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1.1. A SOCIEDADE EM MUDANÇA

1.1.1 A Educação Inclusiva

1.1.1.1 Conceito de Necessidades Educativas Especiais

No âmbito do atendimento educativo a alunos com Necessidades Educati- vas Especiais (NEE) salientamos o conceito de NEE, uma vez que contribuiu para um avanço qualitativo na evolução das perspectivas educacionais de atendimento educativo aos alunos com deficiência. Assim, este conceito surge pela primeira vez, no Reino Unido, no relatório de Warnock (1978). De acordo com o mesmo relatório, um aluno tem NEE quando comparativamente com os alunos do seu nível etário, apresenta dificuldades significativamente maiores para aprender ou tem problemas de ordem física, sensorial, intelectual, emocional, social ou uma combinação das problemáticas anteriormente mencionadas, sendo necessário recorrer a currículos especiais ou a condições de aprendizagem adaptadas. O relatório (ibidem: 36) refere também que o conceito de NEE “engloba não só alu- nos com deficiências, mas todos aqueles que, ao longo do seu percurso escolar possam apresentar dificuldades específicas de aprendizagem”. Acrescenta ainda que, por NEE, se entende todos aqueles que precisam de ajuda educativa em algum momento do seu percurso escolar, independentemente da sua duração ou gravidade e assume que a finalidade da educação tem que ser igual para todas as crianças e jovens, sejam elas deficientes ou não. No mesmo relatório, as necessidades educativas perspectivam-se também, em relação ao tipo e grau de problemas para a aprendizagem. Desta forma, estas classificam-se de ligeiras e temporárias a severas e permanentes.

Em suma, o relatório Warnock centra a problemática da deficiência no modelo educativo em detrimento do modelo médico, acentuando a dimensão social das problemáticas e aponta para a necessidade da organização escola proporcionar recursos e processos de apoio adequados à tipologia das dificulda- des dos alunos, no sentido destes acederem com sucesso aos objectivos gerais de aprendizagem nos ambientes educacionais regulares, sempre que possível.

De acordo com Rodrigues (2001: 17), a introdução deste conceito (NEE) e o modelo de apoio subjacente constitui “uma mudança conceptual” de importância decisiva, na medida em que, se passa de “uma visão categorial para uma visão não categorial”, isto é, passa-se “da concepção médico-pedagógica (centrada na

categoria de deficiência) para uma concepção educacional (centrada nas neces- sidades educativas especiais)”.

Na tentativa de operacionalizar o conceito, apareceram muitas definições de NEE. De seguida, citaremos algumas.

Brennan (1988, cit in Correia, 1997:48), afirma que “há uma necessidade educativa especial quando um problema (físico, sensorial, intelectual, emocional, social ou qualquer combinação destas problemáticas) afecta a aprendizagem ao ponto de serem necessários acessos especiais ao currículo, ao currículo especial ou modificado, ou a condições de aprendizagem especialmente adaptadas para que o aluno possa receber uma educação apropriada”. No que se refere ao tipo e grau do problema, este autor também refere que a necessidade educativa “pode classificar-se de ligeira a severa e pode ser permanente ou manifestar-se durante uma fase do desenvolvimento do aluno”.

Ao referir-se ao mesmo conceito, Marchasi e Martin (1990, cit in Correia 1997: 48) consideram alunos com NEE aqueles que “apresentam um problema de aprendizagem, durante o seu percurso escolar, que exige uma atenção específica e uma gama de recursos educativos diferentes daqueles necessários para os seus companheiros da mesma idade”.

O conceito de NEE clarificado na Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994: 17) também dá o seu contributo considerando que a expressão “necessida- des educativas especiais refere-se a todas as crianças e jovens cujas carências se relacionam com deficiências ou dificuldades escolares”.

No mesmo sentido, Correia (1997: 48) refere que o conceito NEE “surge da evolução de conceitos através do tempo e vem responder ao princípio da pro- gressiva democratização das sociedades, reflectindo o postulado na filosofia da integração e proporcionando uma igualdade de direitos, nomeadamente no que diz respeito à não discriminação por razões de raça, religião, opinião, característi- cas intelectuais e físicas, a toda a criança e adolescente em idade escolar”. Afir- ma também que este conceito se aplica “a crianças e adolescentes com proble- mas sensoriais, físicos, intelectuais e emocionais e, também, com dificuldades de aprendizagem específicas derivadas de factores orgânicos ou ambientais”. Consi- dera ainda que o mesmo conceito abrange alunos com “aprendizagens atípicas” e

que, por isso, não acompanham o currículo. Neste sentido, todos os alunos com NEE têm “direito a um programa de educação público, adequado e gratuito, num meio de aprendizagem o mais apropriado possível, que responda às suas neces- sidades educativas, ao seu ritmo e estilos de aprendizagem”.

Na mesma linha de Correia, Armstrong e Barton (2003, cit in Sanches I. e Teodoro A., 2006: 67) consideram que “os alunos que têm necessidades educati- vas especiais (…) são alunos que têm dificuldades de aprendizagem, muito ligei- ras ou mais graves, no plano intelectual ou no domínio da escrita e da leitura. A maioria dos alunos tem insucesso nas aprendizagens básicas. Muitos deles são jovens que têm perturbações afectivas ou do comportamento, mais ou menos graves, de origem diversa”.

Desta forma, o conceito NEE deixou de estar centrado exclusivamente nas crianças e jovens com deficiência tornando-se um conceito mais generalizado e abrangente. Assim é colocada a tónica no acto educativo, centrado na diferencia- ção curricular inclusiva, construída em função dos contextos de pertença dos alu- nos e na procura de vias escolares diferentes para dar resposta à heterogeneida- de, implementando uma praxis que contemple diferentes metodologias que tenham em atenção os ritmos e os estilos de aprendizagem dos alunos (Roldão, 2003). Esta mudança implicou uma reconceptualização do sistema de apoio aos alunos com NEE, destacando a prestação educativa e o perfil de funcionalidade do aluno, com o objectivo de serem tomadas as decisões mais adequadas às necessidades dos mesmos, de forma a garantir sucesso e integração plena na escola e na sociedade. Para isso, as medidas educativas devem ser implementa- das sempre que possível, nas escolas regulares.

Assim sendo e retomando Correia (2003: 16) os alunos com NEE trazem consigo “um conjunto de características, de capacidades, mas também de neces- sidades” específicas que, no quotidiano escolar é fundamental “dar atenção no sentido de maximizar o seu potencial”.

Este autor (2003: 17-18) refere que os alunos com NEE são aqueles que, “por exibirem determinadas condições específicas, podem necessitar de servi- ços de Educação Especial durante parte ou todo o seu percurso escolar, de forma a facilitar o seu desenvolvimento académico, pessoal e socioemocional” e

clarifica o que se entende por condições específicas e serviços de Educação Especial. Assim, “por condições específicas entende-se o conjunto de problemáti- cas relacionadas com o autismo, a surdo-cegueira, a deficiência auditiva, a defi- ciência visual, os problemas motores, as perturbações emocionais graves, os problemas de comportamento, as dificuldades de aprendizagem, os problemas de comunicação, a multideficiência e os outros problemas de saúde (sida, epilepsia, diabetes, etc.) ”. A identificação das condições específicas deve ser feita através de uma avaliação compreensiva, levada a cabo por uma equipa multidisciplinar.

Por serviços de Educação Especial, o mesmo autor (ibidem), designa “o conjunto de serviços de apoio especializados (do foro educacional, terapêutico, psicológico, social e clínico) destinados a responder às necessidades especiais do aluno com base nas suas características, capacidades e necessidades (…). Considera ainda que estes serviços devem ser prestados sempre que possível na classe regular.

Dentro de um vasto leque de problemas que as crianças e jovens podem apresentar e, uma vez que, estes têm fortes implicações na intervenção educati- va, Simeonsson (1994, cit. in Bairrão 1998: 29) distingue “os problemas de baixa frequência e alta intensidade dos problemas de alta frequência e baixa intensida- de”. Os primeiros correspondem àqueles que têm grandes probabilidades de pos- suírem uma etiologia biológica, inata ou congénita e quanto mais precocemente forem detectados mais rapidamente podem ser alvo de intervenção de serviços médicos e educativos. Estes exigem um conjunto de recursos humanos e mate- riais mais vastos, diversificados e especializados para apoiar as suas necessida- des educativas. No entanto, estas problemáticas mais graves, são em termos percentuais pouco frequentes na população escolar (Madureira, 2005).

Os problemas de alta frequência e baixa intensidade são os casos de alu- nos com problemas de saúde, de dificuldades de aprendizagem, de comporta- mento e de socialização que, por vezes, associados ou não a problemas sociais, familiares, entre outros, terão problemas de aprendizagem se não tiverem uma intervenção educativa de qualidade adequada e atempada. Este último grupo apresenta uma dimensão crescente na população escolar (Madureira, 2005.)

Em síntese, o conceito de NEE vai ao encontro da filosofia da Educação Inclusiva que pressupõe escolas abertas a todos, onde todos aprendam juntos, quaisquer que sejam as suas dificuldades. Perspectiva também a necessidade da intervenção educativa promover respostas apropriadas às necessidades educati- vas especiais da população escolar.

1.1.1.2 O Conceito de Inclusão: do modelo integrador ao modelo inclusivo