2.1 Do Estado
2.1.1 Conceito de Estado
Quanto à concepção do surgimento do Estado para o meio social, Bobbio (2007, p. 73) menciona que “[...] não pode deixar de pôr-se o problema de saber se o estado sempre existiu ou é um fenômeno histórico que aparece num certo momento da evolução da humanidade”. Nesse sentido, Bobbio (2007, p. 73) traz que o estado pode ser compreendido como um “[...] ordenamento político de uma comunidade, nasce da dissolução da comunidade primitiva fundada sob laços de parentesco e da formação de comunidades mais amplas derivadas da união de vários grupos por razões de sobrevivência interna (o sustento) e externas (a defesa)”.
Assim, para outros historiadores contemporâneos, com definições mais modernas, o nascimento do Estado dá-se com o início da era moderna, o ponto de passagem da idade primitiva à idade civil que, nada mais se denota, como uma interpretação ordinária à origem do Estado. Para Reale (2000), a gênese histórica do Estado é a consequência de um longo e profundo processo de relação sócio-política, a qual advém de uma cadeia de fatores de múltiplos aspectos. A instauração do Estado, conforme um único elemento constitutivo, foram estudados por muitos sociólogos, de modo que, se pudesse adentrar na natureza da ordem estatal, verificar- se-ia que a ordem estatal é um órgão, uma instituição de produção jurídica com a finalidade de organização social e defesa dos direitos inerentes à sobrevivência humana em sociedade.
Na ideia jusnaturalista, o estado de natureza precede o estado civil. Esse estado de natureza tem por característica um estado em que viveram os povos primitivos. Em Vico, Bobbio (2007) menciona que a primeira forma de estado tinha por característica a associabilidade e o estado familiar, sendo essa forma um estado individual, sem relação com o meio social pleno. Com o surgimento de conflitos de interesses pessoais para com os coletivos, nasce uma forma de estado com características políticas, o qual limitaria, em defesa dos direitos inerentes aos cidadãos, as suas formas de atuação em sociedade.
Para Engels (apud BOBBIO, 2007), o Estado nasce da ruptura de uma caracterização de organização familiar. Assim, Engels (apud BOBBIO, 2007, p. 74) dispõe que “[...] o nascimento do estado assinala a passagem da barbárie à civilização”. Sobre a origem de Estado, Engels (apud BOBBIO, 2007) dá uma interpretação exclusivamente econômica, a qual tem origem da própria estrutura do Estado. Para Bobbio:
Diante de todas as interpretações precedentes sobre a origem do Estado e diante da própria teoria de Morgan, Engels distingue-se pela interpretação exclusivamente econômica que dá deste evento extraordinário que é a formação do Estado. É uma interpretação que traz à mente a reconstrução fantástica de Rousseau, que faz a sociedade civil surgir do ato daquele que antes dos demais cercou seus terrenos e disse “Isto é meu”, ou seja, da instituição da propriedade privada. (BOBBIO, 2007, p. 74).
Nessa linha de pensamento, Bobbio (2007, p. 75) descreve que “[...] com o nascimento da propriedade individual nasce a divisão do trabalho, com a divisão do trabalho a sociedade se divide em classes, na classe dos proprietários e na classe dos que nada têm”. Nessa divisão de sociedade em classes, nasce o poder político, o poder de administrar essa difusão social, que é o Estado, o qual tem por finalidade manter o domínio de uma classe sobre a outra, para evitar que essa sociedade dividida em classes passasse a viver em um estado de anarquia (BOBBIO, 2007).
Conforme dispõe Bobbio (2007), o estudo do Estado decorre de duas fontes: a história das instituições políticas e a história das doutrinas políticas. A história das instituições políticas desenvolveu-se após a história da doutrina política, pois os ordenamentos de um determinado sistema político tornaram-se conhecidos por meio da reconstrução que foram feitas por seus escritores, como, por exemplo: Hobbes, o qual identificou o estado absoluto; Locke, a monarquia parlamentar; Montesquieu, o estado limitado; Rousseau, a democracia; Hegel, a monarquia constitucional.
Para além de seu desenvolvimento histórico, denota-se que o Estado é estudado em si mesmo, em suas estruturas, suas funções, em seus elementos constitutivos, seus mecanismos, seus órgãos; enfim, ele é estudado com os demais sistemas conjuntos. Para Bobbio (2007), a
investigação da estrutura do estado está dividida entre duas disciplinas: a filosofia política e a ciência política. Para o filósofo, a teoria da filosofia jurídica está compreendida em três tipos de investigação: “[...] da melhor forma de governo ou da ótima república; do fundamento do estado ou do poder político, com consequente (in)justificação da obrigação política; e da essência da categoria do político ou da politicidade” (BOBBIO, 2007, p. 55).
A compreensão da ciência política está atrelada à investigação da vida política, a qual é capaz de desenvolver-se sob três condições, quais sejam: o princípio de verificação ou de adulteração como juízo de aceitabilidade dos seus efeitos; o uso de métodos da razão, que “[...] permitam dar uma explicação causal em sentido forte ou mesmo em sentido fraco do fenômeno investigado e abstenção ou abstinência de juízos de valor, a assim chamada ‘avaloratividade’” (BOBBIO, 2007, p. 55-56).
Bobbio (2007, p. 57) afirma que, com a transformação do Estado “puro de direito em estado social”, as teorias meramente jurídicas do Estado foram abandonadas pelos próprios juristas, recuperando-se, assim, os estudos sociólogos. Entre as teorias sociólogas do estado, duas permaneceram em estudo: o marxismo e o funcionalismo. A teoria funcionalista tem uma preocupação com a conservação social; a teoria marxista preocupa-se com a mudança social. “Marx e os marxistas sempre preconizaram, analisaram e prefiguraram a grande mudança, aquela que coloca em crise um determinado sistema e dele cria, através de um salto qualitativo, um outro sistema” (BOBBIO, 2007, p. 59). Essas teorias diferem-se entre si, pois a teoria marxiana preocupa-se com a mudança da sociedade, com a ruptura da ordem. Já a teoria funcionalista é dominada pela ordem, com a preocupação social de forma plena.
A palavra “Estado” denota-se de uma organização complexa que pode ser versada sob múltiplos contextos. Do mesmo modo, é intensamente mutável de acordo com a sua própria natureza. Há diferentes discussões de acordo com a visão de cada observador; desse modo, a literatura não é unânime em chegar a um conceito objetivo, devido à grandeza da subjetividade (DALLARI, 2013).
Na visão de Reale (2000), muitos confundem o conceito de Estado com as relações sociais, ou, ainda, prendem-se a uma doutrina culturalista do Estado e do Direito. O autor afirma que, ao elucidar-se o Estado, tende-se a voltar-se para uma ordem sociológica que irá integrar um processo regulamentador da conduta em sociedade, por meio de um sistema legal.
Nessa premissa, considera-se que conceituar o vocábulo “Estado” pode intuir uma limitação formalista, embora a expressão tenha permanecido com vários sentidos, sem uma concepção elucidativa. Nesse ponto, para David Easton (apud DALLARI, 2013), o tema tem sido frequentemente debatido, porém ainda não prevalece nenhuma uniformidade sobre a
matéria. Para Easton (apud DALLARI, 2013), o conceito de Estado, por sua diversificação, pode ser comutado por um sistema político.
Compreende-se que uma significação convencional de Estado necessitaria de uma disposição suficiente (jurídica) para que se constitua uma autoridade (política) com o poder de adotar deliberações e prover as direções apropriadas ao desenvolvimento social, a fim de cumprir a efetivação dos interesses da coletividade (BOBBIO, 2000). Nota-se que, ao teorizar o Estado, permanece-se entrelaçado à concepção jurídica, de forma secundária, ainda que fundamentada em regulamentos, seja para estruturar a representação da coletividade, seja para preservar os interesses sociais. Em tal afirmativa, o Estado caracteriza-se como possuidor do poder irrestrito, uma relação de subordinação entre governantes e governados.
Para Bobbio (2007), a afirmativa de que a concepção que preponderou na gênese do Estado foi o sistêmico, retirado sem muita rigidez e com algumas modificações da proposição dos sistemas, vinculando-se a uma relação entre as instituições políticas e o sistema social, sendo finalmente representada por uma afinidade de demanda e resposta. Dessa feita, a ocupação das instituições políticas é proporcionar respostas às questões originárias do ambiente social ou, segundo uma nomenclatura corrente, de transformar as ações em respostas.
Diante da multiplicidade de conceito de Estado, Dallari (2013, p. 120) menciona que é conveniente trazer um conceito que teve um vasto percurso no século XIX e que, ainda, possui alguns adeptos, a saber: o conceito de que o estado é uma nação “politicamente organizada”. Segundo o autor, esse conceito não possui lastro, pois o Estado não é nação, podendo ser considerado como um conjunto de indivíduos que são organizados politicamente, em um determinado território e são regidos por leis comuns a todos.
O conceito de estado, reforçado por Bobbio (2007), conduz ao juízo de que o pensamento dos aspectos da política, propostos por Hegel, denota uma teoria de que o Estado se constitui de uma organização capaz de determinar e ultrapassar as relações sistematizadas, em primeiro lugar da família e, por conseguinte, da sociedade civil, implantando preceitos e regulamentos sobre os grupos. Está na limitação do poder do Estado o ponto neutro de uma atuação com o meio social, pois aquele detém o poder, seja na esfera política ou jurídica - o qual deverá atuar em defesa dos direitos inerentes aos seres humanos, na garantia da igualdade e da liberdade dos grupos sociais.
A definição de Estado para os pensadores da área jurídica constitui-se em três elementos constitutivos, quais sejam: o povo, o território e a soberania. Esses elementos constitutivos do Estado abarcam os direitos de determinados povos, delineado sob determinado território e na soberania de criar e aplicar o direito.
A acepção de poder está subentendida em soberania, que, no entanto, é mencionada como particularidade da própria ordem jurídica. O aspecto político do Estado é garantido na menção do bem comum, com a dependência deste a uma nação; e, por fim, a territorialidade, restringindo a ação jurídica e política do Estado (DALLARI, 2013).
De uma visão conjunta, frente ao Estado, ao poder e ao território, percebe-se que a ordem jurídica consolida os limites de poderes e de obrigações, tanto da sociedade como do Estado. Assim, faz-se importante destacar a contribuição do Direito na relação formal da sociedade e do Estado, na elaboração contemporânea em torno do debate.