Capítulo 2. REVISÃO DA LITERATURA
2.2. Alto rendimento e expertise
2.2.4. Conceito de Expertise
Muitos autores têm procurado definir o que é a expertise, porém após realizarmos uma revisão da literatura, verificamos que existe uma falta de consenso, sendo vários os conceitos que lhe aparecem associados, tais como: excelência, mestria e elite.
Comecemos por Galvão (2001), que numa visão generalista, afirma que a expertise se trata da “capacidade adquirida através da prática ou estudo individual deliberado, de desempenhar particularmente bem uma tarefa específica de um domínio” (p.225).
Já Sampaio e Lorenzo (2005, p.63) fornecem-nos uma definição mais direcionada para o desporto, considerando que o adjetivo experts se refere “claramente àqueles que alcançaram rendimentos elevados e reconhecidos”.
Por sua vez, Ericsson (2006a, p.3) afirma que a expertise, se refere “às características, habilidades e conhecimentos que distinguem experts de novatos e de pessoas menos experientes”. Considerando como experts, os indivíduos “que são consistentemente capazes de manifestar um desempenho superior nas tarefas a concretizar num domínio”. Quanto aos “novatos” como explicou Chi (2006), é um termo usado num sentido genérico, na medida em que pode referir-se a uma série de não-especialistas (não-experts).
Todavia, é preciso especificar que falar de alto rendimento é diferente de falar de expertise, pois como esclareceram Ruiz e Sanchez (1997, citado por Ruiz et al. 2006, p.132), “quando se fala de um atleta expert, não se trata de um sujeito, que numa ocasião alcançou, conquistou algo em concreto”. Mas sim, de alguém que partindo da sua vontade de querer chegar ao topo, assumiu um compromisso, dedicou-lhe tempo, esforçou-se e trabalhou sob uma orientação e supervisão técnica adequada.
De facto, nem todos os atletas atingem os mesmos níveis de performance, e por isso, Hill (2007), considerou a existência de padrões de participação desportiva, representando-os numa pirâmide (figura 1).
Nesta pirâmide, a maioria dos atletas encontra-se na parte inferior (nível de base), praticando desporto como um hobby ou atividade social, participam puramente pelo prazer que traz. No entanto, subindo a pirâmide verifica-se um aumento da aptidão, os atletas tornam-se mais competentes, treinam e competem com maior regularidade, atingindo a excelência somente aqueles que se comprometem totalmente com o desporto. Desta forma, facilmente se compreende a posição que Hill (2007) estabeleceu para os atletas de elite, colocando-os no topo da pirâmide. Este último grupo é composto por indivíduos que possuem uma capacidade especial para o desporto que transcende a norma e os torna capazes de competir a nível nacional e internacional.
Porém, e como explicou Coelho (2007, p.254) “a busca da excelência desportiva resulta da interação dinâmica de fatores psicológicos, sociais e culturais”. Acrescentando ainda que é essa “abordagem eminentemente interacionista que justifica a estrutura piramidal do desporto de alto rendimento e explica porque razão só alguns atletas atingem o seu potencial máximo, na demanda da superação dos limites da realização humana”.
No que respeita à aquisição e manifestação de altos níveis de desempenho, também Baker e Horton (2004) acreditam que existem vários fatores que influenciam a prestação dos atletas, dividindo-os em variáveis que têm uma influência primária e variáveis que têm uma influência secundária, através da sua interação com outras variáveis. Sendo que, os principais fatores são aqueles que têm uma influência direta na aquisição da expertise, e incluem todos os elementos que o atleta contribui (intencionalmente ou não) para o seu próprio desempenho, podendo ser categorizados em fatores genéticos, fatores de formação e fatores psicológicos. Já os fatores secundários incluem os fatores socioculturais e contextuais, onde o sucesso da modalidade e consequentemente do atleta está cingido à importância e aos apoios que a sociedade lhe atribui, nomeadamente ao acesso de recursos essenciais, tais como a treinadores experientes. Também a família (principalmente os pais), desempenham um papel crucial na aquisição da expertise. Por fim, Baker e Horton (2004) chamam a atenção para os fatores contextuais, onde é contemplada a maturidade do desporto e o número de praticantes ativos. Assim, segundo os autores, em desportos recentes ou menos desenvolvidos, cujo número de praticantes é reduzido, a formação necessária para o atleta se tornar um expert será influenciada, podendo a expertise ser alcançada com menos treino.
Coelho (2007), alerta-nos para os fatores biológicos, considerando que não podemos ignorar a composição genética dos atletas, pois, em princípio detêm um papel essencial, sendo consequentemente uma vantagem inicial e limitando o nível máximo de rendimento que um atleta pode atingir em algumas modalidades desportivas.
Esta tentativa de explicar a expertise baseando-se na noção de “talento” ou “herança genética” resultava da ideia de que alguma capacidade que a pessoa trouxesse consigo desde o nascimento, era seletivamente facilitadora na aquisição dessa habilidade a alto nível (Galvão, 2001). No entanto, como explica Ruiz Pérez (1999, p.238) “se o talento excecional fosse exclusivamente resultado da hereditariedade, o atleta deveria mostrar-se forte ao longo dos anos, contudo a evidência mostra-nos que não é assim…”.
Pois, como revelou Coelho (2007, p.249) “com o passar do tempo, estas diferenças biológicas atenuam-se e ganham maior acuidade os fatores sociais e culturais enquanto determinantes deste processo, destacando-se de entre todos o apoio dos pais e do treinador”.
Baker e Côté (2003), apontam também a existência de fatores ambientais, fatores motivacionais e ainda o papel do treinador e a influência dos pais, como fatores que contribuem de igual modo para alcançar um desempenho excecional.
Sem dúvida que é difícil um atleta atingir a expertise “se não o desejar, se não existir motivação que o motive a mobilizar as suas energias numa só direção, alcançar o topo na sua modalidade desportiva” (Ruiz et al., 2006, p.136). Também Helsen et al. (1998 cit. por Smith, 2003) chamam a atenção para a motivação, afirmando que, a parte mais crítica de “formar” atletas qualificados é conseguir que os indivíduos estejam altamente motivados e que persistam durante o tempo necessário para se tornar um expert.
Porém, para alcançarem o mais alto nível, os atletas têm de treinar arduamente durante um longo período de tempo, exercendo o treino um papel fundamental no seu desenvolvimento e otimização de competências (Bompa & Haff, 2009). Pois, é no treino através da repetição dos exercícios, que os atletas são induzidos a automatizar a execução de “uma habilidade motora e a desenvolver funções estruturais e metabólicas
que os levam ao aumento do desempenho, da performance física” (Smith, 2003, p.1104).
Por sua vez, Hopkins (2001) fala da adaptação ao treino, considerando-a tão importante, que possivelmente absorve qualquer contribuição dos genes. Conjuntamente Bompa e Haff (2009) partilham da mesma opinião, alegando que a capacidade de um atleta em se adaptar e ajustar a carga de trabalho impostas pelo treino e pela competição é tão importante quanto a capacidade de uma espécie em se adaptar ao ambiente em que vive, pois, sem adaptação, não sobreviverá! Portanto, se os atletas não conseguirem adaptar-se às diferentes cargas e aos stresses constantes associados ao treino e à competição, podem atingir níveis críticos de fadiga, a longo prazo ou mesmo ao longo da formação, incapacitando-os de atingir os objetivos. Assim, quanto maior o grau de adaptação ao processo de formação (treino), maior será o potencial para atingir altos níveis de desempenho.
Muitas investigações foram desenvolvidas no âmbito do processo de treino, sendo resumidas por Sampaio e Lorenzo (2005) a dois princípios: a teoria da prática deliberada e a regra dos 10 anos. Segundo Ericsson et al. (1993) a prática deliberada, trata-se de uma prática intencional, altamente estruturada, tendo como finalidade melhorar o desempenho. Já Sampaio e Lorenzo (2005, p.64) explicam que, “a prática deliberada aparece definida pelo número de horas dedicadas à prática, é realizada com o objetivo de melhorar o nível de rendimento e implica que as tarefas sejam bem definidas e estimulantes, que exista feedback para o atleta e que lhe sejam dadas as oportunidades necessárias para repetir e corrigir os erros”.
No entanto, este tipo de prática não leva a recompensas sociais ou financeiras imediatas. Pelo contrário, “é composta por atividades realizadas para desenvolver as habilidades necessárias, que por sua vez, não são intrinsecamente motivadoras, exigem esforço e atenção” (Smith, 2003, p. 1107).
De acordo com Ericsson et al. (1993), para poder ser considerada prática deliberada, esta deve reunir uma série de peculiaridades, nomeadamente: i) Deve reclamar esforço e atenção por parte do atleta, não é inerentemente agradável; ii) Pode ser qualquer atividade que contribua para melhorar o desempenho; iii) Deve consagrar muitas oportunidades de prática e correção (feedbacks); iv) Deve ser guiada por um
treinador; v) Deve estar relacionada diretamente com o rendimento e o tempo dedicado a praticar.
Também Ward et al. (2007, p.120) sustentam a relação entre o número de horas de prática deliberada e o nível de desempenho, considerando que, os indivíduos que acumulam um maior número de horas de prática deliberada são mais propensos a alcançar a excelência desportiva (expertise). No entanto, não é o simples acumular de horas que faz com que o atleta melhore os seus níveis de desempenho, a qualidade da formação também é importante (Ericsson et al., 1993).
Daí, Baker e Côté (2003) considerarem o acesso a recursos essenciais, um dos principais fatores para que o atleta consiga alcançar a expertise. Pois, não basta que o indivíduo tenha potencial para se tornar um expert, é necessário ter os mesmos recursos que os outros (experts), para também ele obter um ótimo desempenho.
Logo, se as condições forem propícias à aquisição da expertise, até os atletas menos predispostos geneticamente podem alcançar níveis altos de desempenho. No entanto, também pode acontecer o contrário, atletas geneticamente talentosos podem não conseguir atingir a expertise, basta que os recursos que lhes são oferecidos não permitam adquirir e praticar as suas capacidades (Philips et al., 2010).
Contudo, para reunir a quantidade de treino necessária para desenvolver as suas capacidades até um nível de elite, é preciso que os atletas mantenham o compromisso, que se dediquem ao longo dos anos de especialização num domínio. Pois, caso não estejam devidamente empenhados em realizar as milhares de horas de formação que são exigidas para aperfeiçoar as suas capacidades, não vão conseguir alcançar a excelência (Baker & Côté, 2003).
Simon e Chase (1973 cit. por Baker & Côté, 2003), foram os primeiros autores a falar do tempo necessário que um praticante tem de dedicar para chegar à excelência. Estes investigadores num estudo sobre expertise no xadrez, procuraram encontrar as diferenças entre jogadores experts (grandmaster player), e não experts (master and
novice players), verificando que apenas existiam diferenças significativas no domínio
específico do jogo, nomeadamente nas estratégias e no processamento de informação, sugerindo que estas diferenças eram o resultado do treino (qualidade/quantidade) e da experiência. Esta pesquisa ficou conhecida como a “regra dos 10 anos”, seriam assim
necessários 10 anos de tempo integral de envolvimento num determinado domínio para os indivíduos atingirem a excelência.
Também Ericsson et al. (1993), a partir do seu estudo com praticantes experts de diferentes áreas, afirmaram que para alcançar um nível de excelência deve praticar-se regularmente no mínimo 10 anos e reunir cerca de 10 mil horas de treino. Porém, explicaram ainda, que é importante aliar a quantidade à qualidade de treino, ou seja, durante esse tempo, os atletas têm de receber informações, instruções, feedbacks de qualidade, bem como, devem procurar estar motivados e predispostos a dedicar-se intensivamente à modalidade. Estes longos anos de prática intensiva foram criticados por Baker e Côté (2003, p.2), dizendo que “uma prática prolongada produz um aumento monótono do desempenho” e justificando-o através da Lei do Poder da Prática de Newell e Rosenbloom (1981), a qual considera que a aprendizagem ocorre rapidamente após o início da prática, contudo a taxa de aprendizagem diminui ao longo do tempo com a prática contínua.
Por sua vez, Baker (2003) considera que, quanto mais tempo o atleta se dedicar à prática, maior será o seu nível de realização (resultados), porém também mais difícil será obter melhorias no seu desempenho, ou seja, aperfeiçoar sempre os seus melhores resultados. Também Davids e Baker (2007) partilham da mesma opinião, afirmando que nos estágios iniciais de envolvimento com a modalidade, o desenvolvimento ocorre rapidamente, porque há muito espaço para melhorar. “No entanto, com os avanços no desempenho, as melhorias tornam-se cada vez mais difíceis de alcançar, até um ponto onde o treino terá de ser focado nas áreas específicas de fraqueza, tornando-se o único meio de avanço. Neste ponto, a prática torna-se a forma mais eficaz de formação” (p.6).
Todavia, após todas as perspetivas dadas pelos diversos investigadores para o desenvolvimento da expertise, desde, o tipo de prática (prática deliberada), os anos de prática, bem como todos os fatores primários e secundários de origem psicológica, social e cultural, Ericsson (2006b), examinou ainda o desenvolvimento da expertise, em função da idade e anos de experiência (figura 2).
Figura 2:Evolução da performance do atleta em função da idade e dos anos de prática. (Fonte: Ericsson,
2006b).
Tal como Davids e Baker (2007), Ericsson (2006b), concluiu que no início da carreira, o desenvolvimento ocorre rapidamente, sendo que todos os indivíduos melhoram de forma gradual (mesmo sem qualquer experiência anterior relevante e prática) até à idade de maturação física e atingem o pico da carreira, quase sempre na idade adulta, aproximadamente 25 anos (figura 2).