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PARTE III – Museus Virtuais. Uma proposta para a Colecção de Azulejos

1. Categorias de museus na Internet

1.2. Vantagens e Desvantagens dos Museus Virtuais

autêntico museu virtual não pode, apenas, apresentar reproduções das suas colecções, mesmo que devidamente catalogadas, deverá também, fazer uso da Internet enquanto espaço de interacção e mediação, através das suas funções museológicas, desenvolvendo actividades onde o público possa interagir com as referências patrimoniais por si conservadas, mesmo que virtualmente.

monumental architecture and the electronic glow of the twentyfirst century computer screen. Via the World Wide Web, the museum now transcends the fixities of time and place, allowing virtual visitors to wander through its perpetually deserted galleries and interact with objects in ways previously unimaged.”323.

A Internet tornou-se para as instituições museológicas um veículo eficaz para a divulgação de catálogos, boletins informativos, e-mails, troca de informações entre especialistas, etc., de forma a difundir o trabalho desenvolvido. Assim como ficou referido, possibilitando uma maior interacção com o público e com especialistas, a Internet veio facultar uma rede de troca de experiências e conhecimentos entre instituições com objectivos semelhantes ou convergentes.

O museu virtual permite a efectivação de uma nova visita, abrangendo determinados objectos e percursos expositivos, que não são possíveis de realizar no espaço museológico tradicional, criando novas perspectivas de apresentação do acervo.

“Quando se passa para o campo virtual, o campo de acção alarga-se dando origem a múltiplos percursos interactivos. Outra forma de utilização da Internet são as parcerias institucionais, em que determinado museu convida outras instituições a participar com conteúdos específicos, criando exposições virtuais, com conteúdos culturais e patrimoniais de vários museus.”324 Ou seja, mais do que um veículo de divulgação e comunicação, bem como, ferramenta de marketing, a Internet possibilita a montagem de uma rede de ligações entre várias instituições afins e com objectivos similares. Este uso pode ser feito através de listas de discussão; blogues; fóruns; rede de comunicação, etc., pois a Internet permite uma troca de experiências entre profissionais da museologia de uma forma mais rápida e consistente. Tal como refere Rute Machado, na citação atrás enumerada, este meio faculta colaborações multi-institucionais, criando laços virtuais com outras instituições de forma globalizada, alterando a noção de tempo e de espaço.

Como defende Cruz o visitante assiste à “(…) imposição de um espaço tecnológico, ou melhor, do tecnológico como espaço, como palco por excelência, da abertura dos possíveis da experiência – o ciberespaço.”325. Ou seja, o objecto museológico abre-se, deste modo, à experiência estética através do virtual, através de um artifício: a imagem virtual. A expressão “imagem virtual” abrange as imagens

323 GRIFFITHS, Alison – “Media Technology and Museum Display: a Century of Accommodation and Conflict”. in Rethinking Media Changes, MIT Press, London, 2003, pp. 375-389.

324 MACHADO, Rute – “Museus virtuais: A importância da usabilidade na mediação entre o público e o objecto musueológico”. in Livro de Actas – 4º SOPCOM, Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 2005, p. 1542.

325 CRUZ, M. – “Media Art ou Mediacracia”. in Catálogo de Cyber 98, Lisboa, 1998, p. 12.

numéricas e a ideia de simulação do real. A mais valia desta realidade é o facto de ditar um novo meio de contemplação. O testemunho museal é representado pelo artifício e as TIC utilizam-no de forma a possibilitar a experiência estética. Pois, como relembra José Bragança de Miranda “(…) a articulação da técnica e da estética são duas faces do mesmo processo de linearização do real pelo código digital.”326. Assim sendo, o sujeito, enquanto fruidor de toda a experiência estética, é, simultaneamente produtor da realidade. No contexto dos museus virtuais, a progressão faz-se de página em página, como se deambulássemos de sala em sala, interagindo com os objectos e redescobrindo, e reinventando, o percurso expositivo. O recurso às TIC para a produção desta nova realidade integra o conceito de interactividade no percurso museológico e faculta ao visitante diversas alternativas de fruição. Com possibilidade de escolher e interagir com o espaço museológico cada visitante terá a sua própria experiência.

“Rapidamente as instituições museológicas se aperceberam das vantagens e potencialidades da Internet, massiva, rápida, imediata, económica, monopolizadora do quotidiano do trabalho e do ócio, sendo que cada vez mais gente tem possibilidades de aceder às novas tecnologias ou tem à disposição recursos facilitadores para tal.”327 A Internet patenteia um incomensurável potencial informativo e comunicativo, quer em questões de celeridade de circulação, quer em número de pessoas e áreas geográficas que abrange. Devido às suas características de imaterialidade, instantaneidade e multimédia, democratiza o acesso à informação e conhecimento de determinados tipos de bens; facilita a comunicação entre pessoas e instituições e universaliza oportunidades, eliminado barreiras espaciais, geográficas e temporais.

No que diz respeito às desvantagens do museu virtual, consideramos, essencialmente dois aspectos. O primeiro é respeitante ao design e manutenção do museu online, diga-se, tão importante como no caso de um museu físico. No entanto, tratando-se de um museu virtual, não será “visitado” com tanta frequência, como se de um museu físico se tratasse, assim sendo, corre o risco de se negligenciar a imagem da instituição. A não actualização da informação, ao invés de potencializar novos visitantes, poderá afastá-los, expondo a unidade museológica a uma “má publicidade”.

326 MIRANDA, José Bragança de – “O Design como Problema”. in Autoria e Produção em Televisão Interactiva, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 2003, p. 300.

327 PINHO, Joana Maria Balsa Carvalho de – “Museus e Internet. Recursos online nos sítios web dos museus nacionais portugueses”. Revista TEXTOS de la CiberSociedad, 8. Temática Variada, 2007.

Disponível em: http://www.cibersociedad.net, consultado a 14 de Maio de 2008.

O segundo aspecto, que poderá ser apontado pelos defensores acérrimos do museu dito tradicional, é a privação por parte dos visitantes a uma experiência estética plena dos cinco sentidos, aquilo a que muitos autores consideram a “aura do objecto museológico”. Embora, no caso em estudo não se coloque essa questão, pois ainda que a Colecção Berardo não possua um Museu do Azulejo no universo físico, a Colecção existe e continuará a existir e a ser visitável, apesar de geograficamente dispersa, sendo este um aspecto que merece a nossa consideração. Os bens culturais encerram em si mesmos, uma materialidade, que ainda não é possível ser plenamente compreendida no universo virtual. Apesar de defendermos as inúmeras vantagens das tecnologias, reconhecemos as limitações que as mesmas ainda têm, para já, no que respeita a uma adequada interpretação da realidade e do universo sensorial. Referimo-nos por exemplo à dimensão real dos painéis, ou seja, teremos exemplares monumentais e outros de dimensão reduzida, todavia, a sua apresentação virtual não irá permitir, ao visitante, ter a mesma percepção, que teria no universo real, pese embora as dimensões estejam mencionadas na respectiva legenda. Relativamente aos exemplares relevados, colocamos a mesma questão, ainda que, a alta qualidade e definição da imagem permita fazer aproximações, a percepção do relevo, será sempre diferente, da experiência real.

Contudo, questionámos se a utilização destas novas ferramentas tecnológicas constitui, no presente, uma interpretação significativamente deficiente da realidade que se tem quando temos oportunidade de ver o objecto no museu. Não consideramos que as limitações sejam assim tão grandes, pelo que enunciamos algumas apreciações que pensamos poder elucidar esta problemática.

Ao visitarmos um museu físico encontramos os objectos dispostos, na grande maioria das vezes, em vitrinas. Estes objectos, muitas das vezes tridimensionais, demandam uma leitura integral da sua forma, da qual o visitante é privado pela existência das estruturas expositivas, a que nos referimos. De igual forma, um quadro ou um painel de azulejos, objectos bidimensionais, são somente contemplados e fruídos pelo público na dimensão que o conseguimos ver, à semelhança do que acontece num monitor. Queremos com isto dizer que na sala de um museu físico, com vitrinas, perdemos a profundidade do campo visual da mesma forma que num museu virtual.

Conforme refere Nuno Moreira “Muitos poderão argumentar que a definição das imagens virtuais não é adequada. Mas não nos parece justa tal afirmação, na medida em que o investimento que é feito, muitas das vezes, na concepção destas plataformas é muito inferior ao que é feito para produzir um espaço físico expositivo.

Além do mais, a distância a que, muitas vezes, somos condicionados a ver os objectos num museu devido às baias de segurança, aos alarmes, às marcas dissuasoras no pavimento ou à sempre atenta guardaria dificulta significativamente uma percepção de todos os seus pormenores, na sua verdadeira essência – se nos é permitido o romantismo do termo.”328. Ainda neste contexto, salientamos que a utilização de plataformas informáticas possibilita-nos, por exemplo, com recurso a softwares relativamente acessíveis, conceber imagens “tridimensionais” que nos facilitam a observação do objecto rodando-o em todas as direcções, ou através de aproximações sucessivas (zoom), observar a pincelada que o autor usou, bem como, a quantidade de pigmento. Em nosso entender, esta faculdade, vem configurar uma relação com os objectos mais próxima e exploratória caucionando um aumento de interactividade que, pelos motivos acima expostos, se tornam muitas vezes vedados num museu tradicional.

Relativamente ao acesso do público, quanto ao uso das tecnologias, Nuno Moreira diz que “Se é verdade que hoje ouvimos muitas vezes falar nos infoexcluídos, também é verdade que essa franja da população é composta por pessoas na sua maioria de idade mais avançada que não tiveram a oportunidade de gestar já com um teclado e um rato apensos ao cordão umbilical. Sabemos também que os jovens – para seu próprio mal – são cada vez mais sedentários, dependendo do computador – ou pelo menos do acesso à Internet, quer seja pelo ordenador referido, pelo telemóvel, televisão ou quaisquer outros equipamentos que garantam esse acesso privilegiado ao mundo - para a maioria das suas actividades diárias que não estritamente fisiológicas. Ora, estes são a futura população adulta mundial, a mesma que usufruirá, como nós hoje fazemos, do legado histórico e cultural que foi sendo preservado. Assim, parece de extrema vantagem que, cada vez mais, se garanta a virtualidade das colecções museológicas.”329.

Ao reflectir sobre estas questões não temos a pretensão de fazer uma apologia às TIC e aos museus virtuais, nem tão pouco, desacreditar a importância dos museus físicos, queremos apenas demonstrar que as diferenças entre ambos, não são tão significativas, quanto alguns autores pretendem atestar. A existência de um museu virtual na Internet com correspondência no mundo físico, além de funcionar como

“cartão de visitas”, possibilita o acesso ao património cultural de forma mais ampla,

328 MOREIRA, Nuno – “A Conservação das evidências materiais – A “Segunda Vida”. in Revista Museu, 2008. Disponível em: http://www.revistamuseu.com.br/18demaio/artigos.asp?id=16513, consultado a 20 de Setembro de 2008.

329 Nuno Moreira (2008).

facultando a disseminação da cultura e destacando a interactividade como factor primordial para aproximar as visitas virtuais das experiências reais.

Se pensarmos em termos comparativos, e no caso específico do Museu Virtual do Azulejo da Colecção Berardo, as vantagens são inúmeras: a maioria dos internautas que, do mundo inteiro, vierem aceder ao museu, corresponde à mesma quantidade de pessoas que, de outro modo, jamais viriam a Portugal para conhecer a Colecção. Como explica Ruth Perlin “(…) works of art, their contexts, and their display arrangements are being electronically transported out of the exhibit spaces to be examined and visited in homes and other settings by individual who may never enter the art museum.”330.

Acreditamos vivamente, que a virtualidade das colecções museológicas, é uma enorme vantagem para o desenvolvimento humano e enriquecimento das sociedades.

330 PERLIN, Ruth – “Media, Art Museums and Distant Audiences”. in The Virtual and the Real, 2000, p. 84.

Capítulo II – Museu Virtual do Azulejo da Colecção Berardo