2. Enquadramento teórico
2.2. Modelos pedagógicos
2.2.3. Comunidade de aprendizes
No modelo de instrução da comunidade de aprendizes, os alunos adquirem informações através da colaboração com outras crianças e com os adultos. Esta aquisição de conhecimento é realizada através de atividades direcionadas para a história e as práticas atuais da comunidade. (Rogoff, Matusov & White, 2000).
Este modelo não consiste em um equilíbrio dos outros anteriormente abordados (operado pelo adulto e operado pela criança), mas sim um modelo distinto que tem por base uma filosofia diferente. Assim, “Uma das evidências de sua singularidade é a dificuldade sentida pelos indivíduos que tentam ver sua estrutura sob a perspectiva das teorias de transmissão ou aquisição da aprendizagem (ou modelos de instrução operados adulto ou operados pelas crianças), (…).” (Rogoff, Matusov & White, 2000, p. 329).
Na comunidade de aprendizes todos desempenham um papel ativo, o que quer dizer que ninguém possui toda a responsabilidade mas também ninguém assume um
29 papel passivo. Deste modo, as crianças têm um papel ativo na construção da sua aprendizagem, e os adultos acabam por ter a função de coordenadores das atividades, servindo de orientadores para as crianças. (Rogoff, Matusov & White, 2000). Percebe- se deste modo, que os adultos oferecem às crianças um suporte de apoio para a sua aprendizagem e desenvolvimento, tendo em conta as capacidades de cada um, ou seja, o que conseguem realizar e também têm em atenção os interesses de cada criança.
Desta forma, compreende-se que “Em uma comunidade de aprendizes, adultos e crianças, juntos, são ativos na estruturação dos estudos, embora geralmente com assimetria de papéis.” (Rogoff, Matusov & White, 2000, p. 329). Isto significa que, tanto as crianças como os adultos fazem parte integrante do processo de aprendizagem, sendo que a principal função dos adultos é orientarem as crianças na realização de atividades, de forma a proporcionarem uma melhor aprendizagem às mesmas.
No que concerne às escolas organizadas como comunidades de aprendizes, os autores consideram que as mesmas são mais autoconscientes em relação à sua organização, e que desta forma, contribuem para a promoção da aprendizagem das crianças, fornecendo uma maior reflexão e atenção relativamente ao processo de aprendizagem, sendo estas escolas bastante diferentes daquelas que se guiam pela aprendizagem informal. (Rogoff 1994 citado por Rogoff, Matusov & White, 2000).
Assim, a aprendizagem nas escolas organizadas como comunidades de aprendizes, dá muito mais importância à aprendizagem das crianças do que outras escolas que não sigam esta perspetiva, pois estas limitam-se a prestar importância a metas que querem alcançar, descurando por vezes, as crianças e a relevância das mesmas nas escolas.
As comunidades de aprendizes apresentam diversas características, nomeadamente ao nível das relações dinâmicas e complementares, responsabilidades partilhadas, multiplicidade de recursos, papéis variados e interações dialógicas, sendo que todas estas caraterísticas estão bastante ligadas. (Rogoff, Matusov & White, 2000). Assim, as comunidades de aprendizes visam que nas escolas, as relações sejam de caráter dinâmico, levando a que as responsabilidades sejam partilhadas, ou seja, que exista ajuda entre as crianças. É também desejado que as crianças possam aceder a diversificados recursos, como forma de aprofundarem os seus conhecimentos, que as mesmas possam desempenhar diferentes papéis, ou seja, que todos tenham a
30 possibilidade de participar e para isso, é fundamental que exista sempre o diálogo, pois o mesmo, faz com que as crianças expressem as suas necessidades e interesses e também, as suas aprendizagens.
“In a learning community the goal is to advance the collective knowledge and, in that way, support the growth of individual knowledge (Scardamalia & Bereiter, 1994). It positions learning as a process of negotiation among the individuals in a learning community, and sees individual learning as rooted in the culture within which the individual learns (Prawat & Peterson, 1999). In learning communities, social relations and knowledge-creation meet. Knowledge (both individual and shared) is seen to be the product of social processes.” (Watkins, 2005, p. 48).
Então, as comunidades de aprendizes visam essencialmente, que haja um progresso no conhecimento, apoiando o conhecimento individual e visualizam este conhecimento, como estando fixado na cultura em que o indivíduo está inserido. Uma vez que as culturas contribuem para as relações sociais, onde o conhecimento é de certa forma, combinado entre vários participantes.
O papel da criança deve ser ativo, pois a mesma contribui para a aprendizagem, tanto a dela própria, como dos colegas e dos adultos, uma vez que existe uma troca partilhada de conhecimentos. Neste tipo de escolas, as crianças são mais propícias a desenvolverem as suas capacidades, nomeadamente a nível social, entre outros.
O adulto tem o papel de desenvolver atividades de forma cooperada, pois assim está a promover o desenvolvimento na aprendizagem das crianças de uma forma partilhada, uma vez que existe troca de experiências e vivências.
Assim, podemos dizer, que apesar de existirem distinções entre o papel da criança e o do adulto, ambos se complementam e assumem os mesmos papéis, pois visam a participação ativa, para originarem aprendizagens ricas e partilhadas. Considero assim, que as salas de aula em comunidade têm um funcionamento bastante especial, uma vez que prestam atenção a diferentes aspetos, nomeadamente à valorização da criança a vários níveis.
“When classrooms operate as communities, a wider range of roles becomes available, both for the classroom and for each participant: students began to view themselves in different roles and speak about themselves in different ways.” (Elbers & Streefland, 2000ª, citado por Watkins, 2005, p. 53).
31 Em suma, estas comunidades de aprendizes contribuem para o poder e tomada de decisão das crianças, pois nem sempre as mesmas têm possibilidade de desempenhar essas funções noutras escolas, que não sigam a perspetiva das comunidades de aprendizes. Assim, estas visam que o discurso seja transformado em diálogo, pois é através do mesmo que as crianças expressam as suas dúvidas e opiniões, e desta forma podem vir a participar na tomada de decisões.