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Capítulo 4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.1. ANÁLISE DESCRITIVA

4.1.4. Dimensão II – Apoios

A segunda dimensão incide sobre os apoios que os atletas recebem das várias entidades e é composta por cinco categorias.

A primeira questão assenta no apoio proporcionado pelas escolas (estabelecimentos de ensino).

Quadro 14: Reconhecimento do apoio escolar.

Teve apoios da escola? Frequência (%)

Sim 17 (28,8%)

Não 42 (71,2%)

Verifica-se uma grande discrepância de valores; apenas 17 (28,8%) inquiridos afirmam sentir-se apoiados pelo estabelecimento de ensino que frequentam, nomeadamente pelos professores, bem como pelo usufruto de algumas medidas de apoio ao atleta de alto rendimento (quadro 14).

Em contrapartida, 42 (71,2%) evidenciam que a escola não lhes dá qualquer apoio, pelo contrário, sentem que não são compreendidos.

“Os professores, eram muito intransigentes tratavam-me como uma aluna normal, apesar de saberem que era atleta de alto rendimento, nunca me apoiaram.”

(Atleta 58)

Estes resultados convergem para as conclusões obtidas por Santos (2010), onde as opiniões dos inquiridos foram igualmente contraditórias, existindo aqueles que afirmaram ser apoiados, e os que não beneficiavam de nenhum apoio.

Porém, pensamos que esta discrepância nas respostas do nosso estudo se deve, ao facto de as escolas não se preocuparem em cumprir as normas impostas na Lei, nomeadamente no Decreto-Lei n.º 272/2009, de 1 de Outubro, onde é explicitamente apresentando que uma das medidas de apoio, que os atletas de alto rendimento podem beneficiar é no regime escolar (artigos 14.º a 22.º).

Quadro 15: Tipos de apoios concedidos pela escola.

Apoios da escola Frequência (%)

Não responde 46 (78%)

Exames em épocas especiais 4 (6,8%)

Flexibilidade por parte dos professores nas avaliações 4 (6,8%)

Explicações / Centro de estudos 2 (3,4%)

Transporte (senha do passe) 2 (3,4%)

Outras 1 (1,7%)

Quando questionados sobre os tipos de apoios que a escolha lhes concede, verificamos que dos 17 (28,8%) inquiridos que responderam ser apoiados, apenas 13 (22%) referiram o tipo de apoio que usufruem, sendo que a “possibilidade de fazerem exames em épocas especiais” e a “flexibilidade por parte dos professores nas avaliações” assumiram uma dualidade de igual ponderação, quatro atletas, o que representa 6,8% (quadro15).

“Os professores eram compreensivos e sempre que tinha provas, deixavam-me fazer as avaliações depois.” (Atleta31)

“Estudei na Clemson University, o que por si só ajudou imenso, pois a universidade tinha um programa de apoio escolar específico para estudantes-atletas, tais como aulas particulares, facilidade na escolha da data dos exames, e faltas justificadas”. (Atleta32)

“Alguns professores percebiam a situação e por isso foi-me possível mudar a data de alguns exames. Esta situação, normalmente acontecia quando as competições eram fora de Portugal.” (Atleta33)

Como explicaram Zenha et al. (2009), a compreensão dos professores em relação às dificuldades sentidas pelos alunos/atletas, assume-se como um fator promotor do sucesso escolar.

Quadro 16: Reconhecimento do apoio proporcionado pelo clube.

Teve apoios do clube? Frequência (%)

Sim 29 (49,2%)

Não 30 (50,8%)

As respostas dividiram-se, podendo se afirmar que metade dos atletas se sentem apoiados pelo clube (49,2%) e a outra metade (50,8%), responde negativamente (quadro 16).

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Quadro 17: Tipos de apoios concedidos pelo clube.

Apoios do clube Frequência (%)

Não responde 30 (50,8%)

Apoio geral 3 (5,1%)

Apoio financeiro 5 (8,5%)

Apoio médico 3 (5,1%)

Transporte para o treino 5 (8,5%)

Compreensão (quando têm de faltar ao treino) 4 (6,8%)

Ajuste horas de treino 6 (10,2%)

Outras 3 (5,1%)

Após análise do quadro 17, verificamos que dos 29 (49,2%) atletas que responderam positivamente (revelando ser apoiados pelo clube), houve uma variedade de resposta quanto ao tipo de apoio, sendo que o ajuste das horas de treino é o mais referido. Igualmente mencionados, mas em menor número foi o apoio financeiro e o transporte para o treino.

“O clube apoia-me de uma forma geral, pois sempre me ajudou, não me posso queixar.” (Atleta5)

“Apoia-me a todos os níveis, (médico, financeiro, psicológico), sinto que se preocupa com o meu bem-estar”. (Atleta 6)

“É o clube que responde a todas as dificuldades que me têm surgindo, tais como as explicações, é ele que comporta o encargo.” (Atleta10)

“O clube (treinador) entende e se for preciso ajustar o horário do treino, por causa das aulas e quando tenho de estudar”. (Atleta25)

Contudo, também houve algumas críticas ao clube, principalmente orientadas para o plano desportivo.

“Não tive nem tenho nenhum apoio por parte do clube, pois o clube não tem condições financeiras, para me dar aquilo que eu quero”. (Atleta36)

Também Zenha et al. (2009, p.7), questionaram os atletas sobre os apoios mais significativos por parte das instituições desportivas, tendo verificado que estes elegiam a “possibilidade do treinador/seleccionador permitir a ausência em alguns treinos de modo a poderem estar presentes nos exames escolares” e ainda que o clube deve ter a iniciativa “de oferecer horários de treino compatíveis com a actividade escolar”. De certa forma, os nossos resultados mostram que alguns clubes na modalidade de atletismo, já atuam de forma diferente e assertiva, respondendo às necessidades e expectativas dos atletas.

Quadro 18: Reconhecimento do apoio proporcionado pela federação.

Teve apoios da Federação Portuguesa de Atletismo? Frequência (%)

Sim 14 (23,7%)

Não 45 (76,3%)

A terceira categoria desta dimensão aborda os apoios proporcionados pela federação aos atletas. Contudo, e após análise do quadro 18, podemos comprovar que as respostas dadas foram maioritariamente respostas negativas, apenas 14 (23,7%) afirmaram que são apoiados pela federação, verificando-se assim uma grande discrepância nos valores.

Quadro 19: Tipos de apoios concedidos pela federação.

Apoios da federação Frequência (%)

Não responde 45 (76,3%)

Estadia Centro de Alto Rendimento (CAR) 2 (3,4%)

Certificado de Alta Competição 4 (6,8%)

Justificação de faltas 3 (5,1%)

Relativamente à federação, o reduzido número de atletas que revelam ser apoiados pela federação, evidência a pouca intervenção que esta realiza junto dos atletas.

Identicamente Zenha et al. (2009, p.7), tinham chegado a esta conclusão no seu estudo, afirmando que a federação devia desempenhar “um papel mais activo na defesa dos interesses dos atletas junto das instituições escolares, reforçando a ligação entre a escola e o desporto”.

No entanto, dos 14 atletas (23,7%) que confirmaram alguma intervenção da federação; o apoio mais referido foi a atribuição do certificado de alta competição, que para estes atletas representa um novo estatuto pois passam a ser considerados “atletas de alto rendimento” e por sua vez, a poder usufruir dos benefícios descritos na Lei (Decreto-Lei n.º 272/2009). Ainda que em menor número, também foi mencionada a justificação de faltas escolares e a estádia no Centro de Alto Rendimento (CAR).

“Justificam as faltas, quando temos de nos ausentar da escola para ir às competições”. (Atleta 4)

“A federação deu-me a possibilidade de morar no Centro de Alto Rendimento, o que melhorou e muito as minhas condições de alojamento, alimentação, treino e ainda consegui terminar o ensino secundário no ano passado”. (Atleta9)

“Ter o estatuto de alta competição, que me possibilitou a entrada na universidade”. (Atleta33)

“Quando há estágios coincidentes com os exames, são compreensivos se optarmos por faltar ao estágio para estar presente no exame”. (Atleta 48)

O acesso, ingresso e transferência no ensino superior, é uma dos apoios presentes no Decreto-Lei n.º 272/2009, de 1 de Outubro nomeadamente no artigo 27.º, sendo por isso obrigação da federação responder prontamente aos atletas abrangidos pelo alto rendimento. O apoio educativo assume-se assim como um dos principais apoios da federação, estando presente nas respostas dos atletas, nomeadamente no CAR, onde a federação disponibiliza profissionais educativos que apoiam os estudos dos atletas residentes.

Quadro 20: Reconhecimento do apoio familiar.

Teve apoios da família? Frequência (%)

Sim 41 (69,5%)

Não 18 (30,5%)

Abordando agora a quarta categoria, que determina o apoio familiar, podemos verificar através do quadro 20, que mais de metade dos atletas 69,5% dizem ser apoiados, referindo ainda que o apoio da família é incondicional.

Este resultado está de acordo com Moraes et al. (2004), que através do seu estudo comprovaram que o suporte familiar, nomeadamente o apoio dos pais no início e durante a carreira dos atletas foi importante no desenvolvimento dos jovens atletas, bem como na continuidade da prática desportiva.

Identicamente Samulski et al. (2009, p.312) comprovaram que o apoio da família é indispensável para “a manutenção da prática esportiva”.

Ferreira e Moraes (2012, p.49) asseveram a ideia, confirmando que “a influência da família em todas as fases, do início ao ápice, contribuiu de forma fundamental para o desenvolvimento dos atletas.” No entanto destacaram “a primeira fase como especial” pois, segundo os autores é “representada pelo apoio familiar, marcada por apoio financeiro e motivacional”.

Quadro 21: Tipos de apoios concedidos pela família.

Apoios da família Frequência (%)

Não responde 18 (30,5%)

Apoio geral 11 (18,6%)

Apoio psicológico 10 (16,9%)

Apoio financeiro 5 (8,5%)

Estímulo/ Encorajamento/ Compreensão/ Incentivo 11 (18,6%)

Apoio ao estudo 1 (1,7%)

Outras 3 (5,1%)

Relativamente ao apoio familiar, e após análise do quadro 21, verificamos que o apoio geral, onde incluem o apoio financeiro, emocional, médico e logístico, bem como o estímulo e a compreensão são referidos pela maioria, representam um grande peso nos

restantes apoios. Contudo, e igualmente mencionado, por 10 atletas (16,9%), está o apoio psicológico.

“A minha família deixa-me livre nas minhas escolhas, apoiando-me sempre”. (Atleta 18)

“Os meus pais têm sido incansáveis, fazem o que for preciso para eu ter mais tempo”. (Atleta 25)

“Estão sempre a encorajar-me”. (Atleta 9)

“Tenho o apoio incondicional da minha família, ajuda-me a todos os níveis, estão sempre prontos a apoiar-me e a ajudar no que preciso”.

(Atleta 56)

Estas afirmações vão de encontro com o estudo de Ferreira e Moraes (2012, p.48) com nadadores olímpicos, os quais concluíram que durante a carreira desportiva o apoio da família “foi evidenciado, por meio do apoio emocional e financeiro”. Acrescentando ainda que “a presença familiar, constante, silenciosa, fora de foco da mídia, contribui marcantemente para a formação expert” (p.49).

A última categoria desta dimensão diz respeito aos apoios institucionais, e tem como objetivo perceber se os atletas têm conhecimento dos apoios existentes para atletas de alto rendimento e se usufruem dos mesmos.

Quadro 22: Apoios institucionais.

Tem conhecimento dos diferentes tipos de apoios? Frequência (%)

Sim 24 (40,7%)

Não 35 (59,3%)

Usufrui desses benefícios como atleta? Frequência (%)

Sim 12 (20,3%)

Não 47 (79,7%)

No entanto e após análise do quadro 22, verificamos que dos 59 atletas inquiridos apenas 24 (40,7%) afirmam ter conhecimento da existência de apoios específicos para atletas de alto rendimento. Os restantes 35 atletas, que representam mais de metade dos elementos da amostra (59,3%) declararam não ter qualquer

conhecimento do assunto. Posto isto, acrescenta-se que apesar de haver 24 atletas a afirmar ter conhecimento das medidas de apoio, apenas 12 (20,3%) atletas usufruem desses benefícios.

Eventualmente, esta situação pode ser justificada, devido à “baixa” no número de atletas inseridos no alto rendimento, poucos são aqueles que podem usufruir dos benefícios presentes no Decreto-Lei n.º 272/2009. Isto porque, com a entrada deste normativo, as condições de atribuição do regime de alta competição mudaram, agora os atletas são obrigados a classificarem-se em Campeonatos do Mundo e da Europa, (critérios quase exclusivamente quantitativos) e passam a ser distinguidos segundo três níveis (A, B, C), deixando de existir a noção de atletas em percurso de alta competição, bem como deixam de ser consideradas as presenças na Seleção Nacional. Desta forma, torna-se mais difícil para os atletas conseguirem cumprir as exigências para esse estatuto e consequentemente usufruir das medidas de apoio resultantes do alto rendimento.

Quadro 23: Tipos de apoios institucionais.

Apoios institucionais Frequência (%)

Não responde 47 (79,7%)

Alteração das datas de exame 4 (6,8%)

Subsídios e estadia no Centro de Alto Rendimento (CAR) 2 (3,4%)

Apoio médico 2 (3,4%)

Flexibilidade nas avaliações 2 (3,4%)

Ingresso na Universidade (estatuto) 1(1,7%)

Escolha do horário escolar 1 (1,7%)

Quanto às medidas de apoio, e segundo o Decreto-Lei n.º272/2009 de 1 de Outubro, os atletas de alto rendimento, podem beneficiar dos apoios respeitantes aos domínios: a. Regime escolar (artigos 14.º a 22.º); b. Dispensa temporária de funções (artigos 23.º e 24.º); c. Acesso a formação superior, especializada e profissional (artigos 27.º a 29.º); d. Outros Apoios - apoio material e médico (artigos 30.º a 34.º); e. Medidas de apoio pós-carreira (39.º a 43.º).

Contudo, e como podemos observar no quadro 23, dos vários apoios facultados, aqueles que os atletas usufruem maioritariamente são os de natureza educativa, inseridos no capítulo III- regime escolar. Sendo que, a alteração das datas de exames é o

mais referido (Artigo 17.º). Porém, e igualmente mencionados (3,4%), ainda que em menor número temos flexibilidade nas avaliações (artigo17.º), apoio médico (artigo 33.º), Subsídios e estadia no Centro de Alto Rendimento (artigo 31.º). Estes apoios estão assim enquadrados no capítulo VII do Decreto-Lei n.º272/2009, Outros apoios – apoio material e médico.

“Tive a possibilidade de adaptar as datas dos testes de avaliação, sempre que coincidiam com as competições”. (Atleta34)

“Residir e usufruir das instalações do Centro de Alto Rendimento, nomeadamente, da pista e ginásio”. (Atleta9)

“Pude escolher o melhor horário escolar, e não tenho problemas quanto ao número de faltas.” (Atleta3)

De realçar, que nomeados apenas por um atleta, obtivemos o ingresso no ensino superior através do estatuto de alto rendimento e a possibilidade de escolher o horário escolar. Que segundo os resultados obtidos no estudo de Zenha et al. (2009) se trata de um fator promotor do sucesso escolar, uma vez que, escolhendo o horário escolar os atletas conseguem adaptá-lo ao horário de treino.