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2.2 VER ESTÉTICO

2.2.1 Conceito de objetos estéticos

No texto Observações dispersas acerca de diversos objetos estéticos (TBST: 195- 215), Schiller argumenta que todas as propriedades das coisas, nas condições de possibilidade que permitem que se tornem estéticas, em suas diferenças objetivas e nas suas relações subjetivas, caem na nossa capacidade ativa ou passiva de maneiras diferenciadas de acordo com o agrado e o desagrado em intensidade e valor, notadamente o agradável, o bom, o belo e o sublime. O belo e o sublime são próprios da arte. O objeto da arte é causar prazer, ser agradável não é digno da arte. O bom, seja no âmbito teórico ou prático, não serve de meio para a sensibilidade.

O agradável é domínio do sensível e o bom é de domínio da razão. O agradável, notadamente o útil, causa prazer apenas aos sentidos, agrada por meio da matéria, já a matéria excita os sentidos e se distingue do bom. O bom distingue-se pela forma racional e, por meio dela, se separa do agradável. O agradável por meio da matéria agrada aos sentidos, entretanto,

tudo o que é forma agrada tão somente a razão. Já o agradável excita os sentidos, não faz uso de forma alguma, mas da matéria, e é apenas sentido.

O bom agrada somente à razão, pois tudo o que é forma agrada a razão, no que se distingue do agradável, que se volta à matéria. O bom não constitui o objetivo da arte, ele não serve de meio para a sensibilidade, mas de meio para a racionalidade. No plano teórico ou no plano prático, não se serve da sensibilidade para firmar-se. O bom agrada por meio da forma que é conforme a razão. O bom é pensado e agrada ao conceito, faculta o conhecimento.

O agradável, estado natural sensível, não produz qualquer conhecimento do seu objeto e não se funda em nenhum. “É agradável apenas pelo fato de ser sentido, e o seu conceito desaparece completamente assim que abstraímos da afetividade dos sentidos, ou que apenas alteramos” (TBST: 195). A lágrima que cai do olho não permite ajuizar se indica dor ou prazer, alegria, se um ou outro ajuizamos de maneira correta. Em que pese que “o elemento objetivo é completamente independente de nós, e o que hoje nos parece verdadeiro, conveniente, racional, parecer-nos-á [...] também assim daqui a vinte anos” (TBST: 196).

O bom permanece idêntico a si mesmo, livre das mutações. O nosso juízo sobre o que é agradável muda da mesma maneira que muda a nossa situação em relação ao seu objeto. Não se trata, portanto, de “uma propriedade do objeto, mas de algo que só surge a partir da relação de um objeto com os nossos sentidos – pois a natureza dos sentidos é uma condição necessária do mesmo” (TBST: 195). No entanto, o bom é o inverso do agradável. O bom já é bom antes de ser representado e sentido. A propriedade do bom é sentida, “através da qual ele agrada, impõe-se perfeitamente por si mesma sem necessitar do nosso sujeito, embora o nosso agrado em relação ao mesmo assente numa receptividade do nosso ser. O bom é sentido porque é, já o agradável só é por ser sentido” (TBST: 195).

Nós, na disposição natural de seres sensíveis e racionais, sentimos e imaginamos o

mundo dentro e fora de nós. O bom é pensado, agrada ao conceito, conceito com conteúdo alarga o nosso conhecimento, uma vez que “cria e pressupõe um conceito do seu objeto: o motivo de nosso agrado reside no objeto, embora o próprio agrado seja um estado no qual nós nos encontramos”, (TBST: 195) no estado determinado pelo conceito bom em sua forma. Também o bom é um objeto sujeito às sensações, mas não a sensações diretas como o que é agradável ou a sensações mistas como o belo. O bom não atiça as apetições como o agradável, igualmente não apela às inclinações como o belo.

Entendemos o bom como aquilo que a razão reconhece como adequado às suas leis teóricas e/ou práticas. Na lida com o mesmo objeto pode-se “sintonizar completamente com a razão teórica e contradizer no mais elevado grau à razão prática” (TBST: 195). Nem tudo o que parece bom confirma-se como bom, o sentido tomado do conceito pode enganar, não naquilo que é sentido. O parecer, do conceito, e o aparecer, do sentido, nas suas relações móveis da mobilidade buscam determinabilidade, e a razão dá a direção na forma. “O que nos agrada apenas pela sua forma é bom, e é bom de modo absoluto e incondicional, embora a sua forma seja em simultâneo o seu conteúdo”. (TBST: 195). O bom goza de estatuto próprio da moralidade, “o bom é um objeto sujeito a sensações, mas não a sensações diretas como o que é agradável ou as sensações mistas como o belo. Não suscita apetição como o primeiro nem apela à inclinação como o segundo. A pura representação do bom só pode incutir respeito” (TBST: 197).

O belo já se oferece na disposição natural ao homem que sente o que lhe é apresentado aos sentidos, tal como no agradável, mas o belo agrada apenas como fenômeno. Ambos igualam-se pelo fato de nem criarem nem pressuporem qualquer conhecimento do seu objeto. Diferencia-se o agradável do belo, pois o belo agrada pela forma do seu fenômeno e não pela sensação material. O belo agrada ao “sujeito racional apenas à medida que ele é simultaneamente sensível; mas também ele só agrada ao sujeito ao sujeito sensível à medida que ele é simultaneamente racional” (TBST: 196).

O belo implica a ação recíproca entre sensível e razão, razão e sensível. O belo não agrada apenas ao indivíduo, mas a “toda espécie e, embora exista apenas pela sua relação com entes sensíveis e racionais, ele é, contudo, independente de todas as determinações empíricas da sensibilidade e permanece idêntico, mesmo quando a natureza privada dos sujeitos se modifica” (TBST: 195).

O belo agrada por meio dos sentidos, nisso se distingue do bom. Ele o faz pela maneira racional, por intermédio da qual se distingue do que é agradável. O belo agrada por meio de uma forma similar à razão. O belo é contemplado, intuído e vivido: “O belo tem, portanto em comum com o bom precisamente aquilo que o distancia do que é agradável e aparta-se do bom precisamente por aquilo que o leva a aproximar-se do que é agradável” (TBST: 195).

As especificidades de cada conceito, agradável, bom, belo, não esconde que um objeto pode ser feio, imperfeito, do mesmo modo que uma ação moral pode ser condenável e, no entanto, agradável, agradar aos sentidos. Da mesma maneira, um objeto pode vir a indignar os

sentidos e, contudo, ser bom, agradando à razão. “Que um objeto pode indignar o sentimento moral, de acordo com a sua essência interior, e, contudo agradar no ato de contemplação por ser belo” (TBST: 197). O belo é sentido, e o ânimo se faz o fiel da balança. “A causa consiste no fato de se tratar, em todas as representações distintas, de uma capacidade diferente do ânimo que está interessada de modo diferente” (TBST: 197) no objeto.

De fato, não esgotamos a predicação estética e a sua classificação. Notadamente, existem objetos feios e repugnantes para os sentidos e não para os entendimentos, conseqüentemente, indiferentes para a avaliação moral. Contudo, a fruição dos objetos no estado estético, “agradam, fazendo-o inclusivamente em tão alto grau que sacrificamos de bom grado o prazer dos sentidos e do entendimento para nos proporcionarmos a fruição dos mesmos” (TBST: 197).

O prazer, a fruição, é uma fonte estética determinável de dentro, e a paixão é comum em toda a espécie humana nas amarras do destino. Uma pessoa comum e de pequenos predicados qualificativos começa a agradar se tomada de paixão violenta, mesmo que não eleve seu valor, tomo-a num objeto de pavor e terror frente à paixão determinante, assim como objetos comuns podem-se tornar fontes de prazer, à medida que ampliamos e tentamos ultrapassar a capacidade de apreensão. Um leão, cavalo e cão são objetos comuns,

se os excitarmos para o combate, confronto, a raiva, esse animais elevam-se à categoria de objetos estéticos, e principalmente a observá-los com um sentimento que confina com prazer e respeito. A propensão para a paixão, o poder dos sentimentos simpáticos, que nos impele na natureza para as visões de sofrimento, de terror, de indignação, que nos causa tanto gosto nas descrições de grandes catástrofes, tudo isso comporta a existência de uma quarta fonte de prazer, que nem o que é agradável, nem o bom, nem o belo conseguem produzir (TBST: 198).