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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.3 CAPITAL SOCIAL

2.3.2 Conceito de capital social

Quem apresentou as primeiras definições de capital social foi Lyda Haniffan, em 1916,

quando afirmou que o capital social pode ser compreendido por meio do agrupamento de elementos

concretos que mais interferem na rotina dos indivíduos (MENEGASSO e HEIDEMANN, 2006).

Entre os autores de renome que deram uma significativa contribuição ao estudo sobre capital social,

estão Coleman (1988), Putnam (1993) e Bourdieu (1980) (LIN, 1999). A mesma autora apresenta os

conceitos propostos por estes autores, supracitados, relatando que suas visões teóricas são distintas e

importantes.

De acordo com Lin (1999), os autores Putnam (1993) e Coleman (1988) veem o capital

social como um bem coletivo. Este último autor definiu capital social como os atributos ou recursos

socioestruturais que podem ser aplicados às ações individuais, sendo assim considerado como de

natureza de bem público. Assim, devido à sua natureza, o capital social depende dos indivíduos, dos

grupos e da comunidade. Portanto, as normas, a confiança, as sanções, a autoridade e outros recursos

estruturais tornam-se importantes para sustentar o capital social (LIN, 1999).

Ainda, na visão de Bourdieu (1980), o capital social representa um processo, em que os

integrantes que pertencem a uma classe dominadora acabam, em função do mútuo reconhecimento,

reforçando e replicando um grupo favorecido detentor de diversos tipos de capitais, tanto financeiro

quanto simbólico e cultural (LIN, 1999).

De qualquer modo, o capital social pode ser definido como fruto da interação das relações

interpessoais. Desta forma, a interação ocorrida se intensifica como resultado da construção de laços

afetivos, participação, colaboração, normas e cooperação, entre outros. Apoiando esta ideia, se pode

afirmar que o capital social tem uma essência multidimensional que pode ser conceituada e percebida

em termos de grupos, redes, normas e confiança que os indivíduos dispõem para produzirem o bem

da comunidade (GROOTAERT et al., 2003).

O capital social apresenta como seu principal atributo a sua formação. Ela acontece ao longo

do tempo, incorporando um entendimento comum dos indivíduos (OSTROM, 2000). Além disso, de

acordo com a autora, este entendimento deve ser fruto de uma linguagem que propicie a articulação

entre eles, de maneira que haja concordância e compreensão deste entendimento.

Desta forma, os atributos do capital social evoluem à medida que há a construção de uma

base de conformidades e valores, ressaltando algumas das suas características que elucidam seu viés

de formação longitudinal. Assim, à medida que o capital social evolui, forma-se um continuum.

Uphoff (2000) apresenta esse continuum no Quadro 10, como capital social mínimo, elementar,

substancial e máximo, a partir dos valores, problemas, estratégias, benefícios mútuos, opções e

funcionalidades.

Quadro 10 - Continuum do Capital Social

Capital social mínimo Capital social elementar Capital social substancial Capital social máximo

O foco é o interesse próprio, não há interesse no bem-estar do próximo.

A cooperação acontece apenas quando convém ao interesse particular. Foco no interesse próprio.

Comprometimento em

ideias em comum.

Empreendimentos comuns; A cooperação ocorre quando beneficia todos envolvidos.

Engajamento com o

bem-estar de todos os

indivíduos. A cooperação acontece para promover o bem comum

Valores

Foco no engrandecimento

individual Eficiência da cooperação Eficácia da cooperação O altruísmo é tido como algo apropriado

Problemas

Como limitar o egoísmo para que não prejudique o coletivo?

Como reduzir os impactos

sobre os custos

transacionais, para que as pessoas sejam ainda mais beneficiadas?

Como a cooperação tem

êxito e é bem

fundamentada?

Qual o limite para o auto sacrifício?

Estratégia

Independência Cooperação técnica Cooperação estratégica Junção com os interesses do indivíduo

Benefícios mútuos

Não são levados em

consideração Instrumental Institucionalizado Transcendente

Opções

Retirar-se quando estiver

descontente Procurar negociar melhor os termos de troca

Buscar aprimorar

produtividade, como um todo.

Ser fiel e concordar com o resultado que seja bom para todos Funcionalidades Interdependente, com compromisso atribuído apenas ao benefício próprio. Independente, com aprimoramento dos

serviços públicos por meio cooperação.

Interdependente, com um

determinado foco no

benefício dos outros.

Positivamente

interdependente, maior foco no benefício de todos do que no seu próprio.

Fonte: Adaptado de Uphoff (2000, p. 224–225).

Para entender o continuum do capital social é importante fazer uma distinção entre as

diversas formas de capital. Neste sentido, a contribuição de Coleman (1988) é importante ao descrever

o capital físico como tangível, abrangendo formas materiais e o capital humano como algo menos

tangível, que envolve aptidões e competências adquiridas pelos indivíduos. Por fim, ele argumenta

que o capital social é mais intangível que o capital físico e humano. O autor considera, ainda, que o

capital social é um elemento integrador das relações entre os indivíduos que exercem atividades

produtivas na rede.

Outra forma de se entender a diferença entre capital social e físico é por meio do

entendimento dos atributos do capital social apresentados por Ostrom (2000). De acordo com a autora,

o capital social se desgasta a partir da sua falta de uso e não o contrário. Além disso, segundo a autora,

a sua observação, mensuração e a criação, quando ocorre por meio de intervenções externas, podem

ser desafiantes. Por fim, a autora aponta que as agências governamentais locais influenciam o nível e

tipologia de capital social disponíveis para os indivíduos.

Outro conceito de capital social, apresentado por Fukuyama (2000), estabelece que o capital

social é uma norma informal entre dois ou mais indivíduos e que a cooperação se dá por meio do

estabelecimento de regras entre eles. O autor ainda considera, que o capital social traz benefícios

econômicos e é pré-requisito de uma sociedade democrática. Além de contribuir de forma benéfica

para a democracia e economia, o capital social ainda compreende o ambiente sociopolítico, visando

responder às demandas da uma organização social (BOLÍVAR ESPINOZA; FLORES VEGA,

2011).

Como se observa dessa linha de raciocínio e na descrição do “capital social máximo”

apresentado no Quadro 10, o capital social é um bem público, ele não é propriedade particular de

nenhuma das pessoas que dele se beneficiam. Ele também é gerado como subproduto de outras

atividades sociais, sendo a confiança um elemento básico do capital social. Novamente, há uma

relação muito próxima entre o capital social, o ciclo do conhecimento e a coprodução dos serviços

públicos, uma vez que em cada um deles é necessário que exista algum grau de confiança entre os

membros da comunidade.

É importante destacar, ainda, para os fins da pesquisa que se propõe realizar neste estudo

que, para Filieri et al. (2014), a teoria sobre o capital social auxilia na explanação sobre como os

indivíduos, grupos e organizações gerenciam seus relacionamentos e acessam seu conhecimento.

Observa-se nesta afirmação que há uma interconexão entre o conhecimento, a coprodução e o capital

social. Não é por demais afirmar que o ciclo do conhecimento tem um vínculo com o capital social e

a coprodução, resguardadas as condições específicas do espaço público à que pertencem esse capital

e essa estratégia de produção dos serviços públicos. Contribui para esse entendimento a descrição e

breve discussão sobre as categorias do capital social que se faz no tópico seguinte.