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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 GESTÃO DO CONHECIMENTO (GC)

2.1.2 European KM Framework e as atividades do conhecimento

O European KM Framework associa e apresenta os diversos aspectos da GC, os seus

processos, atividades e facilitadores, todos eles interdependentes, facilitando desta forma a

criação dos seus projetos e de suas atividades (CEN, 2004a). A Figura 11 representa o European

KM Framework.

Ele é caracterizado por ter seus fundamentos em pesquisas e experiências práticas na

Europa e em diversos países. Além disso, o framework é considerado como referência para as

organizações compreenderem e alinharem as suas ações em direção a GC (CEN, 2004a). As

características descritas acima são a razão da escolha deste framework para esta pesquisa, uma

vez que está alinhado às temáticas da GC e das redes de coprodução integradas por

organizações.

Figura 11 - European KM Framework

Fonte: CEN (2004a, p. 7, tradução nossa).

Para se compreender as atividades do conhecimento (atividades do ciclo de vida do

conhecimento) primeiramente será apresentado o framework acerca de suas camadas e em

seguida se dará ênfase às atividades do conhecimento. Vale salientar, novamente, que no

framework as atividades do conhecimento, ou atividades do ciclo do conhecimento, formam

um processo integrado. O European KM Framework apresenta três camadas fundamentais para

a GC, a saber: o foco do negócio, as principais atividades do conhecimento e os facilitadores

(CEN, 2004a). A primeira camada é o “foco do negócio”, conforme aponta a Figura 12.

Trata-se do ponto central da iniciativa da GC. Esta camada identifica os processos em

que ocorre agregação de valor no âmbito da organização (CEN, 2004a). Nesses processos o

conhecimento é considerado crítico por ele ser criado ou neles aplicado. É importante destacar

que estes processos vêm se tornando cada vez mais interorganizacionais em função da rede que

se forma entre parceiros, clientes e fornecedores (CEN, 2004a). Portanto, torna-se importante

envolver essa rede nestes processos.

Se este entendimento for levado para a produção dos serviços públicos, também faz

sentido, pois essa rede que se forma configura com exatidão a coprodução desses serviços. Esta

camada é importante para este trabalho, já que por meio dela podem ser entendidos os principais

processos nas redes de coprodução, onde há a agregação de valor para o seu desenvolvimento.

Assim, ao serem identificados estes processos, se compreenderá onde o conhecimento

crítico-fundamental para a rede é criado ou aplicado, para então se identificar como o ciclo do

conhecimento favorece o desenvolvimento da rede de coprodução.

Figura 12 - Camada de negócio

Fonte: CEN (2004a, p. 6, tradução nossa).

A segunda camada do framework se refere às atividades básicas do conhecimento, ou

atividades do ciclo de vida do conhecimento, que em conjunto formam um processo integrado.

São elas: identificar, criar, armazenar, compartilhar e usar (CEN, 2004a). A Figura 13 retrata

essas atividades.

Figura 13 - Camada atividades do conhecimento

Fonte: CEN (2004a, p. 6, tradução nossa).

métodos e ferramentas de GC (CEN, 2004a). Dando suporte a este conceito, Batista (2005,

p.64) afirma que:

Em primeiro lugar, essas atividades devem estar alinhadas ou integradas aos processos de apoio e finalísticos da organização. Em segundo lugar, tais atividades devem ser planejadas e executadas cuidadosamente de acordo com as especificidades de cada processo e da organização.

É importante notar que as atividades serão descritas com base no framework (CEN,

2004a) e em autores que apoiarão a descrição de cada atividade do conhecimento.

A primeira atividade é identificar o conhecimento que deve ser desenvolvido ou

capturado na organização (NAIR; PRAKASH, 2009). Esta atividade possibilita que os

indivíduos de uma organização consigam compreender qual conhecimento é necessário para

que se alcancem os objetivos da organização. Para tanto, verifica-se o conhecimento já existente

na organização e no pessoal e o que será necessário para se atingir os objetivos. Assim, primeiro

se avalia o conhecimento já existente na organização, para então desenvolvê-lo. Entre os

métodos e ferramentas para uso nesta atividade estão o brainstorming, técnicas de mapeamento

do conhecimento e feedback do cliente (CEN, 2004a). Além destas, Young et al. (2010)

destacam as seguintes ferramentas: comunidades de prática, ferramentas de pesquisa avançada,

grupos de conhecimento, base de especialistas, portais de espaços de trabalho colaborativo e o

mapeamento do conhecimento.

Na atividade de criação do conhecimento, segundo Nair e Prakash (2009), o

conhecimento é criado por meio da efetivação das melhores práticas, ferramentas e processos.

Podendo ser, também, criado por meio da compra de outras empresas, terceirização de serviços

ou aquisição de conhecimento (BERGERON, 2003). De acordo com Baskerville e Dulipovici

(2006), a criação do conhecimento é um processo dinâmico que ocorre por meio de interações

do conhecimento tácito e explícito e por meio do processo SECI de espiral de conhecimento

nos diversos níveis, desde o individual até o interorganizacional. Em nível individual ocorre

por meio da interação social e em nível organizacional nos processos focados no

desenvolvimento de novos produtos e serviços e também para melhoria dos processos internos

(CEN, 2004a).

É importante ressaltar que Young et al. (2010) afirmam que os espaços de trabalho

colaborativo, comunidades de prática, base de especialistas, portais de conhecimento e blogs

são ferramentas e técnicas muito relevantes para a criação do conhecimento. Essas ferramentas

e técnicas também são muito importantes no desenvolvimento da rede de coprodução, uma vez

que o seu uso pode auxiliar na implementação dessa estratégia de produção dos serviços

públicos.

A atividade de armazenamento do conhecimento “permite a preservação do

conhecimento organizacional” (BATISTA, 2005, p.63). Esta atividade abrange a aquisição do

conhecimento dos indivíduos que compõem a organização, assim como de fontes externas

(ALAVI e LEIDNER, 2001). De acordo com esses autores, o conhecimento obtido é então

codificado e indexado. Para Bergeron (2003), o armazenamento do conhecimento permite

retê-lo em um formato que seja acessível aos indivíduos de uma organização. Dentre estes formatos,

o autor apresenta a impressão física de documentos, assim como documentos disponibilizados

eletronicamente em diversos meios, dentre os quais está a internet. Seguindo nesta linha, Serrat

(2010) aponta que entre os métodos e técnicas que orientam a armazenagem está a

categorização do conhecimento em codificado e não codificado.

Na quarta atividade ocorre a transferência do conhecimento para fins de criação de

valor. Assim, o conhecimento que é transmitido deve ter como atributos a qualidade e a

assertividade em relação ao espaço e ao momento oportuno CEN (2004a). Entre as principais

ferramentas para suporte desta atividade tem-se as redes (internet e intranet) e os documentos

físicos (BERGERON, 2003). Ainda bancos de dados, comunidades de prática, workshops e

palestras, entre outras (CEN, 2004a).

Para Alaffad e Masroma (2018), o compartilhamento do conhecimento é fundamental

para que haja a GC. Os autores ressaltam que ela requer ambientes colaborativos, já que eles

são de extrema importância para que haja o processo de inovação. Este processo depende,

portanto, do conhecimento e da forma com a qual ele é criado e compartilhado. Note-se que

para esta atividade a confiança entre os indivíduos é muito importante, pois o compartilhamento

do conhecimento existe quando os indivíduos percebem a vantagem para cada um em realizar

esse compartilhamento (BATISTA, 2005). Importante destacar aqui, como se verá adiante neste

documento, que uma das dimensões do capital social é a confiança e a capacidade de

compartilhamento, havendo desta forma uma convergência entre essa dimensão e o

compartilhamento do conhecimento.

A última atividade consiste em aplicar as melhores estratégias para acessar o

conhecimento e usá-lo efetivamente para alcançar os objetivos traçados pela organização

(DURMUŞ-ÖZDEMIR; ABDUKHOSHIMOV, 2018). Nesta atividade se verifica o quanto as

anteriores foram efetivas. Ela também é referência para a criação, armazenamento e

compartilhamento do conhecimento. Ao ser aplicada, ela permite perceber a necessidade de

novos conhecimentos. Permite, também, identificar a necessidade de se obter experiências que

refletirão em novos conhecimentos para a organização (CEN, 2004a).

Portanto, todas as atividades do conhecimento devem avançar de maneira sinérgica

para que a GC venha a se tornar um ciclo integrado. Para tanto, existem métodos e técnicas que

podem ser utilizadas, dentre as quais se destacam espaços de trabalho colaborativo,

comunidades de prática, bases de conhecimento, taxonomia, busca avançada, blogs e

agrupamentos de conhecimento (YOUNG et al., 2010).

Depois da discussão e descrição das atividades do conhecimento relativas à segunda

camada do framework, pode-se dar continuidade à terceira camada do framework, intitulada

facilitadores, contidas na Figura 14.

Esta camada é composta por duas capacidades que são complementares. A primeira se refere

aos recursos aplicados em nível pessoal ou grupal que tem o intuito de refinar o uso do conhecimento.

Estes recursos podem ser competências, aptidões, atitudes, experiência e ferramentas (CEN, 2004a).

A segunda capacidade faz referência à forma como a liderança viabiliza o uso do conhecimento com

vistas aos processos que proporcionam valor para os agentes internos e externos envolvidos com a

organização, podendo se integrar às estratégias, missão, valores, visão e processos organizacionais

(CEN, 2004a).

Figura 14 - Camada Facilitadores

Fonte: CEN (2004a, p. 7, tradução nossa).

Discutir e descrever estas camadas é importante para este trabalho, já que ele objetiva

verificar e discutir o ciclo do conhecimento sob a dos líderes da rede. Destaque-se que eles também

são os viabilizadores do uso do conhecimento para os agentes que compõem a rede, principalmente

nos processos de desenvolvimento da rede de coprodução dos serviços públicos.

a necessidade de interação entre os indivíduos nos âmbitos intra e interorganizacional para que haja

GC e, por via de consequência, a promoção da coprodução. Filipe, Renedo e Marston (2017)

emprestam solidez a este argumento quando afirmam que a coprodução é um processo que, cada vez

mais, dependente de fatores como relações, novas comunidades e diferentes modos de conhecimento.

Fica evidente, pois, que o desenvolvimento das redes de coprodução pode ser favorecido pela GC e

pelo ciclo do conhecimento quando aplicado de maneira eficiente, efetiva e eficaz na prestação dos

serviços públicos.

A seguir, faz-se a discussão dos fundamentos teóricos relativos à coprodução e às redes de

coprodução.

2.2 COPRODUÇÃO E REDES DE COPRODUÇÃO