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2. Enquadramento teórico

2.1. Teorias do desenvolvimento e da aprendizagem

2.1.1. Piaget

O modelo teórico de Piaget “enfatiza os aspetos pessoais no desenvolvimento cognitivo e o papel do indivíduo na construção do seu próprio desenvolvimento.” (Melo & Veiga, 2013, p.268). Importa assim referir, que o processo de desenvolvimento, para este autor, é definido por um conjunto de estágios que diferem qualitativamente uns dos outros. Piaget menciona a existência de quatro estágios: “o sensório-motor (do nascimento aos 2 anos), o pré-operacional (2 a 7 anos); o estágio das operações concretas (7 a 12 anos) e, por último, o estágio das operações formais que corresponde ao período da adolescência (dos 12 anos em diante).” (Palangana, 2001, p.23).

O desenvolvimento cognitivo é sustentado por três princípios, sendo estes considerados cruciais no processo de desenvolvimento. Então, o primeiro assenta no facto de que o ser humano consegue estabelecer uma relação com o meio devido à inteligência, no entanto, Piaget considera que não é apenas referente à adaptação biológica mas também à adaptação psicológica através do conhecimento dos objetos. Em relação ao segundo princípio, Piaget revela que o pensamento do ser humano é construído através do desenvolvimento e não é algo que nasce com ele. Por fim, o terceiro princípio elucida para o facto de o conhecimento ser construído quer pelo sujeito quer pelo objeto, através da interação entre ambos. (Salvador, Mestres, Goñi & Gallart, 1999).

Piaget apresenta também, quatro fatores essenciais no desenvolvimento cognitivo, nomeadamente a maturação orgânica, a experiência com os objetos físicos, a

20 experiência e a interação com outras pessoas e o mecanismo de equilibração. Os três primeiros fatores referidos são indispensáveis no processo de desenvolvimento, todavia o mecanismo de equilibração assume também um papel decisivo, uma vez que acaba por controlar os três primeiros. Assim, irei posteriormente analisar cada um destes fatores de forma mais pormenorizada. (Salvador et al, 1999).

Em relação à maturação, pode-se dizer como foi já referido anteriormente, que é bastante relevante para o desenvolvimento cognitivo, pois permite o surgimento de novas condutas, ou seja, de novos comportamentos. A maturação assume um papel relativo aos diferentes estágios pertencentes à teoria de Piaget, pois o ser humano passa por estes estágios para atingir a maturação, por essa razão a sua função é essencialmente o surgimento de novos comportamentos. Percebe-se agora, que a perceção das crianças está dependente da sua maturidade (Salvador et al, 1999).

A experiência com os objetos físicos é também bastante relevante para o desenvolvimento, sendo que para Piaget a experiência que o ser humano vai adquirindo está bastante relacionada com os objetos, ou seja, os mesmos são um importante suporte para o processo de desenvolvimento do ser humano (Salvador et al, 1999).

No que diz respeito ao terceiro fator, a experiência e interação com outras pessoas, pode-se dizer primeiramente que o mesmo se assemelha um pouco ao fator anterior. Assim, Piaget considera que a cooperação entre as pessoas contribui para o seu desenvolvimento, pois a cooperação intelectual é determinante para o processo de desenvolvimento (Salvador et al, 1999).

Por último, Piaget apresenta o fator relativo ao mecanismo de equilibração, dizendo que este é um suporte dos fatores anteriormente analisados, sendo igualmente determinante no processo de desenvolvimento. Então, a equilibração visa proporcionar o equilíbrio entre o sujeito e o seu meio, desta forma compreende-se o porquê do autor considerar este fator como um suporte, pois o mesmo regula os anteriores (Salvador et al, 1999).

Deste modo, torna-se preponderante a compreensão de alguns conceitos associados ao processo de equilibração, nomeadamente a assimilação, a acomodação e o equilíbrio. Para Piaget, o desenvolvimento cognitivo vai ao longo do tempo sofrendo alterações, o que acaba por provocar um desequilíbrio nos esquemas, isto é, nas diversas

21 ações que se podem repetir ou ser aplicadas a outros objetos. É aqui que surge a necessidade da assimilação e da acomodação, pois é desta forma que se tenta alcançar o equilíbrio (Salvador et al, 1999).

Então, o autor defende que a assimilação corresponde à aquisição de novos conhecimentos e que a acomodação é referente a momentos em que o sujeito adquire novos conhecimentos e tem de adaptá-los aos já estruturados no indivíduo. Estes dois processos de desenvolvimento são considerados pelo autor como básicos, uma vez que a passagem de um para o outro assenta em uma adaptação. Por fim, surge o equilíbrio que permite a construção do conhecimento, visto que é necessário que haja um ajuste relativamente à nova informação e à informação já existente. O desenvolvimento é desta forma, definido como uma equilibração progressiva, na medida que o sujeito ao longo do tempo passa de um estado de menor equilíbrio para um estado de maior equilíbrio, sendo que as crianças vão adquirindo novos conhecimentos (Salvador et al, 1999; (Ferreira & Fernandes, 2012; Peres, Vieira, Altafim, Mello & Suen, 2014).

Piaget defende que o desequilíbrio abordado anteriormente é referente ao conflito sociocognitivo, acrescentando ainda que este conflito se deve às interações sociais, essencialmente entre as crianças. A interação verbal é apontada como uma resolução para este conflito, podendo no entanto não ser suficiente (Melo & Veiga, 2013).

São várias as investigações que revelam que quando o conhecimento é estruturado em conjunto, ou seja, quando é propício a interações, irá existir um maior sucesso do que quando os alunos trabalham individualmente (Melo & Veiga, 2013). Então, “A interação entre pares é mais facilitadora que a simples interação entre crianças e professores, dadas as perspetivas partilhadas e experiências de vida que as crianças traziam para o processo de escrita colaborativa, (…).” (Melo & Veiga, 2013, p. 282). Ou seja, por vezes, as crianças conseguem compreender melhor a linguagem dos colegas do que a dos professores.

As interações entre as crianças são propícias a ricos momentos de aprendizagem, pois possibilitam a partilha de conhecimentos e de experiências bem como a sua confrontação. Também as interações estabelecidas entre as crianças e os adultos são cruciais no desenvolvimento da criança, todavia é um processo que ocorre de forma mais demorada (Ferreira & Fernandes, 2012). Assim, percebe-se que a existência de

22 interações é bastante enriquecedora para as crianças, uma vez que se as mesmas trabalharem sozinhas acabarão por formar ideias muito individualistas e se houver um trabalho conjunto isso não acontecerá.

Tendo em conta a perspetiva de Piaget, verifica-se que o conhecimento não é adquirido por imitação, isto é, que o ser humano deve alargar os seus horizontes, ter curiosidade por experimentar e aprender coisas novas e não se limitar apenas a copiar o que os outros fazem. Deste modo, a construção do conhecimento não deve seguir esta base mas deve sim ter por base a interdisciplinaridade, permitindo que o sujeito não assuma um papel individualista. (Ferreira & Fernandes, 2012).

Assim, “(…) o sujeito não nasce para, passivamente, copiar a realidade, vindo antes equipado com os mecanismos indispensáveis ao desenvolvimento do conhecimento sobre o real.” (Ferreira & Fernandes, 2012, p.41).

Em suma, Piaget de acordo com a sua perspetiva, defende que a aprendizagem está dependente do desenvolvimento, pois a aprendizagem só é possível se existir o desenvolvimento que irá desencadear a mesma.