4 APLICAÇÃO DO PEDIDO DE SUSPENSÃO DE LIMINAR DA LEI Nº
6.1 Supremacia do Interesse Público: uma nova construção
6.1.1 Conceito de Interesse Público e o Princípio da Proporcionalidade
De acordo com Celso Antônio Bandeira Melo104, o interesse público é uma projeção de interesses individuais e privados em um plano coletivo, ou seja, uma vantagem comum a todos, e que representa o ideal de bem-estar e segurança almejado pelo grupo social. As expressões interesse público e interesse coletivo seriam, assim, sinônimos.
A doutrina moderna, encampada pelos estudos de Humberto Bergmann Ávila, afirma que o interesse público depende de uma prévia ponderação, baseada na proporcionalidade entre os direitos fundamentais versus outros valores e interesses meta- individuais constitucionalmente consagrados105.
Ressalte-se, ainda, que não se pode confundir o interesse da coletividade com o do órgão da administração pública. Em muitas situações, eles podem até coincidir, mas essa não é a regra. Por vezes, a pretensão estatal difere, ou até contrapõe-se, aos anseios sociais. Nesse ensejo, a expressão não pode ser tomada como a pretensão arrecadatória do fisco, por exemplo, quando o tributo cobrado é de latente inconstitucionalidade. O Poder Público atua, sim, como representante do interesse público primário. Concilia-se com esse entendimento a lição de Flávia Monteiro de Castro Brandão:
Ressalte-se, ainda, que o interesse público em essência, que enseja o periculum in mora deflagrador da possibilidade do pedido de suspensão é interesse público primário, ou seja, interesse de toda a coletividade, ‘que a lei consagra e entrega à compita do Estado como representante do corpo social’, e não o interesse da pessoa jurídica, este, interesse público secundário.106
Da mesma forma, Renato Alessi demonstra a distinção entre as modalidades de interesse público:
Estes são interesses públicos, coletivos, dos quais a administração deve prover a satisfação. Não são, note-se bem, simplesmente o interesse da administração entendida como sujeito jurídico em si mesmo, mas aquele que foi chamado de interesse coletivo primário, formado pelo complexo de
104 Nesse sentido, Curso de Direito Administrativo, São Paulo: Malheiros, 2003, p. 53.
105 Cf. ÁVILA, Humberto Bergmann. “Repensando o ‘Princípio da supremacia do interesse público sobre o
particular’ ”. O Direito Público em Tempos de Crise – Estudos em homenagem a Ruy Ruben Ruschel, 1999, p. 99-127.
interesses individuais prevalentes em uma determinada organização jurídica da coletividade, enquanto o interesse do sujeito administrativo é simplesmente um dos interesses secundários que se fazem sentir no seio da coletividade e que podem receber satisfação somente nos casos de coincidência – e nos limites de tal coincidência – com o interesse coletivo primário.107
Deve-se, portanto, ter como certo que interesses privados e coletivos coexistem como objeto de tutela constitucional, concluindo-se que a expressão interesse público é uma referência de natureza genérica, a qual abarca ambos, interesses privados e coletivos, enquanto juridicamente qualificados como metas ou diretrizes do Estado. Na realidade, aqueles são indissociáveis, não devendo haver predominância de um sobre o outro: o bem comum inclui o bem de suas partes.
Atualmente, por conseguinte, não mais deve ser aceita a idéia de um “princípio” estabelecer, a priori, qual a melhor solução para todos os problemas com os quais se deparam os órgãos judiciais e o administrador público, de maneira a sempre o interesse público sobressair-se sobre o privado. Essa resolução de conflitos rejeita abruptamente as especificidades de cada caso.
Em vez de uma regra de prevalência, impõe-se ao intérprete e aos operadores do direito, considerando a pluralidade de vontades, propiciar solução capaz de realizá-los ao máximo. O interesse público nada mais é que a própria preservação dos direitos fundamentais, submetendo-se o administrador ao dever jurídico de ponderação.
O Princípio da Proporcionalidade mostra-se, então, como a condição para o conhecimento de normas, com o intuito de acomodar os bens jurídicos envolvidos, sem que se exclua um em prol da subsistência do outro. Dentre as opções disponíveis, todas precisam ser otimizadas em algum nível. Este é o dever da ponderação, ao qual se liga o postulado da proporcionalidade.
Segundo esse entendimento, o Supremo Tribunal Federal, em diversas oportunidades, aplicou a técnica da ponderação, instrumentalizada através do princípio da proporcionalidade. Vejamos parte da decisão do Ministro Gilmar Mendes, em julgamento da Intervenção Federal 2.257-6/SP, no Plenário da Corte:
107 ALESSI, Renato. Diritto Amministrativo, vol. I, Giuffrè, Milano, 1949, pp. 123-125 citado por BRANDÃO,
(...) o princípio da proporcionalidade representa um método geral para a solução de conflitos entre princípios, isto é, um conflito entre normas que, ao contrário do conflito entre regras, é resolvido não pela revogação ou redução teleológica de uma das normas conflitantes nem pela explicitação de distinto campo de aplicação entre as normas, mas antes e tão somente pela ponderação do peso relativo de cada uma das normas em tese aplicáveis e aptas a fundamentar decisões em sentido opostos. Nessa última hipótese, aplica-se o princípio da proporcionalidade para estabelecer ponderações entre distintos bens constitucionais.
Em síntese, a aplicação do princípio da proporcionalidade se dá quando verificada restrição a determinado direito fundamental ou um conflito entre distintos princípios constitucionais de modo a exigir que se estabeleça o peso relativo de cada um dos direitos por meio da aplicação das máximas que integram o mencionado princípio da proporcionalidade. São três as máximas parciais do princípio da proporcionalidade: a adequação, a necessidade e a proporcionalidade em sentido estrito. Tal como já sustentei em estudo sobre a proporcionalidade na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (...), há de perquerir-se, na aplicação do princípio da proporcionalidade, se em face do conflito entre dois bens constitucionais contrapostos, o ato impugnado afigura-se adequado (isto é, apto para produzir o resultado desejado), necessário (isto é, insubstituível por outro meio menos gravoso e igualmente eficaz) e proporcional em sentido estrito (ou seja, se estabelece uma relação ponderal entre o grau de restrição de um princípio e o grau de realização do princípio contraposto).108
Em razão de o princípio da proporcionalidade ser composto dos sub-princípios da necessidade, da adequação, e da proporcionalidade em sentido estrito, a restrição imposta a cada interesse em jogo, num caso de conflito, somente se justificará na medida em que se mostrar apta a garantir a sobrevivência do interesse antagônico, quando não houver solução menos gravosa, e quando o benefício logrado com essa restrição compensar o grau de sacrifício imposto à parte contrária.
Dessa forma, não pode o Poder Público valer-se, no contexto processual, de uma norma de prevalência, devendo as minúcias do caso serem analisadas, a fim de auferir se realmente há, ou não, perigo de lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia públicas. Os direitos individuais não podem sofrer constrição sem justificativa plausível. Na mesma inteligência, Napoleão Nunes Maia repara:
É comum ver-se na relação processual mantida com o Poder Público e, principalmente, no momento da efetivação dos provimentos adversos nela expedidos, a inoportuna invocação de defesa do interesse público como tática ou argumento para afastar o direito já reconhecido da parte litigante ou
fazer preponderar a tese de que a esse direito individual se opõe aquele superior interesse.109
Complementado a idéia, aduz ainda que:
Embora seja indispensável a preservação de tais interesses, é preciso deixar fixado que a sua defesa (desses mesmos interesses) também deve se submeter à jurisdição e que a possibilidade de sua superação quando em confronto com interesses individuais não é mais que a afirmação da efetividade geral da jurisdição, a submeter (também) aquel’outros interesses.110