• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 2. REVISÃO DA LITERATURA

2.4. Desporto de Alto Rendimento e Sucesso Escolar

O sucesso escolar é cada vez mais um dos temas a ser estudado na atualidade. Porém, aferimos que, quando se tenta averiguar se o sucesso escolar realmente existe, deparamo-nos com o insucesso escolar, verificando que estes dois conceitos aparecem na maioria das vezes associados, apesar de possuírem significados opostos.

De acordo com Leal (2007, p.18) “o sucesso escolar pode remeter-nos para ideias bastante diferentes, confundindo-se mesmo, por vezes, o sucesso/insucesso escolar com o sucesso/insucesso educativo”.

O sucesso escolar, apesar de ser um objetivo da escola, confunde-se com o sucesso educativo, na medida em que o sucesso individual se sobrepõe aos processos administrativos.

Pelo que Martins (2007, p.12), lembra ao falarmos “de sucesso/insucesso, não devemos desprezar a correlação entre escolar e educativo, uma vez que, para além de ensinar conhecimentos, a escola deve assumir o papel de educar”.

O sucesso escolar é então definido por Estrela (2007, p.16) como “rendimento ou aproveitamento dos alunos, e ainda como eficácia e eficiência do sistema, como qualidade e, numa fuga em frente, como excelência”.

Relativamente ao sucesso educativo, a mesma autora considera que a sua definição permanece intacta desde a primeira metade do século XX, permanecendo a opinião pública de que o sucesso educativo está intimamente ligado ao aproveitamento escolar, “ligado quanto muito, ao de ausência de problemas graves do foro disciplinar”.

Desta forma, podemos concluir que a escola deve funcionar como um centro socioeducativo, isto é, além de instruir deve também socializar os alunos, ou seja, formar os alunos com conhecimentos técnicos e valores.

O conceito sucesso escolar é assim classificado de acordo com a capacidade do aluno em atingir os objectivos definidos pela escola. Este conceito assume uma conotação positiva e é utilizado sempre que se pretende valorizar o desempenho ou a aquisição correcta de conhecimentos.

Todavia, Perrenoud (2003, p.10) considera que o sucesso escolar pode ser entendido em dois sentidos, associado ao desempenho dos alunos “obtêm êxito aqueles que satisfazem as normas de excelência escolar e progridem nos cursos” e ainda subentendido nas escolas, nomeadamente nas “listas de classificação”. Neste caso, o “sucesso escolar acaba designando o sucesso de um estabelecimento ou de um sistema escolar no seu conjunto; sendo considerados bem-sucedidos os estabelecimentos ou os sistemas que atingem seus objetivos ou que os atingem melhor que os outros”.

Já Goddard, Tschannen e Hoy (2001 cit. por Chechia & Andrade, 2005, p.433), não se restringem à avaliação das capacidades dos alunos, pois “o sucesso escolar é uma construção social que se constitui, frequentemente, de crenças e concepções compartilhadas por pais e alunos”.

Analogamente González-Pienda (2003) coloca em causa a definição de rendimento escolar, unicamente segundo a dimensão cognitiva, ou seja, na opinião do autor a relação entre capacidade e rendimento não é uniforme, pois apesar de não causarem o mesmo impacto, são muitas as variáveis que afetam a aprendizagem e o rendimento escolar. Pelo que González-Pienda (2003, p.250) conclui que a “inteligência é uma potencialidade que poderá levar ou não ao rendimento escolar”.

Identicamente Peixoto (2008, p.194) assevera que “é hoje adquirido que a inteligência tem um papel decisivo no rendimento escolar, mas é também aceite que as características da personalidade e os aspetos afetivo-emocionais são relevantes para o sucesso escolar e também pessoal dos sujeitos”.

No que respeita ao insucesso escolar, ao analisarmos etimologicamente o termo insucesso que deriva do latim Insucessu(m) no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Figueiredo, 1996, p.1444), vemos que tem por sinónimos “mau resultado, falta de bom êxito”. Porém, o mesmo termo no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Casteleiro, 2001, p.2125) significa “mau resultado; falta de êxito ou eficácia”.

Segundo Afonso (1988, p.41), o insucesso refere-se “quase sempre a um conjunto de percentagens e números globais em torno de alguns indicadores visíveis de fracasso escolar dos alunos (reprovações, abandonos, repetências, etc.)”.

Neste seguimento de ideias, podemos afirmar que o insucesso escolar é usualmente atribuído ao facto de os alunos não atingirem os objetivos determinados pela escola ou pelo professor, dentro dos limites temporais estabelecidos adquirindo por si uma conotação negativa e traduzindo-se na prática pelas taxas de reprovação, repetências e abandono escolar.

Todavia, quando tentamos ajustar uma definição exata e objetiva para o insucesso, o conceito torna-se bastante complexo.

Benavente (1990, p.716), no seu estudo sobre o tema insucesso escolar, resultantes de outras publicações, referiu duas teorias: a teoria dos «dotes» e a teoria do «handicap».

A teoria dos «dotes» era baseada em explicações psicológicas individuais, isto é, tendo em conta as capacidades de cada um. Assim, a teoria justificava o sucesso/insucesso de acordo com as maiores ou menores capacidades dos alunos, pela sua inteligência, pelos seus «dotes» naturais.

Já segunda teoria, a teoria do «handicap» sociocultural era baseada em explicações de natureza sociológica. Logo, fundamentava o sucesso/insucesso dos alunos pela sua “pertença social, pela maior ou menor bagagem cultural de que dispõem à entrada na escola”.

Também Peixoto (1999), atesta que o rendimento escolar assume uma vertente pessoal e uma vertente social. Este sentido duplo, remete-nos numa fase inicial, para as aptidões, competências e características individuais de cada aluno. Já o aspeto social compreende a imposição da sociedade, uma vez que, a avaliação do aluno é feita, de acordo com os níveis mínimos de aprendizagem para cada nível de ensino.

Identicamente González-Pienda (2003, p.247) afirma que, o rendimento escolar é condicionado por um conjunto de variáveis que indicam o sucesso ou insucesso. Sendo que, essas condicionantes são constituídas por “um conjunto de fatores limitados operacionalmente como variáveis que se podem agrupar em dois níveis: as de tipo pessoal e contextual (sócio ambientais, institucionais e instrucionais)”.

Desta forma, e após entendidas as definições supracitadas para sucesso escolar, facilmente se depreende que “a incapacidade que o aluno revela de atingir os objetivos globais definidos para cada ciclo de estudos” é denunciadora de insucesso escolar (Eurydice, 1995 cit. por Silva 2004, p.20).

No entanto, uma das questões que se nos impõem é perceber até que ponto, o desporto influencia o rendimento escolar, será este um causador de insucesso nos alunos/atletas? Até que ponto o rendimento académico está relacionado com a prática desportiva dos alunos. Existirá alguma relação?

Com efeito, o sucesso desportivo e sucesso escolar possuem um caráter ambivalente, que marca presença na maioria das vezes, ao longo do trajeto desportivo dos atletas de alta competição, pois a prática da modalidade inicia-se em idades jovens e abrange a idade escolar. Como explicou Lipscomb (2007) a prática desportiva assume grande relevância quando falamos em alunos do ensino secundário, pois é usual que estes participem em atividades extracurriculares, mais precisamente em atividades desportivas.

Investigar a relação existente entre a prática desportiva e o rendimento académico de jovens atletas, “coloca em jogo duas variáveis relevantes nesta etapa da vida: o desporto, pelos benefícios e interesse que suscita e o rendimento académico que parece concretizar o sucesso escolar destes jovens, cujo projeto de vida assenta sobretudo na sua formação académica” (Costa, 2007, p.3).

Segundo Sil e Lopes (s/d, p.2986) “o insucesso escolar não é uma fatalidade já que as crianças não estão destinadas a ser boas ou más alunas, tudo dependendo do funcionamento da escola e da sua interação com o meio social e as características da própria criança”.

Costa (2007, p.27) vai mais longe, afirmando que “não é o facto de os alunos praticarem ou não desporto que afeta o seu desempenho escolar, mas o de dedicarem a essa prática mais tempo do que o que seria desejável”.

Já Zenha et al. (2009, p.2) afirmam que, “os estudos e o desporto complementam-se e potenciam-se reciprocamente na formação do indivíduo”.

Mas, e se falarmos em atletas de alto rendimento? Será que a elevada dedicação e exigência que são impostas nos treinos e competições não iram afetar o desempenho escolar? E a sua vida social?

Como esclareceram Zenha et al. (2009, p.2) o processo de formação de um atleta de alto rendimento “nem sempre é compatível com as atividades educativas e sociais próprias do cidadão comum”. Uma vez que, as exigências vão sendo cada vez maiores, principalmente no número de horas de treino que vão aumentando e consequentemente provocam uma redução no tempo livre.

Assim, segundo Costa (2007, p.29) é importante, que para não prejudicarem o seu desempenho escolar, “os alunos não comprometam algum do tempo que lhes poderá ser útil para estudar, por se dedicarem excessivamente a atividades de carácter desportivo”. Sendo também indispensável “que os diferentes agentes educativos reúnam esforços no sentido de ajudar os alunos a melhor gerirem e organizarem o seu tempo, de modo a não comprometerem a concretização do seu sucesso escolar”.

Isto porque, como foi esclarecido no enquadramento normativo, os atletas que conseguem atingir o alto rendimento, são detentores do estatuto de alto rendimento que lhes confere o acesso a alguns apoios. Porém é preciso que sejam colocados à disposição dos atletas, para que estes possam usufruir do que é seu por direito.

Porém, segundo Zenha et al. (2009, p.2) a “possibilidade de obtenção de um estatuto desportivo de alto nível não resolve as dificuldades inerentes a esta vida-dupla de desportista e, na maior parte dos casos, de estudante”.

É neste ponto, que os professores assumem um papel fundamental, pois quando as instituições dificultam o acesso a esses apoios, cabe ao professor ser flexível e/ou procurar soluções que ajudem o aluno. Como afirmou Sil e Lopes (s/d, p. 2990) “a implicação do professor na construção do sucesso dos alunos deverá compreender aspectos positivos da prática pedagógica e da prática profissional que possibilitem a elaboração e desenvolvimento de estratégias educativas adequadas aos alunos em situação de insucesso”.

Contudo, não chega o esforço do professor, é preciso que o atleta tenha consciência de que tem de organizar-se, para assim poder rentabilizar o treino. Pois, como concluiram Zenha et al. (2009, p.8), para obterem um bom rendimento académico os atletas precisam ter a capacidade de gerir bem o tempo, bem como, “possuir qualidades de organização pessoal acima da média dos jovens da mesma idade”, só assim conseguiram conciliar os estudos com o desporto, e também usufruir de algum tempo livre para atividades sociais.