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2. CAPÍTULO II - CONTEXTUALIZANDO O AUDIT EXPECTATION GAP

2.1 CONCEITO DE AUDIT EXPECTATION GAP

De modo geral, o termo expectation gap é utilizado para descrever uma situação em que há diferenças de expectativas relacionadas com dois grupos: um com conhecimento específico e experiência na área e outro que, geralmente, não possui conhecimento aprofundado sobre o assunto (Salehi, 2016). Uma das áreas em que o termo mais se destacou foi na auditoria, sendo definido como audit expectation gap (AEG). Neste caso os dois grupos são constituídos pelos auditores e pelos utilizadores da informação financeira.

A figura do AEG faz parte do âmbito da auditoria há vários anos. Segundo vários autores (Porter, 1993; Ojo, 2006; Enofe, Mgbame, Aronmwan e Ogbeide, 2013; Otalor e Okafor, 2013; Enes, 2013, Idowu e Oluwatoyin, 2014), o tema foi abordado, pela primeira vez, na área da auditoria no estudo realizado por Liggio (1974), o qual definiu o AEG como a diferença entre o desempenho esperado pelos auditores no decorrer do seu trabalho e o que é esperado pelos utilizadores da informação financeira ou stakeholders. Segundo Noghondari e Foong (2013), as diferenças de expectativas entre os utilizadores e auditores parecem surgir, principalmente, em momentos de crise ou escândalos financeiros, sendo que nestes períodos a responsabilidade da auditoria é posta a prova.

Carvalho e Ribeiro (2010: pg. 8) complementam que “historicamente existe um fenómeno cíclico, no qual, sempre que a economia mundial é abalada por estes escândalos financeiros, a auditoria é publicamente muito criticada, chegando-se a questionar o seu papel na sociedade”. Assim, se percebe a associação do AEG a vários escândalos de colapso empresarial, ocorridos principalmente na Enron, Parmallat e WordCom.

Percebendo um grande grau de insatisfação dos stakeholders relativamente às demonstrações auditadas e face à pressão, cada vez mais sofrida pela profissão, realizou-se, em 1974, a Cohen Comission. O objetivo desta comissão era verificar se existiam diferenças de expectativas e o que os auditores poderiam e deveriam realizar para saná-las. No relatório final foi, de facto, apontada a existência de AEG, atribuindo-se este problema ao próprio auditor, ou seja, era ele que causava essas diferenças de expectativas e não os stakeholders

(Almeida, 2004).

Nos próximos anos, criaram-se outras comissões, que chegaram à mesma conclusão, de que a causa do AEG era o auditor, cabendo citar a Metcalf Comission, em 1975, e a Moss Comission, no ano seguinte, além da comissão do American Institute of Certified Public Accountants (AICPA), em 1993. O AICPA definiu AEG como a diferença entre o que o público e os stakeholders acreditam que seja responsabilidade do auditor, e o que os auditores acreditam que seja a sua responsabilidade (Almeida, 2004).

O termo AEG obteve grande ênfase nas décadas de 80 e 90, pois estas décadas foram marcadas por escândalos, envolvendo entidades como Atlantic Computers, Maxwell e Ferranti, MiniSribe. Estas entidades tinham sido auditadas e tiveram as suas DF validadas, mas foram vítimas de atos fraudulentos que afetaram o seu setor de atividade (Almeida, 2004).

Após estes escândalos, ocorreram outras tentativas de reduzir o AEG como, por exemplo, a criação do

Brookes Committe, em relação à qualidade da auditoria, bem como o Dingell Commite, que visava investigar a independência do auditor. Uma das principais medidas para a redução do AEG ocorreu, em 1988, com a

emissão das Statements on Auditing Standards (SAS), conhecidas como os padrões do AEG, tratando de assuntos como as responsabilidades do auditor, atos ilegais cometidos pelos clientes, procedimentos analíticos, entre outros, que vieram com o objetivo de colocar maior responsabilidade sob o auditor e de reduzir estas expectativas (Almeida, 2004; Enes, 2013).

Em 2002, criou-se a Lei Sarbanes Oxley (SOX), após uma série de escândalos, envolvendo empresas de auditoria. Esta lei teve como objetivo evitar a fuga dos investidores, que após os escândalos financeiros estavam inseguros quanto à qualidade das práticas de governança das grandes companhias. Como a auditoria tem papel fundamental na governança corporativa, realizaram-se mudanças, como a regulamentação e supervisão da atividade pela Public Company Accounting Oversight Board (PCAOB), antes feita pela Securities and Exchange Comission (Coates IV, 2007; Mendonça, Costa, Galdi e Funchal, 2008).

Segundo Hoag, Myring e Schroeder (2017), a PCAOB, a partir da implementação da referida lei, ficou encarregue de realizar inspeções regulares das auditorias das DF; implementar regras mais rígidas de independência do auditor e exigir que auditores de grandes empresas de capital aberto realizem uma auditoria separada dos controlos internos sobre relatórios financeiros.

Neste âmbito, cumpre, também, referir a criação das ISA, emitidas pela IFAC. Estas normas, segundo Castro, Vasconcelos e Dantas (2016), têm como objetivo assegurar o desenvolvimento de trabalhos de auditoria de alta qualidade e definir objetivamente as responsabilidades dos auditores independentes. Além disso, visam a harmonização da auditoria a nível internacional, Porém, a adoção destas normas não é de caráter obrigatório, mas a sua adoção tem sido implementada nos mais diversos países (Boolaky e Soobaroyen, 2016).

Assim, é possível observar que, ao longo de vários períodos, a profissão de auditor vem sendo confrontada por acusações e controvérsias em relação à sua responsabilidade na identificação de erros e fraudes, pois acredita-se que, durante o seu trabalho, o auditor deve inspecionar todos os documentos possíveis, devendo detetar todos os erros e fraudes. Todavia, o trabalho do auditor é efetuado por meio de técnicas de amostragem. Há uma crença generalizada de que o relatório de auditoria de uma empresa que passou por um processo de auditoria, ou seja, que teve as suas DF auditadas, é sinónimo de confiança e credibilidade para os

stakeholders. Assim, os stakeholders esperam que, se algo acontecer com esta entidade como, por exemplo, uma falência o responsável deve ser o auditor e não os responsáveis pela gerência da empresa, contrariando as expectativas dos profissionais, de que eles não são os únicos responsáveis por isto (Carvalho e Ribeiro, 2010). Deste modo, a sociedade e os utilizadores da informação financeira defendem que o auditor deveria possuir mais responsabilidade e melhorar os seus processos, procurando fraudes e erros e, posteriormente, divulgando-os claramente pois, para muitdivulgando-os stakeholders, o relatório emitido é sinónimo de garantia de solvência e viabilidade da empresa, e quando uma entidade auditada está em dificuldades financeiras, ou à beira de um colapso financeiro, alguém deve ser responsabilizado, o que, no caso, geralmente é o auditor (Heliodoro, 2010; Almeida, 2004; Carvalho e Ribeiro, 2010).

Dentre as responsabilidades, Enes (2013: pg. 42) alega que os investidores acreditam que o trabalho do auditor deve levar em conta “questões fundamentais como, a deteção de atos ilegais, distorções resultantes de

entidade que audita”. Tal significa que os investidores procuram que a opinião do auditor seja um instrumento que lhe permita avaliar com confiança o investimento a efetuar em determinada sociedade.

Os estudos realizados por Hussain (2003), Lin e Chen (2004), bem como Turner, Bienstock e Reed (2010) permitem concluir que, apesar de todos as discussões e regulamentos ligados ao AEG desde os anos 1970, ele ainda continua a existir e de maneira intencional, de modo que nunca poderá ser eliminado integralmente. Para Shaik e Talha (2003), a sua existência pode ser saudável, na medida em que o AEG pode fomentar a busca contínua pela melhoria da auditoria, essencialmente, para que ela possa se ajustar ao mercado e os seus utilizadores.

Em relação às causas destas diferenças de expectativas, observa-se que na literatura várias são abordadas. Para Tweedie (1987), as diferenças de expectativas existem porque a sociedade exige uma espécie de sistema de alarme contra fraudes, uma estação de radar para dar aviso prévio sobre a possibilidade de ocorrência de insolvências; uma rede de segurança que garanta o bem-estar financeiro da entidade; assim como a independência do auditor e uma comunicação coerente, mediante a emissão de relatórios compreensíveis e acessíveis.

Salehi (2016) refere, ainda, que a sociedade espera que o auditor: (i) forneça contas corretas; (ii) garanta que as entidades não falharão e que as suas DF estão livres de erros e fraudes e; (iii) e que estas serão administradas com competência, agindo dentro da lei. Deste modo, nota-se que muitos stakeholders acreditam que é dever dos auditores, durante a execução do seu trabalho, verificar de forma integral, os documentos e as DF, para assim poder detetar qualquer erro ou fraude que possa ter ocorrido. Por conseguinte, estes acreditam que uma entidade auditada é sinónimo de confiança e credibilidade, principalmente, visando as questões de investimentos. De facto, grande parte dos stakeholders desconhece a verdadeira essência da auditoria e, essencialmente, das suas limitações.

No Brasil, a literatura referente ao AEG é extremamente escassa, diante disto podemos citar os estudos de: - Menezes e Costa (2012): o objetivo do estudo foi identificar se existia uma diferença de razoabilidade em relação ao conteúdo das novas normas de auditoria adotadas no Brasil, em 2010. Para tal, foram analisados três fatores das normas referentes à responsabilidade do auditor quanto a erros e fraudes nas DF. Além de confirmar a existência do AEG, os autores concluíram que houve diferenças em dois fatores e que não há contribuição do envolvimento prático com a auditoria para a redução do AEG.

- Sterzeck (2017): o seu estudo teve como objetivo verificar indícios da existência das diferenças de razoabilidade relativamente às responsabilidades do auditor. Por meio da análise de conteúdo de 34 acórdãos do Bacen e CVM e entrevistas realizadas com ex-membros das instituições, o autor conclui que foram encontradas diferenças de razoabilidade em 29% dos casos, identificando, assim, a existência do AEG no contexto brasileiro.

- Camelo (2017) investigou o AEG no contexto brasileiro, analisando a perceção dos auditores e utilizadores das DF sobre o conteúdo das normas internacionais de auditoria adotadas em 2010 no país, quanto ao conteúdo normativo para formação, modificação e ênfase da opinião. Para isso, foram aplicados questionários a profissionais da área e usuários das DF. O autor constatou a existência de AEG quanto ao

conteúdo normativo de formação e modificação da opinião. Já para a ênfase da opinião, não houveram evidências suficientes que comprovassem a existência do AEG.