PARTE III – Museus Virtuais. Uma proposta para a Colecção de Azulejos
1. Categorias de museus na Internet
1.1. Conceito de Museu Virtual
O conceito de museu virtual é algo ainda muito novo na Museologia. Só na década de 90, com a proliferação da Internet comercial a partir de 1994, é que os museus se começaram a apresentar de forma virtual, sendo que, a discussão teórica sobre os museus virtuais é, ainda, muito incipiente, sem existir um consenso, acerca do que distingue um site de um museu virtual. Muitos autores apontam a diferença ligada à virtualização dos objectos e a sua representação online. Neste sentido, a maioria dos museus tem optado por criar sites que representam o seu espaço físico, não tirando assim partido das potencialidades de interacção da Internet.
Pierre Lévy, um dos mais conhecidos teóricos contemporâneos entusiastas das tecnologias informatizadas afirma que os pretensos museus virtuais actuais “ (…) não são muitas vezes senão maus catálogos na Internet, enquanto que o se “conserva” é a
313 Ainda que muitas instituições utilizem a Internet como um painel para afixar as suas informações institucionais, e não, como uma ferramenta interactiva, alguns museus possuem já interessantes sites institucionais, disponibilizando informações sobre os seus objectos e sobre as actividades culturais desenvolvidas, tendo a Internet como um aliado de divulgação e comunicação, que possibilita a interacção com os seus utilizadores/visitantes. Estes, não restringem a sua presença na web a apresentações de boletins, folhetos, catálogos, na medida em que permitem uma maior interacção e troca de conhecimentos com o público, com outras instituições e com outros especialistas. No panorama nacional destaque-se o site do Museu Nacional de Arqueologia premiado pela UNESCO, no ano de 2002, com o galardão de “Web Art d’Or”, o melhor site de museus do mundo. A par desta instituição museológica, outras tuteladas pelo Instituto dos Museus e da Conservação tem vindo a alterar a sua presença na Internet, salientando-se o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu Nacional do Azulejo, que mais recentemente reestruturou o seu site, encontrando-se disponível ao público desde Dezembro de 2008. Saliente-se, ainda, que nesta matéria, as instituições privadas muito têm contribuído para este desenvolvimento, nomeadamente, o Museu Calouste Gulbenkian e o Museu de Serralves, que através das suas acções sensibilizaram e incentivaram o progresso de equipamentos nacionais congéneres.
própria noção de museu enquanto “valor” que é posta em causa pelo desenvolvimento de um ciberespaço onde tudo circula com fluidez crescente e onde as distinções entre original e cópia já não têm evidentemente razão de ser.”314.
Segundo Werner Schweibenz este conceito está em constante construção e, é fácil confundi-lo com outras denominações, tais como: museu electrónico, museu digital, museu online, museu hipermédia, meta-museu, museu cibernético, cibermuseu, ou, ainda, museu no ciberespaço315. Tratando-se de uma temática recente nesta área, não há consenso, em relação ao que deverá ser considerado museu virtual ou, simplesmente, um site de um museu. Assim como referimos, a maioria dos autores, que tem trabalho sobre esta questão, tende para uma definição ligada à virtualização dos objectos e à sua apresentação online. No entanto, parece-nos redutora esta visão, atendendo ao facto que um museu virtual poderá ter duas configurações: uma, será realmente, como defendem alguns autores, um museu essencialmente virtual, ou seja, sem correspondência no mundo físico; mas, poderá também, ser um museu virtual que tem correspondência no mundo físico, quer trate-se de um “museu/edifício”, quer trate-se de uma colecção existente fisicamente, como no caso do Museu Virtual do Azulejo da Colecção Berardo.
Assim, um museu virtual será uma vertente complementar, dado que a Colecção se encontra exposta e acessível ao público. A vertente virtual contribuirá, desta forma, para uma nova perspectiva de interacção com o património.
Antonio Battro defende que o museu virtual é muito mais do que colocar fotografias das reservas, colecções e exposições temporárias na Internet. Trata-se, pois, de construir um museu totalmente novo316. Nesse sentido, o museu virtual não é a reprodução do museu físico, mas um museu completamente novo, criado para traduzir algumas das funções museológicas no espaço virtual.
Entre outros autores que se debruçaram sobre a problemática dos museus virtuais, destacamos ainda Bernard Deloche, que na obra intitulada “Le musée virtuel”, publicada em 2001, estuda a questão da virtualidade no processo museológico,
314 LÉVY, Pierre – Cibercultura. Instituto Piaget, Lisboa, 2000, p. 281.
315 “It is called an on-line museum, electronic museum, hypermuseum, digital museum, cybermuseum or a Web museum depending on the backgrounds of the practitioners and researchers working in this field.”
Tradução livre, in Werner Schweibenz (2004), consultado online.
316 “El museo virtual es mucho más que poner fotos en Internet de las reservas, colecciones permanentes y muestras temporarias. Se trata de concebir un museo totalmente nuevo.” Tradução livre, in BATTRO, António – Museos imaginarios y museos virtuales. FADAM, Agosto de 1999, disponível em:
http://www.byd.com.ar/bfadam99.htm consultado a 14 de Maio de 2008.
baseando-se nos museus de arte317. Afirmando que o museu é um templo da imagem, utiliza o conceito de museu paralelo, ou seja, defende que o museu virtual é aquele que existe na virtualidade, quase como um substituto, um museu sem lugar e sem paredes.
Na nossa opinião, o museu virtual não é um museu substituto. Discordamos da posição de Deloche, pois entendemos que o museu virtual, sendo uma vertente virtual de um museu físico, é um museu complementar. Neste sentido, o museu virtual poderá ser tão ou mais eficaz do que o museu físico, mas nunca o substituirá, será antes uma nova perspectiva de interacção com o património cultural. Conforme refere Rosali Henriques “(…) muitos autores ainda vêem o museu virtual como um simulacro de um museu físico, ou seja, estão arraigados no conceito de museu como um espaço de exposição de determinada colecção. E isso, infelizmente, restringe o uso da Internet pelos museus, tornando os seus sites, mesmo aqueles mais interessantes e atractivos, apenas em sites de museus e não museus virtuais.”318.
A visão de alguns destes autores reporta-nos para uma outra questão, de todo pertinente, quando reflectimos sobre o conceito de museu virtual, trata-se pois de entender a concepção utilizada por alguns sites de museus, inclusive alguns museus virtuais, que veiculam a ideia de museu enquanto edifício que preserva uma, ou mais colecções, para deleite do seu público. Esta é uma noção de museu implantada no século XIX e que a Nova Museologia interrogou, refutando-a com uma nova concepção de museu, que tem por base, o património cultural de uma determinada comunidade, estabelecida num determinado território. Ao reproduzir a configuração de um edifício, com todas as suas características e especificidades, o museu virtual estará a reforçar o conceito de museu presente na mentalidade da grande maioria das pessoas. Até os projectos de museus, essencialmente, virtuais, como é o caso do Museo Virtual de Artes (MUVA), pensado já com este intuito, continuam a fortalecer essa ideia319.
Desenhado em VRML – Virtual Reality Modeling Language, uma linguagem vectorial utilizada em desenhos 3D e multimédia, este museu reproduz as divisões físicas de um museu dito tradicional. Ao aceder à morada electrónica do MUVA, o visitante depara-se com uma zona ajardinada, que circunda o edifício virtual. Seguindo as indicações entra na área de acolhimento onde encontra um balcão informativo e os
317 DELOCHE, Bernard – Le musée virtuel: vers un éthique des nouvelles images. Presses Universitaires de France, Paris, 2001.
318 Rosali Henriques (2004), p. 16.
319 O Museo Virtual de Artes (MUVA) é um museu virtual com reproduções de obras de arte uruguaia, mantido pelo jornal El País. Disponível em: http://muva.elpais.com.uy/ . Este espaço conta já com dois edifícios de exposições virtuais que podem ser visitados separadamente, o MUVA I e o MUVA II.
acessos às diferentes galerias de exposições, individuais e colectivas, todas visitáveis. O visitante escolhe o percurso movimentando o rato e selecciona as salas onde quer entrar e as obras a ver com detalhe, podendo obter mais informação. Através das escadas, ou dos elevadores, acede aos vários pisos, encontrando no decorrer do circuito expositivo coffe-shops, entre outros serviços, que embora representados visualmente, não têm utilidade, servindo meramente de “cenário”. Para Maria Luísa Bellido Gant o MUVA enquadra-se na mais avançada tipologia de museus virtuais, defendendo que “(…) se esctructura como um auténtico museo, con seis plantas, todas ellas navegables, vestíbulo, passilos, escaleras, ascensores, (…)”320. Opinião que discordamos por duas razões distintas, primeiramente porque um museu virtual é já um autêntico museu, sendo que, na nossa perspectiva, não necessita de reproduzir fisicamente um museu para ser considerado um autêntico museu virtual, e em segundo lugar, porque a existência de uma visita virtual não é sinónimo da existência de um museu virtual. O que está aqui em causa não é debater a utilização do MUVA, socorrendo-se ao edifício para mostrar que é um museu virtual, mas sim a percepção de que para ser considerado um verdadeiro museu virtual não é necessário reproduzir um museu físico.
Como museus verdadeiramente virtuais, Scheiner distingue o Indigenous Tribal Culture Virtual Museum, apoiado pela UNESCO, relativo às tribos da Tailândia, e na América Latina o Museu Virtual da Estética, sedeado na Universidade do Norte Colombiano. Para esta autora os museus físicos consideram o conceito de museu virtual
“(…) apropriado para caracterizar a metamorfose aplicada à imagem e ao texto, matérias de que se compõem a realidade à realidade comunicacional da maioria dos museus. Esta metamorfose garantiria aos museus acessibilidade e disponibilidade jamais antes experimentadas – proposta altamente sedutora, pelo menos para os museus “tradicionais”, cujo objectivo maior é relacionar-se com o “público”. Aqui, todos os recursos de documentação, interpretação e conservação são transformados em representação icónica, sinalética, dos acervos preservados. O meio virtual garante um potencial infinito de acessibilidade.”321.
No nosso entender, o museu virtual é aquele que desenvolve as suas funções museológicas, ou parte delas, num espaço virtual, podendo, ou não, apresentar-se como interface de instituições museológicas construídas no espaço físico. Consideramos que o
320 GANT, Maria Luísa Bellido – Artes, museos y nuevas tecnologias. Gijón, Trea, 2001, p. 342.
321 SCHEINER, Teresa Cristina Moletta – Imagens do “Não-Lugar”: Comunicação e novos patrimónios.
Tese de Doutoramento em Comunicação e Cultura, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004, pp.262-263.
autêntico museu virtual não pode, apenas, apresentar reproduções das suas colecções, mesmo que devidamente catalogadas, deverá também, fazer uso da Internet enquanto espaço de interacção e mediação, através das suas funções museológicas, desenvolvendo actividades onde o público possa interagir com as referências patrimoniais por si conservadas, mesmo que virtualmente.