prevalecia era o

análise transacional63 e seu interesse centra-se sobre os jogos de relações e os tipos de comunicações implícitas que se estabelecem nas relações interpessoais. A noção de regra do jogo ou de sistema interativo também pode ser encontrado nas análises de Paul Watzlawick e em outros autores da Escola de Palo Alto que buscam explicar a noção de comunicação paradoxal. Além disso, o modelo de análise transacional faz referência à psicologia permitindo observar a comunicação em diversos níveis: o nível normativo (parental), o nível racional (adulto) e o nível emotivo (criança). A partir deste modelo, é possível evidenciar a existência de transações visíveis e socialmente aceitáveis, mas também transações escondidas e ligadas às motivações individuais.

Figura 07 - Modelo transacional

Fonte: MUCCHIELLI, 2008.

Modelo interacionista e sistêmico – Este modelo de comunicação é encontrado

principalmente nos trabalhos realizados na Escola de Palo Alto e traz consigo uma nova definição da comunicação (Figura 08). Os pesquisadores desta escola estão interessados nos sistemas de trocas e nas comunicações paradoxais. Para ilustrar este modelo, Mucchielli (2008) utiliza-se da análise do “jogo burocrático à francesa” 64, realizado pelo sociólogo

63 A análise transacional pode ser considerada como o início da psicoterapia, mas também como uma teoria da

psiquiatria social, pois ela se propõe a estudar o psiquismo das pessoas ao analisar suas relações sociais. Ela retira seu nome da palavra “transaction” em inglês que se designa a uma troca, verbal ou não.

Michel Crozier65 que, em suas análises descreve as tendências burocráticas e o sistema de relações entre indivíduos nas organizações modernas, sobretudo na França. Este modelo de comunicação se assemelha muito a um jogo de xadrez, ou seja, existem regras que regem o todo (sistema). Nele, a comunicação se estabelece em níveis hierárquicos (subordinados e superiores) evitando uma discussão mais franca e direta (face-a-face). O resultado desse sistema, segundo os estudos de Crozier, seria uma falta de eficácia e de iniciativa em função das regras estabelecidas.

Figura 08 - Modelo interacionista e sistêmico

Fonte: MUCCHIELLI, 2008.

Modelo de orquestra – O modelo de orquestra (Figura 09) foi introduzido por Yves

Winkin66, no seu livro La nouvelle communication (1981). Neste modelo, a comunicação é definida como uma produção coletiva de um grupo que trabalha sob o comando de um líder. De acordo com Mucchielli (2008), a problemática principal a ser analisada por meio deste modelo é compreender como se articulam as trocas individuais para que finalmente ocorram produções coletivas. Como numa orquestra, a comunicação é uma “produção coletiva” que depende da interação e participação de todos os músicos que integram a orquestra para que se chegue a uma única sinfonia. Por fim, é interessante notar que os espectadores também fazem

65 Em 1959, Crozier é convidado pela Fundação Ford a participar da Escola de Palo Alto, na Califórnia, e

começa a ter seus textos publicados em inglês.

66

Professor da Universidade de Liège e da Escola Superior de Letras e Ciências Humanas de Lyon, Winkin é mundialmente reconhecido por seu trabalho sobre antropologia da comunicação, onde ele se propõe a analisar o mundo social a partir de uma antropologia cognitiva, visual e simbólica.

parte do sistema, pois a orquestra interage com seu público, criando a cada nova apresentação uma expressão coletiva diferenciada.

Figura 09 - Modelo de orquestra

Fonte: MUCCHIELLI, 2008

C) Os modelos construtivistas

Os dois modelos que serão apresentados a seguir integram, segundo Mucchielli (2008), uma base epistemológica ligada às teorias construtivistas e em contraposição ao realismo. Isso significa dizer que para os modelos construtivistas não existe um “sistema de comunicação” pré-definido, pois se considera a comunicação como um debate latente, que se elabora (constrói) entre os atores reunidos numa estrutura social. O significado do debate não está explícito no início, ele deriva das várias interpretações que ocorrer no próprio debate, haja vista que o intuito da comunicação é a construção do saber e do sentido partilhado.

Modelo de hipertexto – Este modelo é considerado como construtivista (Figura 10)

porque considera a comunicação como um debate (um texto) que liga os atores a uma estrutura social. O sentido do debate, no entanto, não está presente no seu início, mas se desenrola a partir da leitura de certo número de interpretações sobre o próprio debate. Este modelo, segundo Mucchielli (2008, p. 55), é uma metáfora daquilo que estamos habituados a lidar nos computadores e nas redes sociais, ou seja, “[...] de um texto que aparece sobre a tela do computador, podemos clicar em cima de uma palavra que nos levará a outras explicações e

comentários”67

que, por conseguinte, levará o analista da mensagem a formular outros sentidos à comunicação. Importante enfatizar que neste modelo de hipertexto repousam pelo menos duas questões: Qual o debate implícito que pode emergir dos comentários feitos? Como cada um interpreta e retraduz a mensagem inicial?

Figura 10 - Modelo de hipertexto

Fonte: MUCCHIELLI, 2008

Modelo situacional – Este modelo visualiza a comunicação como um processo

(Figura 11). Ele consiste em fazer aparecer os diferentes contextos (ou dimensões da situação) dentro das quais toda a comunicação funciona necessariamente. Para que as trocas de sentidos ocorram é preciso compreender os contextos nos quais a comunicação se desenrola. Contudo, tais contextos estão diretamente ligados a outras situações que devem ser levadas em consideração pelo analista: o contexto de posicionamentos relativos, de intencionalidade, de ações estruturantes, de constrangimentos situacionais, de temporalidade e de questionamentos dos atores, etc. Já o sentido final da comunicação é uma síntese dos diferentes significados que aparecem por meio desses contextos. Assim, afirma Mucchielli (2008), a interpretação do fenômeno de comunicação observado terá suas raízes dentro de um processo de diferentes contextualizações, cujas referências e os significados das trocas são plurais e o “sentido partilhado” passa ser o objetivo fim.

67 Tradução livre de « [...] dans le texte qui apparaît sur l‟écran de l‟ordinateur, on peut cliquer sur un mot pour

Figura 11 - Modelo situacional

Fonte: MUCCHIELLI, 2008

A partir da exposição desses modelos comunicacionais é possível constatar que tanto a definição do termo comunicação quanto os problemas relacionados à ação de se comunicar variam em função de preocupações sociais. Por exemplo, enquanto o desafio dos modelos positivistas é o de analisar os efeitos da comunicação e sua eficácia, para os modelos sistémicos o intuito é o de analisar a permanência e as mudanças dos sistemas de comunicação. Já a preocupação comum aos dois modelos construtivistas refere-se à construção de um “sentido partilhado” da mensagem pelos atores comunicacionais. Cabe ao pesquisador, dispor de teorias e modelos suficientemente variados para melhor enquadrar o fenômeno a ser analisado.

No caso específico desta pesquisa, entende-se que o modelo mais adequado para analisar o processo de comunicação dos riscos socioambientais da transposição seja o modelo situacional68, pois a partir dele pode-se responder sete questões importantes para a constatação de que há ou não há um sentido partilhado no processo comunicacional analisado. São elas: “Quais questões identitárias e com qual intencionalidade? ”, “Que contexto normativo? ”, “Qual posicionamento? ”, “Qual o contexto interacional e qual a qualidade da relação? ”, “Qual o contexto temporal? ”, “Qual o contexto espacial? ”, e, “Qual o contexto sensorial? ”.

Conforme análise de Armand e Michele Mattelart (2009, p. 10), a história das teorias da comunicação não pode ser compreendida a partir de uma abordagem excessivamente cronológica, pois o “fluxo e refluxo de problemáticas impedem que se conceba essa trajetória de modo linear”. Os autores buscam demonstrar que “[...] antigos debates sobre objetos e estratégias de estudo, há muito tempo julgados resolvidos e ultrapassados, repentinamente voltam a surgir”. É o caso da metodologia etnográfica em comunicação, inicialmente utilizada por integrantes da Escola de Chicago, nas primeiras décadas do século XX, que procuravam compreender as interações sociais com base numa microssociologia que parte das manifestações subjetivas do ator. Esse tipo de metodologia retorna nos anos oitenta “[...] por ocasião da crise de visões totalizantes da sociedade” e, novamente, são adotadas em pesquisas de comunicação no século XXI, sobretudo quando se discute a comunicação e a participação social de comunidades minoritárias em sociedades democráticas.

Já Dominique Wolton, em seu livro Penser la communication (1997), afirma que a comunicação é uma área particularmente difícil de ser analisada, porque se trata de uma atividade humana por excelência. Cada um se encontra simultaneamente nos papéis de ator e analista, e pensa não precisar de nenhum conhecimento além dos que já possui para compreender o básico.

Contudo, enfatiza Wolton (1997), são os estudos acadêmicos que pesquisam os efeitos, origens e funcionamento do fenômeno da Comunicação Social em seus aspectos tecnológicos, sociais, econômicos, políticos e cognitivos. No que se refere ao plano teórico, a comunicação apresenta-se como um campo de pesquisa que mobiliza em torno de dez disciplinas: antropologia, linguística, filosofia, direito, psicologia, história, sociologia, economia, ciências políticas e ciências cognitivas. Assim, explica o autor, falar de conhecimentos para comunicação é conservar no espírito a necessidade de uma abordagem interdisciplinar.

A comunicação é um objeto de conhecimento interdisciplinar, proporcional à sua dimensão antropológica, e essa dimensão de cruzamento deve ser preservada para evitar uma especialização que, aparentemente, transmite segurança, mas que na realidade é redutora e empobrecedora” (WOLTON, 1997, p. 69)69

69

Tradução livre de « La communication est un objet de connaissance interdisciplinaire, à la mesure de sa dimension anthropologique, et cette dimension de carrefour doit être préservée pour éviter une spécialisation, apparemment rassurante, mais en réalité réductrice et appauvrissante ».

É preciso, portanto, pensar a comunicação dentro de seu contexto, ou seja, compreender que não há comunicação sem sociedades e que são os contextos sociais que darão sentido e especificidade os procedimentos de comunicação aparentemente normatizados. Essa comunicação, atrelada aos contextos sociais, acontece por vários motivos, mas Wolton (2011, p. 17) sinaliza pelo menos três razões que nos estimulam a querer entrar em contato com alguém. A primeira razão estaria diretamente ligada ao sentido de compartilhar, pois “viver é se comunicar e realizar trocas com os outros de modo mais frequente e autêntico possível”. A segunda razão diz respeito ao desejo de sedução, “inerente a todas as relações humanas e sociais”. E, finalmente, a terceira razão seria a convicção, “ligada a todas as lógicas de argumentação utilizadas para explicar e responder a objeções”.

A informação também estaria dividida em três grandes categorias - oral, imagem e texto -, sendo que tais dados informacionais estão presentes em diversos suportes. Neste sentido, “tem-se a informação-notícia ligada à imprensa; a informação-serviço, em plena expansão mundial graças à internet; e a informação-conhecimento, sempre ligada ao desenvolvimento dos bancos e bases de dados” (WOLTON, 2011, p. 17).

O que estaria faltando, conforme o autor francês, seria a informação-relacional. Esta categoria informacional permearia todas as demais categorias remetendo ao desafio humano da comunicação. Mas, para que essa categoria informacional possa existir é preciso que haja um pleno reconhecimento não somente do emissor, mas também do receptor da mensagem durante todo o processo comunicativo. De acordo com Wolton (2011, p. 18), nada pode ser mais simples do que os “[...] discursos mais ou menos hostis à comunicação que desvalorizam o estatuto do receptor, sempre sob suspeita de ser meio estúpido e facilmente manipulável”. Para este autor, “o receptor, que nunca foi passivo, está cada vez mais ativo para resistir ao fluxo de informações”. Portanto, “seria mais adequado falar em receptor-ator para destacar o aspecto dinâmico dessa função” no processo comunicativo que nos obriga a pensar a comunicação não mais como transmissão de mensagens, mas, sobretudo, como negociação entre os diversos atores sociais. Sobre isso, Wolton também escreve:

Ontem, comunicar era transmitir, pois as relações humanas eram frequentemente hierárquicas. Hoje, é quase sempre negociar, pois os indivíduos e os grupos se acham cada vez mais em situação de igualdade. O conceito de negociação pertence,

de resto à cultura democrática. Inexiste negociação em sociedades autoritárias ou

totalitárias [...]. Quanto mais os indivíduos estão bem-informados, mais eles criticam e negociam. (WOLTON, 2011, p. 19).

Em seu livro La communication contre l’information, Daniel Bougnoux (1995), busca fixar uma base sólida para esses dois conceitos fundamentais à disciplina de Ciências da Informação e da Comunicação, com o objetivo de melhor pensar a influência da mídia em nosso tempo. De acordo com o autor, quando falamos de tecnologias da informação e da comunicação associamos tranquilamente essas duas palavras. Mas, ao mesmo tempo, geramos confusões apressadas na utilização dos termos. Portanto, para que não haja erro interpretativo, é necessário compreende-los de antemão, haja vista que “[...] informação e comunicação cobrem duas culturas, duas lógicas e, por vezes, dois trabalhos completamente distintos no campo midiático” (BOUGNOUX, 1995, p. 6)70

.

Para desenvolver este raciocínio, Bougnoux utiliza-se de um axioma simples e rico proposto por Watzlawick e outros autores da Escola de Palo Alto71 (1972, p. 52), no livro Une logique de la communication, onde afirmam que “toda comunicação apresenta dois aspectos: o conteúdo e a relação, sendo que o segundo engloba o primeiro e, portanto, é uma metacomunicação”72

. De acordo com os autores da Escola de Palo Alto, a escolha em afirmar que a relação engloba o conteúdo, pode parecer um tanto quanto arbitrária. Pois, numa análise lógica estaria correto dizer que a classe se define por seus elementos e, então, o conteúdo definiria a relação. Contudo, o interesse dos autores não está relacionado às trocas de informação, mas ao pragmatismo da comunicação.

Com base neste axioma, Bougnoux (1995, p. 13) pretende demonstrar que “[...] há uma primazia vital, inalienável da relação que traz, revela e reforça a mensagem da informação propriamente dita”73. Pois, para ele, não existe informação em si. “Toda informação está intimamente relacionada ao sujeito cognoscente, a sensibilidade de seus sensores, sua cultura e sua curiosidade” (BOUGNOUX, 1995, p. 15)74

. Por outro lado, este mesmo sujeito cognoscente se depara com um “muro informacional” que está diretamente relacionado ao seu estado organizacional e suas aptidões cognitivas que geram um mundo próprio e altamente compartilhado. Sobre isso, o autor enfatiza que:

70 Tradução livre de « [...] l‟information et communication recouvrent deux cultures, deux logiques et parfois